A Importância da Solidão
Há um preocupante consenso em torno da ideia de que a solidão está a aumentar em Portugal. Os especialistas concordam que sobretudo as faixas etárias mais jovens e mais envelhecidas se sentem mais sozinhas.
Um estudo divulgado pelo ISCTE compara 2015 a 2025 e conclui que “há uma clara redução do número de amigos íntimos, um aumento do sentimento de solidão e uma diminuição da integração social”. O estudo afirma ainda que os membros da comunidade LGBT+, os desempregados ou aqueles numa situação profissional precária e as pessoas mais pobres são os mais lesados pela sensação de isolamento.
Não há dúvidas de que a solidão é um problema e uma ameaça. O sentimento de abandono, de desamparo, pode ser fatal e deve ser combatido, especialmente nas camadas jovens.
Torna-se fácil impingir o crescente isolacionismo ao bicho papão dos telemóveis, dizer que a culpa é dos videojogos e das redes sociais… A verdade é que os tempos mudaram. O café central, a “sociedade” ou o clube recreativo foram em grande medida substituídos por grupos do whatsapp e do discord. A indústria do entretenimento tornou-se um colosso sempre disponível, de acesso rápido, fácil e satisfatório, e o tédio e o aborrecimento morreram. O mundo cresceu, os nossos horizontes são cada vez mais amplos, mas quanto maior for o mundo maior será também a distância entre cada um de nós.
Se é essencial, hoje mais urgentemente do que nunca, procurar o convívio e a confraternização, fomentar a construção de relações reais e humanas e estabelecer contactos cara-a-cara, também o é aprender a aceitar a solidão.
Penso que, nos dias que correm, cada vez nos custa mais aceitar as adversidades e, especialmente, a solidão. Todavia, considero que estar sozinho é mesmo imprescindível, e quando digo “sozinho” excluo a “companhia” digital, o ruído constante dos ecrãs.
A solidão não tem de ser vista como uma sombra negra, como algo obscuro e assustador, como uma condição maligna a evitar. A solidão pode ser um templo, um escape, um momento de paz e reflexão

Os ingleses fazem uma distinção que me parece fundamental entre loneliness e solitude, referindo-se a primeira palavra ao sentimento negativo de se estar sozinho, mais próximo dos sentimentos de abandono e de exclusão, enquanto o segundo termo remete para uma solidão escolhida, para uma decisão voluntária e consciente. Loneliness e solitude são, respetivamente, a solidão obrigatória e a solidão que escolhemos, a diferença entre uma imposição e uma opção.
A necessidade de se estar sempre acompanhado e nunca sozinho denuncia um medo pouco saudável, ainda que compreensível. É normal sentirmo-nos apoiados e seguros quando estamos rodeados dos nossos, mas se não conseguirmos aceitar que a nossa própria companhia é válida e suficiente acabaremos por cair numa procura desenfreada por alguém que se interponha entre nós e o vazio, o abismo da solidão.
Tenho verificado, no entanto, que a melhor solução é abraçar o abismo. Estando sozinhos e, de preferência, longe dos biliões de estímulos com os quais nos deparamos no dia-a-dia, podemos explorar a nossa mente, conhecermo-nos melhor, embrenharmo-nos nos nossos próprios pensamentos, colocarmo-nos questões e podemos debater internamente os problemas e obstáculos que nos preocupam. Tendencialmente, acabaremos ainda por prestar mais atenção ao mundo que nos rodeia. Na rua da nossa casa encontraremos novos pormenores. Na nossa cidade surgirão novos caminhos e, eventualmente, até daremos mais valor às pessoas na nossa vida e descobriremos qual a sua verdadeira importância.

Com que frequência nos permitimos verdadeiramente pensar? Caminhar sem destino ou ficar parados à espera de inspiração ou esclarecimento? Com que frequência nos permitimos verdadeiramente não pensar?
A solidão, para mim, é a resposta para a maior parte das inquietações diárias, é o tempo para processar a vida a um nível mais profundo e ponderado. A solidão é, no meu entender e de maneira muito moderada, sinónimo de liberdade, um tipo de espiritualidade para os mais céticos e racionais. A solidão, aliada à Natureza, faz-me ver o mundo com maior clareza, é uma forma breve de paz, mas não pode ser a única. É preciso aceitar o ruído, a pressão e o caos. Até certo ponto são partes naturais e necessárias da vida.
Jean-Paul Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Longe disso. O meu elogio da solidão não significa que a considere mais importante do que a sociabilidade e do que a capacidade de estabelecer relações interpessoais. Esta apologia da solidão pretende, sobretudo, equilibrar os pratos da balança. Saber estar sozinho é fundamental, saber coexistir connosco, aceitando-nos integralmente, incluíndo os nossos pensamentos mais profundos ou absurdos, é, a meu ver, um bom caminho para que tenhamos interações saudáveis e construamos grupos à nossa volta, não pelo medo de estarmos sozinhos, mas pelo gosto de estarmos acompanhados, por amor a nós e aos outros.
Já dizia o ditado, mais vale só do que mal acompanhado.
Fonte: Pexels
Artigo corrigido por: André Nunes
AUTORIA
O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.


Concordo totalmente, a pressão social para estar sempre conectado pode realmente intensificar a sensação de solidão. É interessante como os especialistas estão a explorar isso.