A felicidade em “não saber”
“As pessoas mais felizes são as mais ignorantes.”
Foi com esta frase que tropecei num pensamento que, à primeira vista, parece absurdo, mas que, quanto mais se reflete sobre ele, mais sentido faz.
Ignorância e desinteresse – duas palavras que, no vocabulário comum, carregam o peso do negativismo.
Afinal, o que é a ignorância?
ignorância (ig·no·rân·ci·a)
nome feminino
1. Estado de quem ignora. ≠ conhecimento
2. Falta de ciência ou de saber. ≠ sabedoria
3. Incompetência.
“ignorância”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/ignor%C3%A2ncia.
É a ausência de conhecimento, sim. É a falta de sabedoria. Mas será que ser-se ignorante tem de ser sempre visto como algo ofensivo?
Para os amantes de literatura, ou mesmo para quem apenas sobreviveu aos exames do secundário, Fernando Pessoa surge inevitavelmente nesta conversa. No seu Ortónimo, encontramos uma reflexão profunda sobre “A Dor de Pensar”. O poema “A Pobre Ceifeira” é um dos melhores exemplos disto. Este poema confronta-nos com a ideia de que quem sabe muito sofre, e quem ignora vive em paz. A ceifeira canta, feliz na sua rotina, alheia à complexidade do mundo – enquanto o poeta, consciente de tudo, inveja a simplicidade dessa inconsciência.
“Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso!” (Ela canta, Pobre Ceifeira)
Nestes versos, há uma contradição que define a condição humana: desejamos a leveza da ignorância, mas sem abdicar da consciência. Queremos ser felizes, mas também queremos compreender. Contudo, a compreensão rouba-nos, tantas vezes, a tranquilidade. Saber demais é abrir feridas que talvez nunca se fechem, é ter acesso ao que há de mais melancólico no mundo – injustiças, guerras, corrupção, dor.
Dói pensar, dói saber. Dói procurar constantemente a sabedoria quando o conhecimento revela o que preferimos ignorar.
É por isso que romantizamos tanto a infância. Na infância, a ignorância é uma bênção natural. Vivemos num universo onde tudo é possível, onde as pessoas são boas, onde o amor é simples e o mundo é justo. Crescer é, de certa forma, perder essa ignorância feliz. Tornamo-nos adultos e ganhamos consciência – consciência do tempo que passa, da morte, da dor, da mentira, da perda. O conhecimento liberta, mas também aprisiona. Dá-nos o poder de compreender o mundo, mas, em contrapartida, tira-nos o direito à despreocupação.

Não defendo, evidentemente, que a felicidade esteja em ser-se “burro” ou ingénuo por escolha. Não se trata de recusar o saber, mas de reconhecer que o seu excesso pode corroer-nos.
A sociedade contemporânea valoriza o conhecimento como se fosse o único caminho para a plenitude – vivemos obcecados pela informação, mergulhados num mar de notícias, opiniões e dados que raramente nos trazem paz.
Fernando Pessoa compreendeu-o antes de todos nós. O poeta percebeu que a mente humana é uma armadilha: quanto mais pensa, mais se perde. Por isso, inveja a ceifeira – não por ser inculta, mas por ser livre. Livre do peso da reflexão, da busca incessante pelo sentido, da obsessão com o “porquê” de tudo. Pessoa não quer deixar de ser ele; quer apenas emprestar à sua consciência um pouco da leveza do não saber.
Talvez a felicidade esteja precisamente nesse equilíbrio impossível – em saber o bastante para viver, mas não o suficiente para sofrer. Em ser conhecedor da necessidade da ignorância, se é que se pode dizer assim.

No final, a ignorância não é inimiga do conhecimento, mas o seu contraponto necessário. O conhecimento é necessário, claro. Mas a ignorância não fica atrás. Ser feliz é, talvez, não precisar de entender tudo – apenas viver o que há para viver. Como a ceifeira de Fernando Pessoa, que canta, ceifa e existe, sem saber que é, na sua inconsciência, a mais sábia.
Artigo revisto por Beatriz Mendonça
Fonte: Pinterest
AUTORIA
A arte da comunicação sempre a fascinou. Aluna do terceiro ano de jornalismo, encontrou na ESCS Magazine o espaço ideal para dar voz às suas ideias e perspetivas. Movida por uma curiosidade constante em compreender melhor o mundo que a rodeia, vê no jornalismo uma forma de partilhar esse conhecimento com as pessoas ao seu redor. Na editoria de Opinião, procura deixar uma marca em quem a lê, usando a escrita como ferramenta de impacto.

