“É muito mau. É tirarem-nos um tapete ou então caírem assim em queda livre”

Outubro veste-se de rosa. É assim desde 1997, ano em que o conceito de outubro rosa ganhou força como o mês dedicado à consciencialização da prevenção e diagnóstico precoce do cancro da mama. O laço cor de rosa é o símbolo do movimento que se intensifica nesta altura, mas que existe ao longo do ano, um pouco por todo o mundo.
E é aqui que se encaixa a nossa história.
Aos 45 anos uma carta mudou a vida de Teresa. O rastilho surgiu após um simples rastreio que mais tarde confirmou o pior: um cancro na mama direita. A história de uma mulher que um dia teve um cancro da mama conta-se com o sorriso, a força e o dia a dia de quem venceu a doença.
Atualmente com 53 anos, Teresa já enfrentou dois cancros, o da mama e um no colo do útero. Livre da doença, os dias desta mulher são agora vividos apenas com uma certeza: o importante é o presente.

ESCS MAGAZINE: Quando ouviu a palavra cancro pela primeira vez teve medo da morte?
Teresa:
Nem por isso. A primeira coisa que vem à cabeça é “e agora?”. Os miúdos eram pequenos ainda, a Inês tinha menos 8 anos, ou seja 13, e o meu filhote já tinha 23, mas é assim um choque porque a gente pensa logo o pior. Posso-te dizer já que não tenho medo de morrer, assusta-me é como é que eu posso vir a morrer. Assusta-me ficar numa cama de hospital a definhar, dia a dia, com dores. Assustava-me mais por pensar “E agora, o que é que eu faço?”. É um vazio, é uma coisa horrível.

EM: Como é que se aceita a ideia de que temos algo mau dentro de nós?
T:
Não se aceita muito bem; é complicado. Tu por um lado tens que aceitar e ter pensamento positivo. A medicina está muito diferente, a gente vai conseguir, já há tratamento. Só que depois, no teu subconsciente, quando estás sossegadinha à noite, tudo vem à ideia. Eu tive casos na família, os meus avós, dois deles, que morreram com problemas de cancro. Está bem que já foi há cinquenta anos atrás, temos sempre uma réstiazinha de esperança [de] que “ok, as coisas agora estão muito mais evoluídas e a gente vai lá.”.
Porque não foi o meu primeiro [cancro]. Já tinha tido um outro, no colo do útero, mas foi uma coisa assim mais soft. Este balançou mais comigo, deixou mazelas.

EM: No outro cancro fez tratamento/operação?
T:
Fui operada. Tiraram-me o colo do útero, tiraram-me o ovário e limparam. Foi tudo muito instantâneo, nem os meus pais avisei, tanto que eles até hoje não me perdoam. Não tive tempo de avisar ninguém. Neste não: deu para assimilar mais o problema.

EM: Como é que soube que tinha este cancro?
T:
Não dói, não senti nada. Recebi uma cartinha pelo correio para ir fazer um rastreio que estava aqui em Samora, aos 45 anos. E eu lembro-me, por graça, de dizer assim “fogo, estes fulanos não poupam” porque eu recebi a carta a 30 de abril e eu faço anos a 1 de maio, portanto eu fazia os 45 anos.
Aquilo é dentro de uma roulotte. E apercebi-me [de] que, quando ela fez a mamografia, ela não gostou do que estava a ver e disse “olhe, espere só um bocadinho, vamos repetir”. Os aparelhos podiam não estar bem e não ter corrido bem. Mas fiz o exame, ninguém me disse mais nada.
Passado uma semana recebi uma carta registada em casa onde dizia para eu comparecer com urgência; tinha dia marcado – penso que foi logo ao final de quatro/cinco dias – para ir a Santarém. Claro, uma pessoa recebe uma carta daquelas, registada e tudo, com tanta urgência, o que é que a gente fica a pensar? Alto, já me descobriram aqui qualquer coisa; e foi.

EM: A partir do hospital de Santarém quais foram os passos que se seguiram?
T:
Foi rápido. Daqui fui a Santarém: a equipa eram dois médicos e uma médica que me explicou que poderiam fazer uma raspagem ou então tirar o peito. Perguntei-lhe “imagine que era você, o que é que você fazia?” e ela respondeu-me “sem sombra de dúvidas [de] que tirava o peito”. Porque uma pessoa fica muito mais descansada e não há aquela possibilidade de ficarem lá restinhos. A partir daí disse-me que tinha de fazer aquelas coisas da praxe: o raio-x aos pulmões, as análises, etc.. A gente começa a ouvir que o Sistema [Nacional] de Saúde, para cirurgias, demora muito tempo. E eu estava a assustar-me um bocado, mas ela disse-me “não, vais ver que isto é rápido. Isto não se desenvolve no espaço de um mês; isso que aí está levou anos a desenvolver-se”. Se ela diz isto, e se [eles] são pessoas que sabem, nós vamos acreditar. Foi cerca de um mês.
Nestes casos de urgência e de cancro as coisas são muito rápidas. As coisas processam-se muito rapidamente.

EM: O processo até à operação foi bastante rápido, sem que tivesse recorrido a quimioterapia ou radioterapia. Acredita que as coisas tinham sido diferentes se tivesse passado por esses processos de tratamento?
T:
Era muito mais difícil, sem dúvida. Quando saí de Santarém trazia comigo, um dreno, uma garrafinha de 33cl. Levas com as pessoas sempre a perguntarem-te a mesma coisa. Aliás, elas não estão sempre a perguntar a mesma coisa; elas estão a perguntar-te pela primeira vez, nós é que estamos sempre a repetir a mesma conversa e não é nada agradável.
Quem sabia parece que ficava a olhar tipo: “coitada, olha o que se está a passar com ela”.

EM: Teve três anos entre a operação e a reconstrução. Após a reconstrução a vida tornou-se diferente?
T:
Não porque já estava habituada. Agora é diferente: se eu vestir um decotezinho isto que aqui está é pele. Sinto-me mais eu.
Na altura, quando não tinha, tinha sempre a preocupação de que se via aqui um buraco.
Eu tenho o implante feito, mas não está acabado. Falta o mamilo. Mas eu não quero saber de nada disso, está escondido. Era para fazer a reconstrução do outro peito porque agora tenho um mais pequenino e outro maior, mas depois as dores foram tantas que não, não me meto em mais nada disso.

EM: Passaram oito anos. O que é que mudou numa mulher que um dia teve um cancro?
T:
Na nossa cabeça muda tanta coisa. Se calhar pensamos mais no nosso dia a dia, damos mais valor a certas coisas. Isto de a gente andar a correr, isto não vale a pena porque de um dia para o outro tudo te cai e a gente tem a noção de que não somos nada. Mudou muita coisa. Hoje é que me interessa, amanhã logo se vê. Não faço planos a longo prazo, o que conta é o agora.
Ao fim de um mês e pouco comecei a trabalhar, não foi impeditivo.

EM: No caso da Teresa o rastreio foi fundamental para detectar o problema. Quão importante acha que são estes exames na prevenção do cancro?
T:
É fundamental porque é uma doença que não dói. Se te doer um dente, vais ao médico porque não aguentas a dor. Neste caso as coisas não doem; podemos arrastar e quando chega a doer já não há hipótese.
No nosso peito temos três canais onde passa o leite quando amamentamos. É como teres um biberão e não o passares logo por água – ficam sempre resíduos. As células vão morrendo e as substâncias ficam ali. O que eu tinha eram umas areias nesses canais. Se não for através de um rastreio só se deteta quando as coisas já estão em último grau.

Uma peça fundamental na vida de Teresa é a filha, Inês. Atualmente com 21 anos, aos 13 teve de aceitar que a mãe estava doente, um processo complicado como conta a jovem – “É complicado porque aqui em casa sempre fui mais ligada à minha mãe e o meu irmão ao meu pai. Ela sempre foi o meu porto de abrigo e eu sempre fui o porto de abrigo dela. Lembro-me de a ir ver ao hospital e do expansor, dos dias difíceis aqui.”.
Entretanto os papéis inverteram-se na família: hoje em dia todos ajudam a tomar conta do pai de Inês, que está acamado há três anos devido a um AVC. A jovem relembra que há oito anos, e perante a situação da mãe, ela, o irmão mais velho e o pai tiveram de se organizar melhor nas rotinas. “A minha mãe é que geria a casa, fazia comida, limpava a casa e nós não sabíamos fazer nada. Eles são homens, eu era miúda; é complicado. Nós tivemos a ajuda da tia e era ela que fazia mais a comida, mas foi uma altura em que eu tive que aprender a fazer as minhas coisas.
Uma coisa [de] que eu me lembro, antes de a minha mãe ir para o hospital, foi de ela deixar-me a roupinha toda: à segunda vais vestir isto, à terça vais vestir isto, sempre assim”, relembra Inês.
Nas memórias dos piores momentos Inês não esquece quando a mãe pôs o expansor – “Vê-la a sofrer tanto…era uma coisa que tu vias, porque ela não conseguia fazer nada. Estava aqui deitada e vias que lhe estava a doer e não podias fazer nada quanto a isso. Não podias ajudar, não podias dizer-lhe faz isto para ficares melhor.”.
O futuro ainda não chegou, mas o medo de que o cancro volte à família de Teresa é uma realidade. Depois do episódio de Teresa, Inês confessa ter algum receio, visto que “tanto o cancro da mama como o do colo do útero são hereditários e eu, sendo a única filha…há sempre aquele medo.”
No entanto, e agora com 21 anos, a jovem compreende a importância que os exames de rastreio tiveram no caso da mãe. “Um dia também os farei, não tenho medo”, afirma, com um sorriso nos lábios.

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