Grande Entrevista e Reportagem

Entre a pressão e a decisão: o caminho de três árbitras no futebol e andebol

Do futebol ao andebol, três árbitras contam os desafios, os sacrifícios e as conquistas de uma profissão onde as mulheres continuam a ter de provar mais do que os homens.

Durante muitos anos, a arbitragem foi vista como um espaço maioritariamente masculino, mas dentro dos relvados e pavilhões portugueses há cada vez mais mulheres a afirmarem-se na arbitragem portuguesa. Entre decisões tomadas em segundos, pressão constante e com vários preconceitos ainda presentes, ser árbitra continua a exigir muito mais do que conhecer as regras do jogo.

Legenda: Rita Machado

Fonte: Federação Portuguesa de Andebol

Quando somos crianças, poucas são aquelas que dizem que sonham ser árbitras, e ainda menos imaginam que possa ser possível construir uma carreira num dos papéis mais ingratos, exigentes e escrutinados do desporto. No entanto, Cristina Amaral, Sara Alves e Rita Machado são exemplos a seguir, com três percursos distintos em duas modalidades de grande expressão no nosso país. O apito tornou-se uma forma de continuarem ligadas à modalidade. As três partilham uma realidade marcada por conquistas importantes, mas também por preconceitos, sacrifícios e uma constante necessidade de afirmação.

UM LUGAR CONQUISTADO DENTRO DE CAMPO

O percurso das três árbitras tem algo em comum: começou de forma  pouco convencional, ou seja, nenhuma delas cresceu com o objetivo de seguir uma carreira na arbitragem.

Apesar de nunca ter sido federada, Cristina Amaral jogou futsal e sempre esteve ligada ao futebol como adepta e um percurso profissional ligado ao desporto, com formação em Ciências do Desporto na UTAD. Sara Alves também teve um percurso ligado ao futebol e futsal e viu na arbitragem uma oportunidade de permanecer próxima da competição. Rita Machado, ex-jogadora de andebol, chegou à arbitragem “empurrada” por um amigo que a levou a fazer o curso.

O que começou como uma simples experiência acabou por se transformar numa paixão. Apesar disso, a adaptação esteve longe de ser simples.

Sara Alves recorda que, após o primeiro jogo, chegou a questionar-se sobre se tinha feito a escolha certa: “cheguei a casa e pensei: não, isto não é para mim”, admite. A pressão, responsabilidade e a exposição pública são fatores que muitos árbitros enfrentam desde cedo, mas que podem ser particularmente intensos para as mulheres num contexto ainda mais marcado por desigualdades.

Legenda: Sara Alves

Fonte: Sara Alves

Com o passar dos anos, as três construíram carreiras sólidas. Cristina Amaral fez história ao integrar a primeira equipa de arbitragem feminina a dirigir um jogo de futebol profissional masculino em Portugal. Sara Alves também esteve presente na equipa de arbitragem que apitou a final do Campeonato de Portugal como quarta árbitra, em 2024, e chegou ao estatuto de árbitra internacional na temporada desportiva 2024/25. Rita Machado juntamente com a sua parceira de arbitragem, Soraia Lusquiños, tornou-se uma das duplas de referência no andebol português.

O PESO DO PRECONCEITO

Embora reconheçam que tem existido uma evolução significativa na aceitação das mulheres na arbitragem, as três protagonistas reconhecem que ainda existe um caminho a percorrer.

Cristina Amaral não esquece alguns episódios que viveu ao longo da sua carreira. Entre insultos e comentários depreciativos, houve situações que ultrapassaram os limites do aceitável, e recorda o episódio de viveu num jogo de formação, no qual precisou de escolta policial para abandonar o recinto após os pais de atletas estarem a aguardar a sua saída.

Legenda: Cristina Amaral

Fonte: Desportivo Transmontano

Os comentários machistas também marcaram o seu percurso: “ouvir mulheres a dizer que devia estar a lavar a loiça ou a cuidar da casa é duro”.

Para Sara Alves, o preconceito nem sempre surge de forma explícita e muitas vezes manifesta-se através de um escrutínio mais intenso sobre o trabalho realizado pela árbitra: “a competência de uma árbitra é testada mais vezes do que a de um homem”, afirma a ex-árbitra.

A ideia de que as mulheres precisam de provar constantemente o seu valor surge como um dos pontos em comum entre as três experiências relatadas. Apesar de a presença feminina ser hoje mais visível, o reconhecimento continua frequentemente associado à necessidade de demonstrar níveis de competência superiores.

Rita Machado descreve o andebol como um contexto geralmente mais acolhedor, mas ainda assim admite que “no início foi difícil, mas faz parte. Quando começamos não somos perfeitos e temos de conquistar o nosso espaço”.

O PREÇO DE SEGUIR A ARBITRAGEM

Tal como as/os jogadoras/es, o trabalho das equipas de arbitragem não se limita ao momento do jogo, e por detrás das transmissões televisivas e das decisões tomadas em campo existe ainda uma realidade “invisível” para o público, que implica a dedicação de uma grande quantidade de tempo à arbitragem, preparação e ausências.

Treinos físicos, preparação e análise de vídeo dos jogos e deslocações ocupam também uma grande parte da rotina das árbitras, e quase todas conciliam a arbitragem com outras profissões, o que torna a gestão do tempo particularmente desafiante.

Cristina Amaral é uma das arbitrais profissionais do quadro da FPF e, devido ao elevado calendário competitivo e viagens, faz parte da Associação de Futebol de Vila Real. Muitas vezes tem de fazer longas deslocações, e admite que, apesar de falar todos os dias com os pais, chegou a passar alguns meses sem os conseguir visitar. Sara Alves recorda que, numa fase da sua carreira em que a sua vida girava em torno da arbitragem e do seu trabalho, “os amigos e a família eram para o tempo que restava”.

As consequências dessas escolhas acabam por se estender muitas vezes a decisões profundamente pessoais e Sara Alves destaca por exemplo o facto de que algumas árbitras chegam a adiar a maternidade para não comprometer oportunidades de progressão na carreira.

No caso de Rita Machado, a dificuldade está em conciliar a arbitragem com a sua carreira profissional – gestora financeira. “São aniversários, casamentos, batizados e jantares em que a resposta é quase sempre: não posso, tenho jogo”, conta. No caso de Rita é particularmente mais exigente. Depois do fim da temporada de indoor, existe ainda a temporada do andebol de praia, e apesar de já ter estado presente em grandes jogos do andebol nacional, nunca apitou por exemplo a supertaça porque, quando se disputa, está a terminar a temporada no andebol de praia.

Apesar das exigências, nenhuma das três protagonistas demonstra arrependimento. Todas encaram os sacrifícios como algo inevitável de uma atividade que, apesar de alguns pontos negativos, continuam a exercer com enorme dedicação.

FUTEBOL E ANDEBOL: DUAS REALIDADES DIFERENTES

As entrevistas que realizei também revelam diferenças interessantes na cultura desportiva do futebol e do andebol.

Os jogos de formação são o pesadelo para muitos árbitros. Cristina Amaral e Sara Alves apontam o comportamento de alguns pais como uma das principais fontes de pressão e dos ambientes mais problemáticos para as equipas de arbitragem. “Ficava doente quando sabia que era nomeada para jogos de formação”, conta Sara Alves.

Legenda: Sara Alves

Fonte: Sara Alves

Sara Alves também diz que “as pessoas não sabem estar”, referindo-se à atitude de muitos adultos durante os jogos de formação. Já Cristina Amaral considera que é mais difícil apitar jogos de formação porque os pais não têm noção de que as crianças apenas se querem divertir e aproveitar o momento. “Eu já tive miúdos a chorar no campo e a pedir para o pai se calar”, recorda.

Rita Machado considera que o andebol ainda mantém uma cultura de uma maior proximidade entre os vários intervenientes do jogo, e apesar de poderem existir alguns momentos de tensão, acredita que o ambiente continua a ser saudável. “Existe outro nível de civismo e era bom que assim se mantivesse”, defende.

Contudo, mostra-se preocupada com a possibilidade de alguns comportamentos e atitudes mais associadas ao futebol começarem a surgir noutras modalidades, à medida que a competitividade e a visibilidade mediática crescem.

UM FUTURO EM ABERTO

Se o presente ainda apresenta alguns desafios, o futuro parece ser mais promissor. As três árbitras reconhecem que o crescimento do desporto feminino teve um impacto decisivo no aumento das oportunidades para as mulheres na arbitragem.

Sara Alves considera que a evolução do futebol feminino foi determinante para o aparecimento de mais árbitras. Cristina Amaral partilha dessa visão e destaca a crescente normalização da presença feminina em contextos tradicionalmente ocupados por homens.

No andebol, Rita Machado considera que os resultados alcançados pelas seleções nacionais e a maior visibilidade da modalidade pode ser importante para atrair novas pessoas para a arbitragem.

Ainda assim, todas concordam que o maior desafio continua a ser cultural e a forma como os adeptos em Portugal olham para o papel das equipas de arbitragem.

Fonte: Federação Portuguesa de Andebol

As histórias de Cristina Amaral, Sara Alves e Rita Machado mostram que a arbitragem feminina em Portugal já percorreu um longo caminho, mas também que, por detrás de cada apito ou decisão, continuam a existir obstáculos que exigem determinação, resiliência e paixão pelo desporto para continuar. São três histórias diferentes, mas que revelam que existe espaço para as mulheres na arbitragem, seja em que modalidade for.

Fonte da capa: Federação Portuguesa de Andebol

Legenda da capa: Rita Machado, ao lado de Soraia Lusquiños

Artigo revisto por Eva Guedes

AUTORIA

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O João está no primeiro ano do mestrado em Jornalismo, mas a sua relação com a atualidade já vem de trás e muito antes das aulas, já os jornais faziam parte da rotina. Licenciado em História, encontrou no jornalismo uma forma de continuar a fazer perguntas, agora com um olhar mais virado para a política, economia e, claro, o desporto. Entre temas sérios e resultados de fim-de-semana, tem vindo a dedicar-se a um projeto sobre desporto feminino, juntando o gosto pela escrita à vontade de dar mais destaque a histórias que nem sempre chegam às capas. Escrever é, para ele, uma forma de pensar melhor e, às vezes, de dizer o que fica por dizer.