Opinião

Do sensacionalismo à insensibilidade: a banalização do trágico

Nos últimos tempos, a circulação e o consumo de informação têm sido cada vez mais rápidos, não havendo tempo para processar uma determinada informação antes de se receber outra. Milhares de acontecimentos são divulgados ao minuto, e rapidamente as novidades deixam de o ser.

Perante um ambiente tumultuoso e competitivo, os órgãos de comunicação social precisam de captar a atenção das suas audiências, acabando muitas vezes por recorrer a títulos chamativos, à repetição de conteúdos chocantes e até à dramatização dos factos. A esta prática dá-se o nome “sensacionalismo” ou, se nos estivermos a referir a um contexto digital, “clickbait”.

É habitual recebermos notícias sobre escândalos, tragédias e crimes, que, no momento, nos fazem ficar alarmados e à procura de mais informação sobre o assunto. No entanto, a preocupação desaparece quando somos confrontados com um novo acontecimento chocante.

Estamos num estado de constante alerta superficial, ou seja, a nossa preocupação diminui  à medida que a situação perde relevância, mesmo que esta ainda tenha repercussões. Por exemplo, são comuns os relatos de incêndios que destroem casas e mudam a vida de muitas pessoas e, como é de esperar, ficamos sempre um pouco abalados por esses casos. Um mês depois, as pessoas continuam a sofrer, mas como entretanto já há outra situação impactante a decorrer, deixamos de dar tanta importância à primeira.

O sensacionalismo foi normalizado ao ponto de fazer as pessoas partirem do princípio de que todos os meios de comunicação social recorrem ao mesmo. Desta forma, os meios de comunicação tradicionais perdem alguma credibilidade, deixando espaço para fontes de informação menos fiáveis.

Fonte: Freepik

A nossa empatia é posta à prova sempre que ligamos a televisão num canal de notícias. O sensacionalismo acaba por perder o seu propósito, visto que aquilo que era feito para chocar e prender a atenção das pessoas acaba por se tornar banal. Perdas de vidas humanas transformam-se em meros números e ações desprezíveis por parte de figuras públicas são tratadas como simples escândalos de celebridades.

O público está, na sua maioria, a tornar-se insensível às situações verdadeiramente trágicas. Também acaba por ser difícil distinguir conteúdos deliberadamente exagerados de informações relevantes e às quais devemos prestar atenção.

Um exemplo que retrata bem este fenómeno é o caso dos insultos proferidos por Donald Trump a uma jornalista. Quando confrontado com as alegações sobre o seu envolvimento no caso Epstein, Donald Trump chamou “porquinha” à jornalista que o interrogava. Este momento simples teve mais repercussão mediática e gerou mais indignação imediata do que as alegações relacionadas com os ficheiros Epstein. Isto mostra como o sensacionalismo acaba por desviar o foco, direcionando-o para aquilo que conquista mais audiência.

Ainda assim, a insensibilidade não é culpa das pessoas. A indiferença acaba por ser um mecanismo de defesa, já que a exposição constante a notícias trágicas nos leva a um ponto de saturação.

Fonte: Freepik

Se nos deixássemos abalar por todas as desgraças que nos são relatadas, o mais provável seria acabarmos  por deixar de ver notícias para proteger o nosso equilíbrio emocional. De uma forma ou de outra, as pessoas precisam de preservar a sua saúde mental, acabando por ser preferível que se tornem indiferentes, mas se mantenham a par da atualidade, do que se afastem completamente da realidade. 

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Revisto por: Ariana Valido

AUTORIA

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A Carla Vitório, vinda da Lourinhã, terminou o secundário sem saber o que queria fazer e acabou por cair de paraquedas no curso de Jornalismo da ESCS. Descobriu, através da disciplina de Língua e Expressão do Português, que gosta muito de gramática e de espalhar o uso do bom português, logo resolveu juntar-se ao departamento de Correção Linguística da ESCS Magazine. Apesar do seu humor sarcástico e um pouco seco, a Carla adora criar boas relações com os outros e dá o seu melhor para que ninguém se sinta julgado quando ela está por perto.