A nossa opinião é mesmo nossa?
Todos temos as nossas convicções e valores e é a partir daí que formamos as nossas opiniões sobre diferentes assuntos. Mas será que é mesmo assim? Hoje em dia, a maior parte das pessoas tem fácil acesso a ideias e opiniões já formuladas, especialmente nas redes sociais. Isto pode ser bom em teoria, na medida em que podemos alargar os nossos horizontes de compreensão e abrir a mente a novas formas de pensar ao termos contacto com uma variedade de pontos de vista.
Mas, na realidade, aquilo que acontece é que muitas vezes estamos inseridos em “câmaras de eco”, ou seja, só ouvimos aquilo que queremos ouvir. Os algoritmos de plataformas como o Instagram e o TikTok já estão programados para analisar o tipo de conteúdo com que interagimos e fazer recomendações com base nisso. Assim, quando estamos a fazer scroll e nos aparece um vídeo de alguém a dar uma “unpopular opinion” (que, sinceramente, na maior parte das vezes nem é assim tão impopular) e esta até nos agrada, não estamos perante uma grande coincidência, mas sim uma forma engenhosa de manter as pessoas na plataforma por mais tempo, já que recebem conteúdo de que gostam.
Isto facilita-nos bastante a vida, porque quando encontramos uma opinião que até nos soa bem e já vem com argumentos aparentemente sólidos que a defendem, não precisamos de perder tempo a fazer uma pesquisa sobre o assunto ou sequer a pensar. Já está tudo ali mastigado, só é preciso engolir. Depois, quando nos perguntarem a nossa opinião, repetimos tudo, muitas vezes até usando os mesmo exemplos e as mesmas palavras.

Isto é um problema por duas razões principais. A primeira é um pouco óbvia, julgo eu. Trata-se da falta de pensamento próprio. Como eu já tinha referido, a existência de opiniões pré-feitas faz com que deixemos de nos esforçar para validar os nossos argumentos. “É bonito e até faz sentido? Então passa para cá!”. A nossa mente fica preguiçosa. Deixamos de ser capazes de formar uma opinião sem ouvir a opinião de outra pessoa primeiro. Muitas vezes a nossa opinião sobre um determinado assunto da atualidade depende do tipo de conteúdo que consumimos acerca do mesmo, quando, na verdade, devia depender de uma análise feita por nós, sob os nossos critérios e juízos de valor. É certo que esses critérios são partilhados e é muito difícil ter uma opinião absolutamente inédita e exclusivamente nossa, mas se não dependermos dos outros para pensar, vamos ter sempre algo interessante para acrescentar ao assunto.

A segunda razão pela qual esta questão é problemática não é tão explícita quanto a primeira. Quando aceitamos uma opinião alheia à primeira é porque esta aparenta estar alinhada com as nossas convicções. Contudo, os princípios dos outros nem sempre são transparentes. Algumas dessas opiniões são baseadas em ideias erradas ou preconceitos, mas isso nem sempre se nota no produto final. Este é o verdadeiro perigo de aceitar opiniões como se fossem nossas sem refletir sobre o assunto. Além da probabilidade de estarmos a ir contra os nossos valores de base, esta é uma forma muito fácil de manipulação. Coloca a tua discriminação no meio de uma ideia atual e faz com que tudo pareça estar relacionado. Fala de forma simpática, sem dar a entender que estás a criticar algo, e acabarás por ter pessoas que não concordariam contigo a divulgar a tua opinião como se fosse delas. Quem vê opiniões nem sempre vê convicções.
Nada disto serve para julgar ninguém. É óbvio que, de tempos em tempos, consumimos algum produto mediático que influencia a nossa forma de pensar ou que nos ajuda a reforçar as nossas ideias. É quase impossível ter uma opinião cem por cento original. Também seria mau se rejeitássemos todas as opiniões por medo de nos deixar influenciar. É importante ter uma mente aberta, mas não aceitar tudo cegamente, caso contrário acabaríamos por deixar de ter identidade própria.
Fonte: Freepik
Artigo corrigido por: Mariana Ranha
AUTORIA
A Carla Vitório, vinda da Lourinhã, terminou o secundário sem saber o que queria fazer e acabou por cair de paraquedas no curso de Jornalismo da ESCS. Descobriu, através da disciplina de Língua e Expressão do Português, que gosta muito de gramática e de espalhar o uso do bom português, logo resolveu juntar-se ao departamento de Correção Linguística da ESCS Magazine. Apesar do seu humor sarcástico e um pouco seco, a Carla adora criar boas relações com os outros e dá o seu melhor para que ninguém se sinta julgado quando ela está por perto.

