Opinião

A tristeza causada pela alegria

Um aperto no coração ao ouvir uma música da nossa infância. Uma sensação inexplicável ao estar num lugar onde já vivemos bons momentos. Tudo isto nos remete para um sentimento: nostalgia

Agri-doce. Penso que este seja o termo indicado para caracterizar esta sensação doce e amarga, ao mesmo tempo. Uma felicidade súbita ao recordar momentos tão felizes, seguida de uma tristeza sentida devido à impossibilidade de voltar atrás no tempo, para os reviver. 

Ao pesquisar por esta palavra no dicionário, deparei-me com uma definição interessante: 

(nos·tal·gi·a)

nome feminino

1. Tristeza profunda causada por saudades do afastamento da pátria ou da terra natal.

2. Estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém.

Fiquei intrigada. Comecei a fazer um esforço para me recordar de momentos em que senti nostalgia. Em todos eles lembro-me de ter um sorriso no rosto. Exatamente. Um sorriso. Como poderá o sentimento de nostalgia ser algo triste? 

A meu ver, o sentimento tão inexplicável da nostalgia não é sinónimo de tristeza. No decorrer da vida, tudo depende da maneira como lidamos e interpretamos cada situação ou sentimento. A vida é o reflexo do nosso olhar, no fim das contas. Se interpretarmos este sentimento como algo bom e útil para o nosso crescimento, tudo muda.

Sendo assim, a nostalgia tem, sim, o seu lado positivo. Segundo Krystine Batcho, investigadora de longa data neste domínio, “consumir conteúdos nostálgicos de todos os tipos faz-nos pensar em quem somos e ajuda-nos a perceber o nosso propósito de vida”

Já me vi, inúmeras vezes, perdida no labirinto da vida, sem saber ao certo que caminho seguir. Com tantas exigências, pensamentos incessantes e com a pressão constante do mundo à nossa volta, é fácil afastarmo-nos de quem realmente somos, deixando a nossa essência em segundo plano. Não quero transformar este texto numa reflexão filosófica, então vou direta ao ponto: se escolhermos interpretar a nostalgia de uma maneira positiva, ela pode ser uma bússola – uma forma de nos conectarmos com a nossa verdadeira identidade, redescobrindo a felicidade que carregamos e os incontáveis momentos incríveis que ainda nos esperam.

As pessoas têm o hábito de associar a nostalgia à tristeza, principalmente pela sua conexão com a saudade. E, de facto, a saudade carrega um tom melancólico, embora, no meu ponto de vista, não seja um sentimento inteiramente triste (mas esse é um debate para outro dia). Esta confusão é um erro compreensível, uma vez que os dois sentimentos remetem para a memória de algo. Algo que aconteceu no passado. 

Nostalgia e saudade têm, sim, as suas diferenças. Para sentir saudade, basta algo: uma pessoa, um lugar, um momento. É mais vago. Já a nostalgia exige uma componente essencial: o tempo. O passado. Algo que não virá mais. É uma visão idealizada de um passado inalcançável. A saudade é algo que poderá ter cura, dependendo dos casos, claro. Sinto a falta de alguém? Vou ao encontro dessa pessoa. Sinto a falta de visitar um lugar? Vou a esse sítio. Com a nostalgia isso já não acontece. Não é algo superável. 

Por esta mesma razão, na Grécia Antiga, a nostalgia chegou a ser considerada uma doença. Um sentimento de saudade inigualável sem qualquer cura possível assustou (naturalmente) as pessoas daquela época. Afinal, ninguém consegue superá-la, de facto. Não é como se pudéssemos voltar a viver, por exemplo, uma fase da nossa vida que ficou para trás. E é justamente aqui que posso referir uma das frases mais marcantes que já ouvi e que teve muito impacto na minha vida.

“Não te foques no passado, senão perdes o futuro”.

Não me questionem sobre o sítio onde li esta frase ou sobre quem me a disse. Provavelmente veio de um daqueles posts inspiradores do Instagram. Mas desde o dia em que entrou na minha cabeça, nunca mais saiu de lá. E enquadra-se bem neste tema, visto que há muitas pessoas que, em fases complicadas da sua vida, focam-se muito no passado, lamentando o que já não pode voltar, esquecendo-se de que têm toda uma vida para viver.

O passado é um livro já escrito. Podemos (e devemos) aprender com as suas páginas, mas não devemos, de todo, habitá-las. Há momentos em que nos deixamos aprisionar pela nostalgia, pelo que já passou, pelos momentos bons que não voltarão. Mas, mais uma vez, penso que tudo depende da maneira como interpretamos e nos deixamos levar pelos sentimentos. Sempre ouvi dizer que “tudo o que é em exagero, não é bom”. O sentimento de nostalgia é bom, se soubermos como lidar com ele. 

Fonte: Pinterest

Nostalgia não é sinónimo de tristeza. É um sentimento traiçoeiro, sim, mas define-se mais como um refúgio breve, um lembrete da felicidade que já vivemos. Felicidade essa que poderemos viver também, agora, mas noutro formato. É uma saudade incurável, mas reconfortante. Afinal, a vida é feita de lembranças, e o segredo está em saber aproveitá-las sem nos perdermos nelas. 

No fim das contas, a nostalgia é como aquela sobremesa ao fim do jantar: a dose ideal é uma delícia, mas, em exagero, pode dar dor de barriga. Devemos saboreá-la, lembrando-nos sempre de que ainda há um presente para viver e um futuro para criar (ninguém vive só de memórias, por mais bonitas que sejam, não é?)

Uma coisa é certa:

Um dia, o “hoje” será a nostalgia do amanhã.

Fonte: Pexels

Artigo revisto por: Mariana Ranha e Eva Guedes

AUTORIA

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A arte da comunicação sempre a fascinou. Aluna do terceiro ano de jornalismo, encontrou na ESCS Magazine o espaço ideal para dar voz às suas ideias e perspetivas. Movida por uma curiosidade constante em compreender melhor o mundo que a rodeia, vê no jornalismo uma forma de partilhar esse conhecimento com as pessoas ao seu redor. Na editoria de Opinião, procura deixar uma marca em quem a lê, usando a escrita como ferramenta de impacto.