O Dia do Desporto
Para assinalar o Dia do Desporto, a ESCS Magazine organizou uma talk centrada no cruzamento entre a comunicação e o desporto, reunindo três profissionais com percursos distintos: Afonso Santos, jornalista n’ A Bola; Madalena Pedro, gestora de redes sociais do Futebol Clube de Alverca (SAD); e João Gomes, criador do projeto Desporto no Feminino. Ao longo da conversa, foram abordadas as competências necessárias para singrar no setor e os desafios associados à visibilidade das modalidades e dos géneros dentro do desporto.
Além disso, ficou claro que não existe um percurso único para entrar na comunicação desportiva. Afonso Santos começou por estudar Engenharia Informática, mas em 2018 decidiu mudar de rumo para seguir jornalismo, motivado pelo desejo de trabalhar na área do futebol. Depois de tirar uma licenciatura mais teórica na Católica e de um mestrado prático na ESCS, consolidou experiência no projeto Bola na Rede e em vários estágios, até se fixar n’A Bola.
Já Madalena Pedro, estudante de Audiovisual e Multimédia na ESCS, chegou ao Alverca de forma inesperada: começou por fotografar a equipa B e acabou por ser convidada a assumir a gestão das redes sociais do clube.
Por sua vez, João Gomes, com formação em História e, atualmente, a frequentar o mestrado de Jornalismo na ESCS, criou o projeto Desporto no Feminino para responder à falta de cobertura mediática das modalidades femininas, procurando afastar-se da saturação do futebol masculino.
Um dos temas mais debatidos foi a dificuldade em dar visibilidade a modalidades fora do futebol. Afonso Santos explicou que, em Portugal, estas só ganham destaque mediático quando atletas ou equipas alcançam feitos excecionais, como aconteceu com Neemias Queta na NBA ou com o atletismo e o judo durante grandes competições internacionais. Defendeu, contudo, que o jornalismo deve contrariar esta tendência, aproveitando a maior proximidade com atletas de outras modalidades, que tendem a ser mais acessíveis do que os futebolistas de elite.
Madalena Pedro corroborou esta realidade com base nas métricas das redes sociais do Alverca, onde o futebol gera sempre mais interação do que outras modalidades, como a patinagem ou a ginástica, por exemplo. Ainda assim, sublinhou a importância de humanizar essas modalidades menos visíveis, contando histórias de atletas e mostrando bastidores, o que permite criar uma ligação mais próxima com o público.
A narrativa surgiu como uma ferramenta essencial para captar a atenção, sobretudo nas redes sociais. Madalena destacou a importância dos primeiros segundos de um conteúdo, determinantes para prender o interesse do utilizador.
João Gomes reforçou esta ideia com exemplos do seu projeto, como uma reportagem sobre Maria da Silva, atleta de atletismo surda, em que o foco foi além dos resultados desportivos, explorando as dificuldades do quotidiano, como a impossibilidade de ouvir o tiro de partida. Este tipo de abordagem permite criar uma ligação emocional mais profunda com a audiência.
Os desafios da área também passaram pela gestão de críticas e diferenças de público entre plataformas. Madalena referiu que conteúdos bem-sucedidos no TikTok nem sempre são bem recebidos no Facebook, onde existe um público mais envelhecido e menos recetivo a determinadas tendências.
Já Afonso salientou que o impacto do jornalismo pode ir além da simples informação, dando voz aos próprios atletas. No desporto feminino, João Gomes destacou o peso do estigma e da constante comparação com o futebol masculino, bem como a concentração mediática nos grandes clubes, o que dificulta a afirmação de projetos independentes.
Para quem pretende entrar nesta área, os convidados deixaram alguns conselhos claros: dominar a língua portuguesa e evitar o uso excessivo de expressões estrangeiras, apostando numa escrita rigorosa; desenvolver competências variadas, já que em estruturas mais pequenas é comum acumular funções como fotografia, vídeo e design.
Como conclusão, os oradores concordaram na importância de começar por contextos mais pequenos, como clubes locais ou projetos independentes, onde os erros têm menor impacto e a aprendizagem é mais segura. Estes ambientes proporcionam maior proximidade com as equipas e mais autonomia, fatores que favorecem o crescimento profissional. Em suma, a comunicação desportiva revela-se um campo exigente, que combina paixão, rigor e a capacidade de encontrar histórias relevantes no quotidiano de todos os atletas, independentemente da modalidade e do género.
Fonte da Capa: Número F
Artigo corrigido por Inga Carvalho
AUTORIA
Há 19 anos apaixonado por desporto. O João diverte-se bastante a discutir ideias e a escrever sobre vários desportos e tudo aquilo que os envolve, desde questões técnicas até às politiquices. Está no segundo ano do curso de jornalismo e espera conseguir acrescentar algum valor à fantástica equipa da ESCS magazine.



