Noites mágicas, manhãs trágicas: o terror do jovem Universitário
Como poderíamos descrever a vida de um universitário? Diria: ir às aulas, faltar às aulas, beber café, queixar-se das avaliações, ir a recurso, beber café outra vez porque o primeiro não foi suficiente, fazer trabalhos de direta e ir a festas. E ir a festas normalmente implica o quê? Beber álcool, porque o jovem universitário precisa de uma boa bebedeira. Precisa tanto de uma boa bebedeira que inventa inúmeros jogos e dinâmicas, cujo único objetivo é meter toda a gente a andar aos S ‘s. E vai uma saúde para aqui, e outra saúde para ali, o Miguel já vai no sexto penálti. Olhas em volta e percebes que estás tão bêbado como toda a gente (exceto se fores o amigo sóbrio que não bebe, é claro). Parece que tudo está em câmara lenta e puff, fica tudo escuro.
Acordas na manhã seguinte, ligas o telemóvel, já são onze da manhã e tens 4% de bateria porque não o meteste a carregar. Esqueceste-te tanto de o meter a carregar como também não te lembras de metade da noite nem como vieste para casa. A última memória que tu tens é da Rita a dizer-te “Se queres ser cá da malta, tens de beber esse copo até ao fim”. Olhas em volta e sentes-te exatamente como no videoclipe de “Last Friday Night” da Katy Perry, mas, ao menos, não existe nenhum “stranger in your bed”, e por isso agradeces ao universo.
Mas por que razão acontece isto? Parece magia, mas não é. Vamos por partes.
Primeiro, para te situar, o álcool é um termo abrangente usado para designar uma família de substâncias com propriedades comuns. Alguns dos membros desta família são o etanol, o metanol, e isopropanol. O mais consumido é o etanol, produzido através do processo da fermentação de cereais, raízes ou frutas, para obter bebidas como vinho, sidra ou a mítica jola.
Outro processo para a obtenção de álcool é a destilação: depois da fermentação, o álcool é colocado em tanques de destilaria, onde é separado da água, tornando-se mais puro e aumentando o nível alcoólico. Estamos a falar de bebidas brancas como a vodka, cachaça e rum. O seu consumo é calculado matematicamente pelos jovens, mas não estou a falar dos centilitros. Estou a falar do preço, porque as bebidas brancas são mais caras, e tudo o que se puder poupar para a próxima bebedeira é lucro.
Quando ingeres álcool, ele é absorvido pela tua corrente sanguínea e vai consequentemente afetar os neurotransmissores do teu lindo cérebro. Os principais neurotransmissores afetados são o glutamato e o GABA. O glutamato é responsável por estimular o teu corpo e mantê-lo alerta. Quando bebes, este estímulo diminui, tornando o teu raciocínio mais lento, a tua sonolência aumenta e tens menos coordenação motora. É por isso que os teus amigos te pedem para fazeres o famoso “4” para perceber o quão bêbado estás. Já o GABA é um neurotransmissor que acalma o teu corpo. Com o consumo de álcool, este tende a aumentar, deixando-te mais calmo, e é por isso que a Joana, que é conhecida por todos como sendo super stressada e introvertida, parece ter entrado num retiro espiritual de meditação.
Sim, mas ainda não chegámos à noite de ontem e à razão pela qual não te recordas das coisas. O que tu tiveste chama-se um apagão. O apagão é uma lacuna na memória de alguém sobre eventos que aconteceram enquanto estava sob o efeito do etanol. Isto acontece porque o hipocampo é inibido pelo álcool. O hipocampo é o responsável por consolidar as memórias de curto para longo prazo, e se for bloqueado é normal que não tenhas memória das coisas.
Existem dois tipos de apagão, definidos pela gravidade e pelo prejuízo na memória. O mais vulgar chama-se “apagão fragmentar” e é definido por lembranças pontuais da noite, separadas por momentos de tempo inexistentes. Por isso, quando o teu amigo João está a contar-te que a festa do ISCTE da semana passada foi “mesmo crazy” que ele até se tele transportou quatro ou cinco vezes, não estás perante um mago ou um viajante do tempo. O teu amigo João teve um apagão fragmentar e agora pensa que tem poderes mágicos. O outro tipo é a amnésia completa ou “en bloc”. Com esta forma de apagão, as memórias não podem ser recuperadas, sendo, igual a como se nunca tivessem acontecido. Como deves calcular, foi este o tipo que tu tiveste.
Entretanto, o teu telemóvel já chegou aos 10% de bateria, desbloqueias e vais para a sagrada galeria. Tens 47 fotos a fazer figuras tristes, que, se forem parar à internet, vão fazer-te ser cancelado imediatamente. Apagas as fotos e vais dormir. Juras a ti mesmo que nunca mais vais beber, mas já sabes que é mentira, porque para noites mágicas irão sempre existir manhãs trágicas.
Fonte da capa: Jcomp | Freepik
Artigo revisto por: Miguel Calixto
AUTORIA
A Madalena é uma observadora nata e aluna do curso de Audiovisual e Multimédia da ESCS. Se a virem provavelmente estará a olhar para o teto ou a colocar questões sobre tudo e mais alguma coisa. Se ela fosse uma expressão seria “Queres que te faça um desenho?” Porque ela decididamente não entendeu o que lhe acabaram de dizer, e um desenho é tudo o que precisa (ela veio de artes coitada). É na editoria de ciências que algumas das suas mil questões irão ser respondidas com o objetivo de cativar os leitores escsianos.





