Vida transparente

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Imaginem que vivem numa cidade feita de vidro. Tudo o que fazem é em nome do Estado Único e do Benfeitor. Imaginem que têm um horário que rege a vossa vida diária ao mais ínfimo pormenor. Imaginem que vivem num mundo que aboliu a emoção e o sentimento em favor de uma racionalidade matemática total. Agora imaginem que são um escritor russo, em 1921, a fazer-se passar por um matemático do século XXX a falar sobre o seu mundo a um leitor do século XXI. Difícil? Evgueni Zamiatine fê-lo. E muito bem.

Evgueni Zamiatine, nascido a 1 de fevereiro de 1884, foi um escritor e engenheiro russo. Filho de um sacerdote ortodoxo e de uma música, começou a estudar engenharia naval na universidade de São Petersburgo, período durante o qual aderiu à ideologia bolchevique. Politicamente ativo, foi preso e exilado da Rússia, tendo vivido na Finlândia, no Reino Unido e na França. Concluída a licenciatura em engenharia naval, começou a dar aulas e a escrever para jornais da especialidade. Pouco depois, decide enveredar pela escrita em jornais generalistas, com artigos de opinião e alguns contos, ao mesmo tempo que, nos tempos livres, se ocupava a escrever algumas das suas obras mais interessantes e completas e a fazer traduções de autores estrangeiros. Nós é a sua obra mais conhecida e uma clara inspiração de distopias como Admirável Mundo Novo e 1984. Em 1931 escreve uma carta a Joseph Stalin, pedindo que o deixe sair da Rússia, uma vez que não era bem-vindo na sua terra natal, para que possa ir com a sua mulher para França. Estabelece-se em Paris onde viria a morrer de ataque cardíaco a 10 de março de 1937, aos 53 anos.

O seu romance maior, Nós, fala de um mundo, no futuro longínquo, que vive há já muitos séculos sobre o domínio do Estado Único e do Benfeitor, que tudo controlam e tudo providenciam. Neste mundo, deu-se a vitória da razão sobre a emoção, do coletivismo em detrimento do individualismo. As personagens não têm nomes, têm códigos e números identificativos (consoantes para os números masculinos, vogais para os femininos) e vivem segundo as Tábuas Horárias, triunfo maior da revolução que aboliu a liberdade.

Segundo nos conta o protagonista, a liberdade é o maior mal da Humanidade porque não nos permite viver completamente. Um homem livre está sempre preocupado com o que deve ou não deve, pode ou não pode, quer ou não fazer e, por isso, não é feliz. O estado natural dos humanos é a servidão, e só assim, livres da responsabilidade da liberdade, poderão viver felizes, sem preocupações, respeitando os mandamentos das Tábuas Horárias. Nesta espécie de Tábuas da Lei dadas a este povo escolhido, estão consignadas todas as diretrizes e previstos todos os acontecimentos da vida quotidiana: hora exata para acordar; hora exata para escovar os dentes; hora exata para ir para o trabalho; número exato de mastigações para fazer; número exato de horas de trabalho. A exatidão e a rigidez (que os habitantes desse futuro chamariam “virtude”) são as palavras de ordem desta sociedade matematicamente controlada e erigida.

Esta cidade matematicamente concebida e feita de vidro encontra-se isolada do resto do mundo pelo Muro Verde, um muro transparente que separa o toque frio e escorregadio da cidade envidraçada do mundo exterior, natural, verde e vivo. É dentro deste muro que está ser construída a maior maravilha de todas, o “Integral”, uma nave espacial gigantesca, totalmente feita de vidro transparente, na qual estão a ser carregadas todas as obras matemáticas, artísticas e científicas, fruto do trabalho desta sociedade que pretende levar esta boa-nova de libertação e salvação a outros povos. Creem ser seu dever conquistar novas terras no espaço e iniciar uma revolução horária, em favor do Benfeitor e do Estado único, garante da ordem e da felicidade.

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