Liberdade de expressão ou cultura do cancelamento: onde está o limite?
Vivemos numa era em que a transmissão de informação é extremamente rápida e a opinião conquistou um palco permanente nas redes sociais. Neste novo cenário, conceitos como liberdade de expressão e cultura do cancelamento colidem quase diariamente, obrigando-nos a repensar os limites entre o direito de falar e o dever de ouvir. Em Portugal, tal como noutros países, este debate tem vindo a ganhar força, mas talvez ainda careça da profundidade necessária para evitar que se transforme numa luta de surdos.
A liberdade de expressão é, e deve continuar a ser, um pilar essencial a qualquer sociedade democrática. É através dela que se assegura a pluralidade de ideias e o progresso social. No entanto, liberdade não é sinónimo de impunidade. Expressar uma opinião não nos isenta da responsabilidade sobre o seu conteúdo, nem nos protege das consequências sociais que dela possam advir.

É aqui que entra a chamada cultura do cancelamento. Originalmente foi pensada como uma forma de responsabilização social ou um mecanismo popular para chamar à atenção figuras públicas, empresas ou instituições que transgridem normas éticas ou sociais. No entanto, tornou-se rapidamente um fenómeno mais punitivo do que pedagógico. Em vez de promover o diálogo, muitas vezes silencia. Em vez de incentivar à mudança, tende a marginalizar.
Em Portugal, embora o fenómeno não atinja os níveis extremos que se observam noutros contextos, como o dos Estados Unidos, a influência global das redes sociais trouxe consigo esta nova forma de “justiça popular”. Casos de figuras públicas “canceladas” por opiniões controversas têm-se multiplicado.
O problema central reside na ausência de critérios claros. O que merece, afinal, ser cancelado? Um comentário infeliz, uma opinião impopular, um erro cometido há anos? E quem decide isso? Estamos a criar um tribunal informal onde qualquer cidadão se torna juiz, e onde o julgamento ocorre sem contraditório, sem contexto e sem direito a redenção.
A consequência disto é grave: instala-se o medo de falar. Se antes a autocensura era associada a regimes autoritários, hoje começa a surgir em sociedades livres, por força da reprovação imediata e viral de qualquer desvio à norma dominante. Os jovens evitam publicar opiniões, os professores hesitam em discutir temas sensíveis e os humoristas condicionam o seu discurso. Isto não é progresso, mas sim regressão.

Claro que não se defende aqui uma liberdade de expressão absoluta e sem filtro. Discursos de ódio, incentivo à violência e discriminação não merecem tolerância e devem ser combatidos. Mas do discurso criminoso à opinião impopular vai uma distância significativa que não pode ser ignorada. O espaço público deve acolher o desconforto, pois é nele que muitas vezes nascem as mudanças mais necessárias.
Importa também refletir sobre a eficácia do cancelamento. Quantas vezes resulta numa verdadeira mudança de comportamento? Quantas vezes promove reflexão? Ou será apenas uma forma de punição pública que alimenta o ego coletivo e a sensação ilusória de
justiça? Cancelar não é o mesmo que educar. E, sem educação, dificilmente construiremos uma sociedade mais tolerante e consciente.
Em vez de cultivar o cancelamento, talvez devêssemos apostar no diálogo e na responsabilização construtiva. Criticar, sim. Denunciar injustiças, sem dúvida. Mas com espaço para o arrependimento, para o contexto, para a mudança. O objetivo não deve ser calar, mas compreender e, se necessário, corrigir.
No final de contas, o verdadeiro teste da liberdade de expressão não está em defender o que é confortável, mas em permitir o que é desconfortável, desde que dentro dos limites da civilidade e da legalidade. E a verdadeira justiça social não está em cancelar o outro, mas em incluí-lo num processo coletivo de aprendizagem.
Numa altura em que celebramos o 25 de Abril e relembramos a conquista da liberdade, este debate torna-se ainda mais pertinente. A liberdade de expressão foi uma das grandes vitórias da Revolução dos Cravos, mas não pode ser encarada como adquirida de forma permanente. Cabe-nos, hoje, continuar a defendê-la, e não apenas contra censuras formais, mas também contra novas formas de silenciamento disfarçadas de justiça social. A democracia constroi-se todos os dias, também na forma como escolhemos ouvir e discordar.
Talvez o limite entre a liberdade de expressão e a cultura do cancelamento esteja exatamente aí: na capacidade de equilibrar a crítica com a empatia, a firmeza com a escuta, e a indignação com a inteligência. Só assim poderemos construir uma sociedade que seja, de facto, livre e justa.
Fonte de capa: Unsplash
Artigo Revisto por: Carla Vitório
AUTORIA
Sonhador por natureza, curioso e sempre atento ao que o rodeia, o Samuel de 21 anos, finalista da licenciatura em Publicidade e Marketing, encontrou na editoria de Opinião o lugar ideal para dar asas às suas ideias, um espaço onde pode escrever sobre o que mais o intriga: o mundo em constante mudança. Para ele, opinar é mais do que escrever, é pensar alto. Gosta de refletir sobre a atualidade e de transformar pensamentos soltos em palavras que façam sentido de ser lidas. Vê na escrita uma forma de explorar o mundo e partilhar a sua visão com quem o lê.

