Centro ou Caverna?

A Caverna é uma obra de José Saramago – um romance na verdade – publicada no ano 2000. A sua história trata-se da descrição do impacto que a nova economia pode exercer nos meios tradicionais. Ou seja, descreve de forma aprofundada uma família de oleiros que vê a sua vida a mudar completamente devido à chegada de um centro de compras à cidade.

Cipriano Algor, principal fornecedor de loiças artesanais para o centro, acaba por ver os seus serviços dispensados visto que na vida moderna as pessoas preferem utensílios de plástico. Aliás, “moderno” e “cómodo” são as palavras mais utilizadas para descrever aquele centro que se comparava a um prédio enorme. Abatido com a situação, Cipriano dá-se por vencido e, ao dar ouvidos aos conselhos de sua filha, Marta, e do seu genro, Marçal, decide mudar-se para o centro. A mudança vem romper o forte amor que o oleiro sentia pela vizinha, Isaura, e ainda abandona o seu fiel cão, visto que animais na vida moderna são considerados sujos e imundos.

Já instalado no centro, Cipriano decide tentar compreender o que torna aquele lugar tão atrativo. Tudo é organizado, limpo, novo, planeado e deliberado de forma a agradar a todos. Contudo, o oleiro, persistente, ouve rumores sobre uma obra no centro e decide investigar. Lá encontra-se com Marçal, que vigiava a situação, e os dois acabam por se deparar com seis corpos humanos, presos numa posição que os força a olhar infinitamente para uma parede. Assustados, reconhecem de imediato o mito da Caverna de Platão e decidem fugir para longe de modo a não caírem na vida de consumo e na prisão que aquele centro é.

Nesta obra, Saramago não desenha o centro como um local simples e físico, mas sim como um representante do consumo, da sociedade onde tudo é descartável e substituível. A obra está sempre em comparação com a A Caverna de Platão, com as alturas e os prisioneiros que se igualam ao mito, e pretende mostrar que estamos presos a algo e que isso será o nosso fim. Critica indiretamente as novas gerações que estão cada vez mais ligadas e presas aos media, às tecnologias e ao consumo. Segundo Saramago, a Caverna é “aqui” e as pessoas presas ao ver as sombras somos nós.

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