A 4 Mãos: Bolsonaro, o candidato da desordem e do retrocesso

Uma rubrica de Opinião escrita a quatro mãos por Maria Moreira Rato e Marcos Melo

 

Maria Moreira Rato (MMR): Parece que a nossa rubrica regressou, sete meses após a sua última aparição. Desde o último artigo muito ocorreu, tanto a nível nacional como internacional. A 14 de março, a socióloga e ativista Marielle Franco foi executada com quatro tiros, no Rio de Janeiro, ao abandonar o evento “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Volvido precisamente um mês, deu-se o intitulado bombardeio de Damasco e Homs, um ataque aeronaval realizado pelos EUA, por França e pelo Reino Unido contra alvos do regime de Bashar al-Assad na Síria. A 26 de maio, os irlandeses corroboraram a onda de modernismo que se tem vivido no país ao votarem, em grande escala (64%), a favor da legalização do aborto. A 24 de junho, as mulheres sauditas obtiveram autorização para conduzir (sim, esta é mesmo uma notícia do séc. XXI). A 30 de julho, mais de 5 milhões de cidadãos do Zimbabué votaram nas eleições presidenciais, legislativas e locais — as primeiras na ausência de Robert Mugabe, líder (ditador) do país durante 38 anos. A 3 de agosto, um terrível incêndio deflagrou em Monchique e resultou em 41 feridos e 27.000 hectares de área ardida. A 6 de setembro, o candidato do Partido Social Liberal à presidência brasileira, Jair Bolsonaro, foi supostamente alvo de um ataque quando estava em campanha no estado de Minas Gerais. No dia 7 de outubro, a primeira volta das eleições presidenciais brasileiras terminou com o seguinte resultado: 46% dos votos a favor de Bolsonaro e 29% para Fernando Haddad, representante do Partido dos Trabalhadores.
A campanha #EleNão tem vindo a ganhar proporções relevantes nas redes sociais. A sua rampa de lançamento? Um grupo privado do Facebook, de seu nome “Mulheres Contra Bolsonaro”, que conta com cerca de 3 milhões de membros e que é constantemente alvo de tentativas de destruição por parte de apoiantes de Bolsonaro.
“O erro da ditadura foi torturar e não matar” ou “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí” são dois exemplos de frases que espelham a mentalidade de Bolsonaro que, no mínimo, é um candidato polémico.
Marcos, qual será o futuro do país cujo lema é “Ordem e Progresso”, se Bolsonaro for eleito Presidente no dia 28 deste mês?

Marcos Melo (MM): Maria, hoje em dia, assistimos, um pouco por todo o mundo — nomeadamente, em países ditos desenvolvidos —, à emergência de ideologias populistas e de extrema-direita (ou, se preferires, neonazistas). O reinado hitleriano, caído em 1945, encontra, entre os políticos de hoje, discípulos dispostos a abraçar os textos sagrados de Mein Kampf. Infelizmente, a história repete-se, como se de um revivalismo se tratasse. Pergunto: não aprendemos com os erros do passado? A resposta é clara: não. No século XX, um pouco por toda a Europa, co-habitaram regimes fascistas — desde Franco, em Espanha, a Mussolini, na Itália, passando por Lenin, na Rússia. Portugal não foi excepção. O salazarismo, também conhecido por Estado Novo, que vigorou entre 1933 e 1974, foi uma praga que condenou o país a um atraso civilizacional, cujas repercussões ainda hoje são cicatrizes difíceis, ou impossíveis, de sarar. Salazar reinou até cair da cadeira, mas, tal como Hitler, deixou sementes que, de vez em quando, ainda que veladas, brotam do chão — o neoliberalismo que o governo de Pedro Passos Coelho abraçou deu sinais claros de ideais totalitários, pois a subjugação do povo português à Troika não foi nada menos que uma ditadura. Felizmente, os nossos avós e bisavós lutaram pela liberdade de que hoje usufruimos. Mas não podemos tomá-la como garantida, pois estamos claramente a regredir. Há dúvidas de que não somos realmente sociedades livres e democráticas? Se alguém acreditar que sim, então, abra os olhos. Os exemplos são mais que muitos: o Brexit, a eleição de Trump como presidente dos EUA e a ascensão de partidos de extrema-direita na Europa são apenas alguns exemplos da realidade que deve preocupar os cidadãos. Mas, respondendo à tua pergunta — até porque já me alonguei —, diria que uma possível (e, infelizmente, provável) vitória de Bolsonaro transformará o Brasil no país da “Desordem e Retrocesso”.

Maria, o que achas que leva o povo brasileiro a votar num candidato que procura alienar as suas próprias liberdades e garantias?

MMR: A generalização pode ser um vício, um perigo e, acima de tudo, um erro. Contudo, naquilo que toca à implementação dos regimes fascistas, acaba por constituir um processo aceitável. Ora, permite-me recorrer a exemplos reais para corroborar esta teoria.
Alemanha, 1919. Hitler junta-se ao Partido dos Trabalhadores Alemães. Nesse mesmo ano, o país assina o Tratado de Versalhes com outras potências europeias e é classificado como o principal causador da Primeira Guerra Mundial, tendo de pagar o equivalente a 33 milhões de dólares aos países lesados. Entre 1919 e 1933, durante a República de Weimar, dá-se a Grande Depressão provocada pelo crash da bolsa de Wall Street e que se alastra a variados países. Na Alemanha, os gastos estatais são radicalmente cortados (principalmente no setor social), a taxa de desemprego situa-se nos 45% e tomar um simples café era considerado um luxo. Se a retórica começou por ser anti-burguesa e anti-capitalista, acabou por incidir na ideia da existência de uma “raça ariana”, ou seja, superior e pura, que não inclui judeus, homossexuais, negros, adversários políticos… A segregação tornou-se a palavra-chave do nazismo. A alta burguesia alemã, os empresários e o clero foram os principais apoiantes de Hitler, inicialmente, temendo-se uma revolução socialista e apoiando a ascensão do líder que acreditava ser “uma sorte para os ditadores” que os “homens não pensassem”.
Brasil, 2018. É difícil apontar os maiores flagelos deste país, mas aqueles que refiro são alguns dos mais preocupantes: desde o excesso de burocracia, passando pela fragilidade das instituições (essencialmente as judiciais), a má administração estatal, a intitulada cultura da impunidade (apontada como uma falha relevante pelo Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais da ONU, em maio de 2009), a escalada de violência (em 2016, existia uma taxa de 30,3 mortes por cada 100 mil habitantes, quando o limite considerado suportável pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 10 homicídios por 100 mil habitantes) e o sistema de saúde precário — cerca de 50 milhões de brasileiros recorrem aos planos de saúde privados devido à insuficiência do Sistema Único de Saúde. Além disso, alguns hospitais de referência não são subsidiados e não têm fundos para realizar até os procedimentos mais corriqueiros e básicos, há cirurgias que não são realizadas por falta de material apropriado, os abortos clandestinos e a mortalidade infantil aumentam, etc.
Perante uma população descontente e desiludida, Jair Bolsonaro criou o plano de governo O Caminho da Prosperidade, no qual promete, entre outros, regular a inflação, modernizar a legislação trabalhista, avaliar as políticas públicas, estimular a criação de empresas, permitir a posse de armas de fogo, fortalecer o ensino, promover a liberdade de imprensa e defender a propriedade privada.
Estado forte, mobilização das massas, promessa de mudança, incitar a devoção ao líder, liderança carismática, filosofia idealista, “violência positiva”, dominação masculina, disciplina… Poderia escrever várias páginas com as características comuns a estes e outros regimes que, sejamos honestos, são claramente de cariz fascista. Preferia que a Teoria da História Cíclica não existisse…!
Marcos, a que conclusão podemos chegar?

 

MM: De uma coisa estou certo, Maria. Bolsonaro não é, de todo, a solução para os problemas profundos que o Brasil atravessa. Veja-se o que tem acontecido nos EUA: Trump criou uma fissura social na Terra do Tio Sam, assente numa guerra social, em que, como sempre, os mais vulneráveis são os alvos predilectos (negros, latinos, mulheres, homossexuais, etc.). Bolsonaro não é muito diferente de Trump. É racista, é machista, é misógino, é homofóbico, etc. A veia populista e totalitária está lá. Resta-nos, para já, aguardar pela segunda volta das eleições presidenciais, que terá lugar no dia 28 deste mês. Infelizmente, o mais certo é acordarmos, no dia 29, com a notícia de que Bolsonaro é o novo presidente da Terra de Vera Cruz. Se essa hipótese se verificar, o povo brasileiro tem razões para recear o futuro. E o mundo também. Que assim não seja…

 

MMR: Li um artigo de Marc Brodine, representante do Partido Comunista dos EUA em Washington D.C, no qual explicita quatro aspetos “de balanço” na implementação de qualquer regime fascista: a pretensão da normalidade (para que a população encare a transição para o fascismo como qualquer outra transferência de poder); a manutenção e, se possível, aumento dos apoiantes (para que a promoção das políticas e a crença na liderança funcionem); obtenção do apoio de classes que não apoiaram os candidatos durante as eleições (por exemplo, os capitalistas) e o aproveitamento de todo o tempo disponível “fora de cena” para atacar a democracia “de todas as formas possíveis”.
Parece que o objetivo primordial de todos os políticos radicalistas, autoritários e nacionalistas é dar tempo ao tempo mas, neste caso, urge agir nas duas semanas que faltam até à possível ascensão de um regime fascista em território brasileiro…!

Artigo corrigido por: Joana Silvério

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