O drama da couve

 Gente que é gente preocupa-se com coisas insignificantes. Nem se trata de ser português ou não: toda a gente tem um tema fetiche insignificante com o qual se preocupar. Irrita-me, por exemplo, pessoas que não se lembrem de coisas que aconteceram há pouco tempo, e irritam me erros ortográficos, mas isso não tem muito a ver com aquilo que vou abordar. De qualquer maneira, parece que se arranja sempre qualquer coisa de estúpido com o qual se faz uma tempestade num shot de água, mesmo que haja coisas muito mais importantes em que se pensar. É o que dá ter-se o costume de não se pensar em nada de jeito.

 A forma como foi abordada a questão dos jantares no Panteão foi, no mínimo, desadequada em comparação com muitos dos problemas que assolam, de momento, o nosso belíssimo e douto país, como o da seca, por exemplo. Não é que não interesse: levanta questões éticas e morais pertinentes, como também levanta questões em relação ao aproveitamento/mercantilização do património português, conforme o ponto de vista. Pessoalmente, acho que organizar eventos festivos em cemitérios – o Panteão é um cemitério rebuscado e exclusivo, mas não deixa de o ser – é, sem dúvida, reprovável, especialmente do ponto de vista dos familiares dos que lá repousam há menos tempo, como a família de Eusébio. Desse modo, acho que se deviam proibir esse tipo de eventos em locais de repouso de mortos. Nunca se sabe onde pode estar enterrado alguém, por isso, esse argumento segue um caminho ligeiramente escorregadio. Mas, fora de brincadeiras, organizar eventos festivos em locais em que se saiba que existe gente morta sepultada não deveria ser permitido por uma questão de princípio.

 Mas aquilo que me preocupa é a forma como, mais uma vez, a classe política, sobretudo aquela composta pelo PSD e pelo PS, mostrou toda a sua incompetência e desonestidade, ao usar este não-assunto (em termos de comparação com outras coisas, como já referi) para atacar as oposições e desresponsabilizar-se a si própria. Uso como cobaia do PSD o secretário de estado da Cultura do governo de Pedro Passos Coelho, Jorge Barreto Xavier, que afirmou que o atual primeiro-ministro podia ter barrado o evento organizado pela comitiva da Web Summit, algo que parece plausível. No entanto, porque não retificou o governo do PSD esse despacho para que não houvesse essa possibilidade?  Por outro lado (do lado do PS), é realmente de se perguntar: porque é que o ministério da Cultura atual não retificou esse documento e porque permitiu mais jantares? Nem vou entrar em detalhes em relação à Web Summit: já há muita gente a denunciar o esquema que aquilo é (derreter milhares de euros em bilhetes para andar lá a pedinchar sem garantias de sucesso). Ninguém devia dar festas no Panteão, nem mesmo o salvador da pátria portuguesa, o excelentíssimo Paddy Cosgrave. Talvez o nosso chefe de Governo discorde. O melhor disto tudo é que haja quem se preocupe veementemente com isto como se de uma questão fraturante se tratasse. Quando mais de metade do país está a ficar sem água, perde-se tempo em babosices. O motor está a ir abaixo, mas quero meter mais uma camada de ouro na carroçaria (obrigado, Zidane). O chão está a desabar, mas um móvel está fora do sítio. Diagnosticaram-me com um tumor, mas, pá, parti a unha e é mesmo desagradável.

 Enquanto os políticos portugueses não se aperceberem de que estes jogos mesquinhos e triviais não adiantarem de nada, estamos condenados à mediocridade que é perpetuada todos os dias por grande parte da elite do nosso maravilhoso país. Acredito que isto só muda de duas maneiras: ou as quecas de um deputado pegam fogo e o Parlamento fica queimado, ou morrem de sede. Ou ambas ao mesmo tempo: da maneira que as coisas estão, não me admirava muito.

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