Cinema e Televisão

Era do streaming: de que forma a produção cinematográfica é influenciada pelo streaming?

Nos dias de hoje, as plataformas streaming são, provavelmente, o sistema mais utilizado no que toca à visualização de conteúdo cinematográfico. Para entender a sua tamanha e crescente influência devemos entender o que realmente define uma plataforma como uma plataforma streaming. Estas podem ser definidas como estruturas digitais que transmitem milhares de conteúdos, próprios ou produzidos por outrem (nacionais e internacionais), a múltiplos utilizadores sempre que estes quiserem. 

A utilização cada vez mais elevada de plataformas de streaming desempenha um papel muito importante nas mudanças da indústria cinematográfica, não só influenciando a forma como os filmes são pensados e feitos, mas também na forma como são distribuídos, já que criam as suas maneiras próprias de distribuição: aluguer de filmes, acesso gratuito, mas com anúncios e acesso ilimitado a todo o catálogo mediante uma assinatura mensal ou anual. Este novo tipo de distribuição, mais ampla e facilitada ao público, compromete as formas mais antigas de distribuição, que promoviam a exclusividade: salas de cinema, transmissão em canais de televisão e meios físicos (DVD e Blu-Ray). 

Mesmo comprometendo estes aspetos, têm vindo a facilitar a distribuição de conteúdos ao possibilitar que mais cineastas tenham a oportunidade de disponibilizar os seus trabalhos para o público. Promovem, assim, uma democratização na produção de filmes, abrindo espaço para o cinema independente atingir audiências globais sem a ajuda de grandes estúdios.

Fonte: Pinterest

A diversidade do conteúdo disponibilizado por este tipo de plataformas apresenta também um marco de evolução importante, não só na produção audiovisual, como também no entretenimento, já que, nos seus catálogos extensos, oferecem desde clássicos a blockbusters do cinema. Esta variedade de opções não só ajuda no papel democratizador no acesso a diferentes formas de narrativas, como também ajuda na exposição de múltiplas culturas e perspectivas aos espectadores, fazendo com que se tornem em centros de entretenimento global.

No entanto, nem tudo é positivo. Existem diversos fatores que representam o lado mau das plataformas streaming para o cinema. 

Primeiramente, o uso de algoritmos para determinar o tipo de conteúdo mais procurado pelo público vai influenciar o conteúdo produzido, tornando o espaço cinematográfico algo homogeneizado e sem qualquer tipo de diversidade criativa, o que gera uma era de entretenimento sob demanda e de certa forma personalizado.

Os hábitos de entretenimento vão também mudar, especialmente devido à liberdade que proporcionam aos espectadores ao redefinir a experiência de visualização de maneiras inovadoras. Sendo algo 100% mais flexível e apto a ser integrado no dia-a-dia dos espectadores, sem quaisquer problemas, o streaming acabou por quebrar as barreiras temporais, ou seja, as pessoas começaram a ter a oportunidade de assistir a conteúdo a qualquer momento e em qualquer lugar. Isto vai redefinir completamente o conceito de entretenimento sob demanda, algo que oferece ao espectador controlo absoluto da sua experiência audiovisual.

Fonte: Pinterest

Além disso, trazem desafios no que toca à distribuição de receitas num momento em que os cinemas tradicionais enfrentam dificuldades. Dificuldades essas que desde a pandemia têm vindo a piorar, já que foi algo que acelerou os lançamentos diretos em streaming. A acrescentar a isto, as plataformas de streaming puseram igualmente em questão a sustentabilidade do modelo de negócios tradicionais do cinema. Surge, assim, o desafio de encontrar um equilíbrio entre a experiência das salas de cinema e a acessibilidade das plataformas de streaming.

Todas estas transformações acabaram por abrir um novo capítulo na produção audiovisual, onde a criatividade e a originalidade “vencem” num ambiente competitivo e dividido em duas frentes: os grandes estúdios que estão concentrados em produzir em massa e os cineastas independentes ou associados a estúdios que pretendem preservar a essência do cinema e criar conteúdos artísticos em detrimento do consumo em grande escala, sem qualquer valor artístico. 

Um exemplo disto na vida real é o de Steven Spielberg, que, em 2022, numa entrevista para a New York Times, confessa ter de escolher entre exibir filmes nas salas de cinema ou mandá-los diretamente para plataformas streaming, já que o streaming permite que o conteúdo chegue a um público maior quando comparado às salas de cinema. Isto é um reflexo do cenário da redução de consumidores do cinema presencial e da ascensão destas plataformas.

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Apesar disso, as plataformas streaming não são a primeira ameaça à produção cinematográfica. A primeira foi o surgimento da televisão, que veio proporcionar novas formas de o cinema chegar às pessoas. São desafios como estes que provam que o cinema resiste e irá resistir a todas as próximas invenções tecnológicas; porém, também nos abrem os olhos a uma nova realidade: infelizmente as salas de cinema já não são o principal destino da produção cinematográfica, nem o primeiro destino de procura por parte do público. 

Conclui-se, então, que, apesar de as plataformas streaming trazerem novas oportunidades à produção cinematográfica, os desafios que impõe à criação de conteúdos únicos e criativos dão origem a um universo homogéneo, onde a criação de histórias reais, de pessoa para pessoa, com vertentes mais artísticas, acaba por “morrer nos braços” de uma criação completamente industrializada, sem muita presença de um pensamento crítico e artístico.

Fonte da capa: Pinterest

Artigo corrigido por: Raquel Bernardo

AUTORIA

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A Matilde, de 19 anos, sempre teve uma curiosidade imensa e uma vontade de saber um pouco acerca de tudo. Desde a teoria da relatividade de Einstein aos livros da Sally Rooney. Encontrou na Escs Magazine uma oportunidade para explorar, através da escrita, um novo interesse na astronomia e outras ciências, em conjunto com um dos seus tópicos de conversa favoritos: a literatura.
Passa uma grande parte do seu tempo no Booktube, onde descobre as novidades e alguns dos grandes clássicos que, infelizmente, ainda tem por ler.