O individualismo que nos isola
Nos últimos tempos, é cada vez mais frequente a narrativa de que não devemos nada a ninguém, que não temos de agradar a ninguém e que temos de nos desenrascar sozinhos dos nossos problemas.
Parece que nos estamos a esquecer do que é viver em sociedade e de que é preciso fazer
sacrifícios pelos outros de vez em quando, mesmo quando isso não nos beneficia em nada.
A ideia de que não nos devemos importar com o que os outros pensam não é má à partida, mas, se olharmos para ela de outra perspetiva, começamos a perceber onde é que falha.
Obviamente que não nos devemos importar com o que os outros pensam sobre a nossa aparência, o nosso gosto musical, ou qualquer aspeto da nossa vida que não tenha impacto na dos outros. No entanto, continua a ser muito importante preocuparmo-nos com a impressão com que alguém fica sobre nós quando nos conhece.

A ideia de que temos de mostrar quem somos verdadeiramente para afastar aqueles que não gostarem tem muito que se lhe diga. Em primeiro lugar, ninguém tem uma única maneira de ser que mostra igualmente a todos. Nós agimos de forma diferente com amigos, com colegas, com familiares, com pessoas mais velhas ou mais novas. Parar de fazer isto não faz de nós pessoas mais autênticas, mas sim pessoas mais inflexíveis. É claro que não dá para agradar a toda a gente, mas agir de forma diferente de acordo com a pessoa com quem estamos a lidar é perfeitamente normal. Não me refiro a agir com falsidade nem a fingir que gostamos de alguém, mas simplesmente a ser agradável e evitar chocar de frente com qualquer pessoa que tenha uma opinião ligeiramente diferente da nossa.
Dizer “eu sou assim mesmo e quem não gostar que lide com isso” torna-nos pessoas distantes. O ser humano é um animal social e ninguém é cem por cento independente.
Uma pessoa pode gostar de estar sozinha e, mesmo assim, vai chegar um momento em que vai precisar de alguém, nem que seja por pouco tempo. Ninguém é melhor do que os outros nesse sentido.
Uma situação que me chocou bastante foi ver algumas pessoas nas redes sociais a dizer que crianças com menos de dois anos não deviam ser permitidas em viagens longas de avião, porque o choro delas incomoda os passageiros. Quando é que se passou a poder dizer tudo o que se pensa? Eu própria sou uma pessoa que detesta ouvir o choro de crianças e até acho que essa ideia seria agradável para mim, mas estou bastante longe de concordar com ela. As coisas não podem ser feitas apenas de acordo com a nossa vontade; Se assim fosse, não haveria assentos prioritários, acessos especiais para pessoas com mobilidade reduzida e outras facilidades, porque ninguém teria pensado no bem estar do outro.

Chegando à questão de que não devemos nada a ninguém: Será que é mesmo assim? Para responder a isso precisamos de perceber a diferença entre respeito e empatia.
Respeitar alguém é, de certa forma, aceitar a sua posição de superioridade relativamente a nós. Respeitamos pessoas que admiramos e que nos inspiram a ser como elas. Nesse sentido estrito da palavra, não devemos respeito a qualquer um. Mas aquilo que devemos a toda a gente é empatia. O “respeito” de que se fala no dia-a-dia é nada mais nada menos do que boas maneiras e empatia básica. “Não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti”, uma premissa tão simples que normalmente se ensina às crianças, mas da qual muita gente se esquece ao longo da vida.
Chegar atrasado sem avisar, cancelar compromissos à última da hora ou recusar sempre fazer um favor ou facilitar algo a alguém (com ênfase no sempre) são alguns exemplos de coisas que não gostamos de que nos façam, mas estamos sempre à espera de que compreendam quando somos nós a fazê-las.
Não estou a tentar dar uma lição de moral a ninguém. Todos nós cometemos erros e é claro que gostamos de que nos perdoem, mas para isso também temos de estar dispostos a perdoar os outros. Aí é que está o problema: estamos todos tão focados naquilo que é melhor para nós, que temos dificuldade em ser minimamente prejudicados pelos outros. Só para esclarecer que com “prejudicados” quero dizer, por exemplo, quando alguém se esquece de comprar algo do supermercado que lhe pedimos, e não quando alguém nos humilha ou maltrata.
Abordar estas questões é difícil porque parece que estou a pedir que as pessoas se tornem people pleasers. Sair da nossa zona de conforto de vez em quando para facilitar a vida a alguém não faz de nós submissos – deixar que nos passem por cima o tempo todo é que faz.
Ao fazer um esforço para agradar aos outros, aumentamos a probabilidade de que os outros façam um esforço para nos agradar a nós.
Fonte: Freepik
Artigo corrigido por: André Ventura
AUTORIA
A Carla Vitório, vinda da Lourinhã, terminou o secundário sem saber o que queria fazer e acabou por cair de paraquedas no curso de Jornalismo da ESCS. Descobriu, através da disciplina de Língua e Expressão do Português, que gosta muito de gramática e de espalhar o uso do bom português, logo resolveu juntar-se ao departamento de Correção Linguística da ESCS Magazine. Apesar do seu humor sarcástico e um pouco seco, a Carla adora criar boas relações com os outros e dá o seu melhor para que ninguém se sinta julgado quando ela está por perto.

