“Um gap year é como um bilhete de identidade”

Bárbara Raposo, responsável pelo departamento de comunicação da Gap Year Portugal, conversa sobre o surgimento da organização, os programas disponibilizados, o sucesso do gap year em Portugal e ainda sobre o Gap Year Summit.

ESCS MAGAZINE: Em que consiste o gap year?

Bárbara Raposo: O gap year é um ano de rutura. Para ser aproveitado ao máximo, deve ser utilizado para experiências, como voluntariado, estágios, conhecimento cultural, aprendizagem de línguas e cursos. Não é exclusivo para jovens que acabam o secundário, como muitas pessoas pensam. É um período que deve ser tirado para refletir, para perceber naquilo de que se gosta. Internamente, definimos que um gap year deve ter um período mínimo de 5 meses, o que não implica que sejam 5 meses a viajar ou fora do país.

EM: Como é que a organização surgiu?

BR: A Gap Year Portugal já tem quase 7 anos. Surgiu quando o Gonçalo, o fundador, que era presidente da Associação de Estudantes da Secundária de Carregal do Sal, no distrito de Viseu, fez uma palestra sobre gap year. Curiosamente, na plateia estava o Dr. Carlos Torres, Presidente da Fundação Lapa do Lobo, a nossa maior parceira. Achou graça à palestra dele e decidiu financiar-lhe esse ano. Nesse período, o Gonçalo viajou por 25 países e quando estava na Índia entendeu que até ali a viagem tinha mudado a vida dele. Aí decidiu criar esta oportunidade para os jovens portugueses.

EM: Quais são os programas disponibilizados pela ONG?

BR: Existem 3 programas próprios: experiências académicas, experiências profissionais e voluntariado internacional. O primeiro permite a um aluno experimentar até 3 cursos superiores durante duas semanas cada. É gratuito, implicando apenas uma caução, que depois é devolvida. É uma forma de conhecerem o curso realmente como ele é. O segundo divide-se em dois projetos: o de ser “a sombra de um profissional”, que consiste em acompanhar um profissional durante um curto período, ideal para alunos com pouca experiência; e o estágio, ideal para alunos de licenciatura ou mestrado. O terceiro será lançado daqui a uns dias, no Gap Year Summit. A ideia é que a plataforma seja a ponte de ligação entre voluntários, o voluntariado e as organizações. O que acontecia era que os jovens tinham interesse em fazer voluntariado, mas não o faziam porque não confiavam nas organizações ou porque nem sequer as conheciam. A ideia da plataforma é ter organizações portuguesas confiáveis e fazer a pesquisa, tendo em conta a área de interesse e o período disponível. Estes programas encaixam-se todos dentro do gap year.

EM: Como funciona o trabalho da organização?

BR: Como se trata de uma ONG, é constituída por quase 50 voluntários. Temos o Departamento de Comunicação, de Comunicação com Parceiros, de Relações Externas e de apoio ao gapper, onde nos focamos. Neste momento, estamos sediados em Lisboa e todos os departamentos têm o mesmo objetivo: pôr mais jovens a viajar, a fazer gap year, a aprender sobre eles próprios, a perceber do que são capazes. O objetivo é gerar uma população mais consciente e segura de si.

EM: O que procuram as pessoas que recorrem ao gap year?

BR: Os jovens que nos contactam são completamente diferentes. Há pessoas que já têm um roteiro e apenas procuram ajuda para encontrar as oportunidades certas. Outras não têm qualquer ideia daquilo que querem. Deve ser a pessoa a fazer o próprio plano. Cada gap year é um gap year diferente. Um gap year é como um bilhete de identidade porque cada pessoa tem o seu timing, os seus projetos, os seus sonhos.

EM: Para além dos millenials, há procura por parte de outras pessoas?

BR: Por questões de logística e de possibilidade interna, neste momento, restringimos a faixa etária, que ronda os 17-30 anos. A ideia é que ao se começar a criar nos jovens uma “semente” também as pessoas mais velhas comecem a aderir. Há pessoas mais velhas que nos contactam, mas o apoio é sobretudo direcionado para os mais novos.

EM: O que é preciso para se fazer um gap year?

BR: Essencialmente muita motivação e muito esforço. A organização não faz nem um plano nem um roteiro a ninguém. A pessoa tem de ter plena noção de que um gap year vai dar trabalho. Para além disso, é essencial perceber aquilo que se quer descobrir.

EM: Quais são geralmente os principais impedimentos ou medos?

BR: O dinheiro é dos principais porque é uma parte logística essencial. Mas essa é uma questão a que se dá facilmente a volta com algum esforço através do trabalho ou da procura de oportunidades. Muitas vezes, os pais também são uma barreira, sobretudo porque não conhecem o conceito. Outro medo comum é, por exemplo, o de uma mulher viajar sozinha.

EM: O financiamento é feito exclusivamente pela pessoa?

BR: Nós temos o concurso Gap Year Portugal, que é anual, e no qual oferecemos um gap year por ano a uma ou duas pessoas. Este ano, o curso já está aberto e as pessoas podem-se candidatar até 9 de junho. O objetivo é apresentarem-nos um plano de um gap year, que convém ser o mais detalhado possível. O esforço e a criatividade são dos critérios mais valorizados. Esta é a única ajuda monetária que damos por ano. A bolsa vai de 5000€ (uma pessoa) até 6500€ (duas pessoas).

EM: Nota-se uma evolução da pessoa desde o início do gap year até ao regresso?

BR: Sim, completamente. Quando voltam, a maioria parece já ter encontrado um rumo. Há muitos que viajam e percebem que viajar é mesmo o mundo deles. Conhecemos muitas pessoas que foram sem rumo e voltaram decididos daquilo que querem. Esse é mesmo o objetivo do gap year.

EM: No próximo sábado realiza-se o Gap Year Summit, qual é o principal objetivo do evento?

BR: Este ano será a 7ª edição. O evento foi criado inicialmente com o intuito de juntar jovens que querem fazer o mesmo, é uma forma de ganharem coragem. A base do Gap Year Summit é essencialmente informação e motivação. Existe uma vertente de workshop, onde se conhecem algumas técnicas sobre planeamento, segurança, viagens de low budget, entre outros. São dois dias, será em Coimbra e junta nomes como Diana Nicolau, atriz e viajante, Fred Canto e Castro, um empreendedor que deixou a sua empresa para se dedicar a conversas motivacionais e pessoas que fizeram viagens incríveis, desde Portugal a Singapura, de bicicleta. Vai também haver um debate que junta CEO´s, professores universitários e viajantes, no qual o objetivo é mostrar o impacto de experiências fora da caixa. Este ano, vai haver ainda a estreia de um podcast com os Honey Mooners, que são um casal instagrammer que viaja de vestido de noiva e fato e gravata.

EM: A ONG está a começar a dedicar-se ao voluntariado internacional, de que forma acham que se podem diferenciar?

BR: O nosso foco é mostrar isto como uma possibilidade. O nosso maior trabalho é apoiar os jovens que nos contactam através de uma equipa especializada. Durante esse acompanhamento, nós aconselhamos ou não de acordo com o perfil da pessoa que nos contacta. Cada gap year é único e molda-se à pessoa e às suas necessidades.

EM: O gap year é bastante conhecido no Reino Unido e nos EUA, em Portugal está a conseguir ter sucesso?

BR: Sim, fizemos um estudo recentemente e cerca de 70% dos jovens conhecem o conceito de gap year e o termo também já está presente nos manuais de inglês. Mas ainda não atingiu a dimensão alcançada nesses países, onde fazer um gap year é tão considerado quanto ir para a universidade. Cá ainda não é uma realidade, mas não está assim tão longe de o ser.

EM: Quais são os objetivos a atingir pela organização num futuro próximo?

BR: O maior objetivo é fazer com que o gap year seja visto como uma possibilidade, através de projetos próprios, nos quais apresentamos sugestões de onde se faz gap year, em Portugal e lá fora.

Revisto por Rita Asseiceiro

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