Literatura

Niketche, a dança da mulher no palco do homem

Rami, Ju, Lu, Saly, Mauá, Eva, Gaby.
Estas são as mulheres que caíram nas palavras de amor de Tony, um oficial da polícia muito respeitado no sul de Moçambique.

Niketche, uma história de poligamia que nos faz ler o testemunho de Rami, em primeira pessoa. Vemos a rainha-mãe, a primeira mulher de Tony, a viajar por Moçambique a conhecer todas as mulheres que foram roubando Tony da sua cama, noite após noite. 

Viajamos no corpo de uma mulher que procura recuperar o carinho, o amor que sentiu nos primeiros anos de casamento. Vemos a magia, os lamentos, terapias de amor, correntes espirituais e misoginia que assombra as mulheres moçambicanas.
A primeira pessoa choca-nos. Sentimos na pele as injustiças e a revolta de não podermos reescrever o destino destas mulheres.  

Rami é casada e tem filhos com Tony. São já 20 anos de matrimónio. Tony tem 50 anos e não resiste à abundância de mulheres que procuram no homem sustento, amor e ser alguém na sociedade.
Acompanhamos a personagem principal pelos caminhos desconhecidos que Rami escolhe para entender onde é que errou. Quer conhecer todas as mulheres de Tony e procurar nelas o que já não existe em si própria. 

Niketche educa-nos culturalmente sobre a diferença entre a cultura do norte e do sul de Moçambique, daquilo que é considerado ser mulher, mãe e esposa. 

Rami ouve que não é mulher, que é uma criança porque a tradição do Sul não ensina o amor, o sexo, o prazer. Ouve que a culpa é sua por não ter conseguido segurar o marido, que o problema das mulheres modernas é falar demais – vaga da reivindicação da mulher. Rami aprendeu obediência, maternidade, a aceitar a violência doméstica e que a mulher é como o tambor do homem. Rami e estas mulheres aprenderam a não ter voz.

 “Desejos de um homem são desejos de Deus. Não se devem negar 

As mulheres são impedidas de se aproximar da vida pública por causa da menstruação. Não podem comer ovos porque arriscam-se a ter filhos carecas, ou a comportarem-se como
galinhas poedeiras na hora do parto. 

Há mitos que aproximam as mulheres da cozinha e afastam o homem do fogão porque caso se aproximem podem tornar-se estéreis, impotentes.

As mulheres do norte gostam dos homens do sul porque têm dinheiro.
Os homens do norte gostam das mulheres do sul porque são submissas.
As mulheres do sul gostam dos homens do norte porque são sensíveis e não agridem.

Rami pergunta às mulheres na rua sobre a poligamia, sobre o amor, sobre o prazer. Choro, risos, desespero. A protagonista percebe que não é a única que passa pelos infortúnios do amor fugaz e traiçoeiro. Houve histórias de mulheres que foram violadas durante a guerra colonial pelos dois lados combatentes. Mulheres que passaram pela poligamia escondida, que arranjaram amantes sem o seu marido saber – porque a mulher não tem direito a procurar outro homem quando o principal falha em ser um bom marido. Só o homem o pode fazer.

Apesar de sofrer com a poligamia, Rami e as outras mulheres entendem que se deve preservar a cultura, respeitar o que as suas mães e avós passaram.
Rami percebe que a poligamia nunca desapareceu no sul, contudo, sofreu com a colonização e com a religião cristã. Esta que veio proibir os rituais de iniciação, criticar a poligamia e vangloriar o casamento monógamo. Mas são as mesmas pessoas que afirmam ser contra a poligamia, quando o sol está no alto, que se recolhem na toca de uma terceira mulher, ao escurecer. “A poligamia dá privilégios. Ter mordomia é coisa boa: uma mulher para cozinhar, outra para lavar os pés, uma para passear, outra para passar a noite. Ter reprodutoras de mão-de-obra, para as pastagens e gado, para os campos de cereais, para tudo, sem o menor esforço, pelo simples facto de ter nascido homem”, reflete para si mesma Rami Rosa Maria. 

Ler este livro sendo mulher

Ao ler o livro, reparo que acabo por perder o meu interesse pelo enredo. Não existe um breaking point – uma altura em que Rami e as outras mulheres percebem que não vale a pena lutar por Tony e que não devem aceitar o regime polígamo.
Importante é refletir sobre a forma como eu, influenciada pelos meus próprios valores e costumes, vejo este romance. Ao ler o livro temos de nos pôr no lugar destas mulheres e ver o mundo pelos seus olhos. 

Ler este livro é perceber que ser mulher é diferente nos dois hemisférios. O feminismo é muito mais do que o contexto ocidental. As reivindicações femininas são diferentes em cada país, em cada cultura, devendo ser igualmente consideradas.

Uma obra que nos faz entender o que é a dança da Niketche, a dança que celebra a passagem de criança para mulher. Niketche leva-nos numa viagem de reflexão, de empoderamento feminino, ao olharmos para nós e percebermos que mulher é solo, mulher é vento, mulher é tudo e nada.

O prémio Camões de 2021 é pouco para a importância que Paulina Chiziane – voz feminina num mundo de homens – tem como escritora e, principalmente, como mulher.

Fonte da capa: Joana Oliveira

Artigo revisto por Beatriz Merêncio

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