A vida com TDAH
TDAH, uma palavra tão comum e, ao mesmo tempo, um tabu. Aparentemente, o mundo dividiu-se em dois grupos: os que acreditam que o TDAH é uma deficiência mental e os que acham que o TDAH é fruto de mentes preguiçosas que carecem de correção enquanto ainda estão em fase de desenvolvimento. Como se costuma dizer “tempos fáceis formam pessoas fracas” (G. Michael Hopf).
Acredita-se que o TDAH assim como a ansiedade e a depressão, são doenças de pessoas que não aprenderam a lidar com as dificuldades da vida. Mas será mesmo assim?
O que é o TDAH?
O TDAH, também conhecido por Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, é um distúrbio comportamental, normalmente diagnosticado na infância.
Este distúrbio começou a ganhar destaque, e a ser objeto de estudo na América do Norte, nos anos 90, em crianças, adolescentes e, posteriormente, em adultos.
Nos anos 80 e 90, era visto como um transtorno infantil que continuava na vida adulta como uma perturbação do desenvolvimento, sendo considerado um quadro crónico incurável. Os sintomas desta perturbação começaram a comprometer o bem-estar comum. Problemas de convivência no ambiente de trabalho tornaram-se o motivo principal deste objeto de estudo em pessoas adultas.
Ao longo dos anos, a nomenclatura do transtorno variou algumas vezes, adotando nomes como: Lesão Cerebral Mínima, Reação Hipercinética da Infância, Distúrbio de Atenção ou Distúrbio de Hiperatividade com Déficit de Atenção/Hiperatividade.
De onde eu venho, em Angola, diz-se que estamos a falar apenas de crianças, adolescentes e adultos distraídos que precisam de aprender o que é disciplina.
Sintomas
Antigamente, os sintomas eram diagnosticados a partir dos sete anos de idade, porém, atualmente, já existem dados de bebés com esses sintomas, devido ao desenvolvimento da tecnologia.
Dificuldade de aprendizagem, perturbações motoras, tais como, equilíbrio, noção de espaço e tempo, esquema corporal, esquecimento constante e fracasso escolar são os principais sintomas.
Estes sintomas são, maioritariamente reconhecidos após a inserção do indivíduo na sociedade, ou seja, quando a criança começa a ir à escola, dificuldades de atenção e inquietação são percebidas com maior frequência pelos professores.
O transtorno pode variar, podendo ser dividido em três tipos:
- Predominância de dificuldades de atenção;
- Predominância de impulsividade e hiperatividade;
- Combinação de ambos.
O primeiro caso é o mais comum e, maioritariamente, diagnosticado em pessoas do sexo masculino, na infância, sendo distribuído de forma igualitária na fase adulta. Este tipo de TDAH apresenta características como falta de atenção, dificuldades para sujeitar-se aos detalhes, escuta não ativa e falta de organização, o que dificulta ainda mais o cumprimento das atividades.
No tipo combinado, que é tido como o mais acentuado, pois, como diz o nome, combina os sintomas de ambos os casos. Distração ao mínimo estímulo é o maior dos sintomas. Quase não existe a possibilidade da conclusão de tarefas, não só pela falta de atenção, mas também pela hiperatividade, o que provoca inquietação motora, intelectual e verbal. Já a impulsividade, manifesta-se através de respostas aceleradas, dificuldade de auto-controlo e de auto-regulação, bem como na incapacidade de seguir de forma sequenciada e pausada e de antecipar as consequências dos próprios atos.
Causas
O TDAH resulta de vários fatores genéticos e ambientais, dos quais podemos destacar: exposição ao álcool ou ao tabaco durante a gestação e baixo peso à nascença. Porém, apenas estas duas condições não são suficientes, pois não afetam de igual modo todas as crianças. Para além disso, não foi identificado um gene específico responsável pelo desenvolvimento da perturbação.
Esta lacuna deixada pela ciência, dá lugar às teorias empíricas mencionadas acima. Pelo menos, onde eu cresci, os sintomas do TDAH eram classificados como “cabeça no ar”, “viajar na maionese”, “pessoa que não pensa” e, muitas vezes, “doente mental”. E, diante desta situação, surge a pergunta: Este transtorno é uma condição física ou uma justificação para a falta de disciplina?
Os estudos sobre este transtorno não provam a 100% que ele, de facto, existe, mas sabemos que adultos, que foram rigidamente disciplinados enquanto crianças, não se viram livres do transtorno, ou seja, é necessário, como participantes na sociedade, darmos a devida atenção para estes casos, pois muitas são as pessoas com TDAH que se sentem discriminadas e excluídas e pouco se fala sobre isso.
Fatores Neurobiológicos do TDAH
Segundo pesquisas da área da neurologia, a partir de tecnologias de imagem cerebral e estudos de biologia molecular, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é causado por um conjunto de aspectos biológicos, genéticos e cerebrais, sendo tido como uma condição maligna.
Esta condição consiste numa disfunção da neurotransmissão dopaminérgica na área frontal, regiões subcorticais e região límbica cerebral. A alteração destas regiões cerebrais resulta na impulsividade do paciente. Insuficiências no córtex pré-frontal e amígdala, a partir da neurotransmissão das catecolaminas, resultam em sintomas de esquecimento, distratibilidade, impulsividade e desorganização.
Estudos indicam que a maioria dos genes específicos implicados no TDAH codifica sistemas de sinais de catecolaminas e incluem o transportador de dopamina, transportador de noradrenalina, receptores dopaminérgicos D4 e D5, dopamina hidroxilase e a proteína-25, que facilitam a liberação dos neurotransmissores implicados no TDAH.
Mito ou Verdade?
Apesar da controvérsia e da incompreensão social, o TDAH é um transtorno real que exige atenção, adaptação e inclusão, e não deve ser visto apenas como incapacidade ou falta de disciplina.
O aumento de casos em várias idades levanta questões sobre como a sociedade deve lidar com estas pessoas: adaptar-se a elas ou exigir que se adaptem a nós? Os sintomas do TDAH, como desatenção, impulsividade e desorganização, podem ocorrer em qualquer indivíduo, mas para diagnóstico consideram-se a intensidade e a persistência ao longo do tempo.
Viver com TDAH
O indivíduo com TDAH será sempre imaturo no desenvolvimento da capacidade de persistência e da atenção e controlo da ação quando comparado aos indivíduos de sua faixa de desenvolvimento.
No entanto, a ciência, por si só, não é suficiente para estabelecer essa diferença entre indivíduos considerados mais ou menos imaturos. Por esse motivo, este transtorno é, em certa medida, dependente do contexto social e moral.
Referimo-nos a um transtorno que dificilmente é identificado, o que diminui a compreensão da sociedade e, por consequência, a aceitação.
Difícil? Sim. De um lado, a incompreensão e intolerância de quem não tem, do outro, a vergonha e o receio de quem tem TDAH. As tentativas constantes de organização desencadeiam episódios constantes de frustração. Aparentemente, é mais fácil aceitar e conformar-se com o facto de ser “lerdo”, “lento” e “incapaz” do que com um mundo onde existe um maior espaço para a compreensão deste tipo de transtorno. Apesar de tudo, a psicofarmacologia proporciona as soluções necessárias para que estes indivíduos possam melhorar a sua qualidade de vida.
Viver, não sobreviver
A pergunta feita por uma pessoa com TDAH é: o que posso fazer para melhorar? Porque, verdade seja dita, apenas ler um artigo sobre TDAH e tomar fármacos não é suficiente para quem se sente como um “peixe fora de água”.
Escrevo-vos porque, apesar de a ciência não o conseguir comprovar totalmente e a sociedade muitas vezes nos rejeitar, é possível viver plenamente com este transtorno, sendo a aceitação o primeiro passo.
Aceitar que, por vezes, se demora mais a perceber as coisas ou se interpreta mal o que é transmitido é fundamental. Dar-se o tempo necessário, não ter medo de repetir perguntas para compreender melhor e perceber que a impaciência dos outros diz mais sobre eles do que sobre nós próprios é essencial.
Este transtorno não te torna fraco ou estranho; torna-te apenas diferente, e está tudo bem.
Fonte da imagem de capa: Vida Simples
Artigo revisto por: Mariana Pinto
AUTORIA
A Raquel é estudante do 2° do curso de Relações Públicas e Comunicação Empresarial. Amante de música, ama falar e conectar-se com poucas pessoas. Um novo desafio é sempre uma oportunidade para sair da zona de conforto e “injetar” um pouco de dopamina nas suas veias. Após duas tentativas de ser engenheira química, após perder o seu pai, rendeu-se ao desejo que sempre teve de ser uma comunicadora e foi assim que conheceu a ESCS. Para onde ela vai? Isso é um mistério que ela está ansiosa para descobrir.






