A tentação de se ser um atrasado mental

A morte é um evento de celebração da vida, por muito macabro que isso possa soar para muita gente. Aliás, entre todos nós, vai-se gozando com o facto de que, muitas vezes, só nos lembramos e só apreciamos verdadeiramente o impacto que alguém tem na nossa vida depois do funeral feito e da lápide lida. É com a morte à porta que começamos a recordar os melhores e piores momentos de uma certa pessoa que nos é querida ou que nos marcou e a refletir sobre o seu peso na nossa personalidade e forma de estar. A tendência é para recordarmos o melhor, enquanto o pior fica guardado para alturas mais convenientes. Não convém é esquecer, especialmente isso menos bom.

Em junho, o assassinato do rapper Jahseh Onfroy, mais conhecido como XXXTentacion, caiu que nem uma ogiva daquelas apocalípticas no seio da comunidade da música mainstream. Apesar de não ter sido necessariamente aclamado pela crítica no seu ano e meio de projeção, a intensidade, agressividade e carga emocional da sua persona e da sua música fê-lo ganhar imenso público – sobretudo o público mais jovem – e catapultou-o para a ribalta da mainstream. No entanto, como não podia deixar de ser no caso de gente famosa, a chegada ao “topo” trouxe maior escrutínio e curiosidade e pode-se exacerbar essas ações, tendo em conta a idade dos seus aficionados. Ou então não: porque quando se soube das alegações feitas pela sua antiga namorada – nas quais ela diz que Onfroy a agrediu quando esta estava grávida e que a cegou parcialmente -, o consenso foi de perdão, visto que o artista estava a “tentar” melhorar como pessoa, com ações de caridade e uma presença wholesome e uplifting nas redes sociais, mostrando-se “arrependido”. Antes disso, foi preso duas vezes: em 2014, ainda menor, foi para um centro de correção por posse de armas e por pouco não foi julgado como adulto; já em 2016, com 18 anos, foi detido e acusado de roubo e assalto à mão armada quando entrou na casa de alguém com três homens, saindo com um iPhone, uma PSP e 20 dólares.

 

Nestes meses pós-morte, o legado de Jahseh é o de um rapaz problemático que cometeu alguns erros, mas que estava consciente deles e estava também a tentar mudar o mundo para melhor. Aqueles que não acreditavam nas alegações (putos estúpidos), simplesmente viam X como uma força inspiradora e seria uma questão de tempo até ser o maior artista desta geração.

 

Nesta passada semana, a publicação musical Pitchfork lançou o áudio no qual Onfroy confessava as agressões e ameaças de morte à namorada Geneva Ayala e outras peripécias de menino problemático – mas bondoso -, como oito esfaqueamentos, em 2016. Isto não são erros quaisquer. Espancar uma miúda grávida não é um erro. Por muito problemático que tivesse sido o passado desta gosma, deveria ter o poder de encaixe para saber que espancar alguém, especialmente uma rapariga grávida, é errado. Se por acaso uma rapariga nos enganasse ou algo do género, não se iria fazer uma coisa tão grave ao ponto de ficarmos nós mal vistos. Tentar-se-ia divulgar que alguém nos estava a enganar. Para alguém com tanto “talento”, como a juventude sua seguidora o afirmava, podia ter sido um pouco mais inteligente.

 

Num artigo de um jornalista do Guardian, há uma frase que resume relativamente bem aquilo que eu penso do artista: o seu verdadeiro legado é aquilo que ele fez e admitiu ter feito à sua ex. XXXTentacion não passa de um artista medíocre, na melhor das hipóteses, e de um puto sociopata, que nem merecia um torrãozinho da fama e guita que teve nestes dois anos. No entanto, temos sempre de saber separar a arte do artista: o facto de alguém ser má pessoa não significa necessariamente que a sua arte seja uma merda e que o seu talento não possa ser apreciado. No entanto, entre admitir o talento de alguém e demonstrar publicamente apoio a alguém que seja uma merda a este ponto vão anos-luz de distância. Não se compre merch, não se vá aos concertos e não se apoie nas redes sociais.

Em relação aos putos estúpidos com o cio e o miolo atrofiado, pode-se dar o benefício da dúvida. Apesar de ser enormemente estúpido continuar a apoiar um puto assim, pode-se considerar um típico erro de puto “problemático” ou de adolescente pseudo-rebelde com a mania de que é profundo e incompreendido, quando na verdade é mais parvo e teimoso do que outra coisa qualquer. Enquanto ainda não agridem namoradas e namorados, têm tempo para perceber o quão parvos estão a ser por continuar a associar-se com este corno.

É inegável que Jahseh Onfroy teve uma vida infeliz, de certa maneira, mas não nos esqueçamos daquilo que fez nem daquilo que certamente lhe fizeram e o obrigaram a enfrentar durante a sua curta vida, sendo que não há desculpa para espancar e esfaquear alguém. Não digo que o rapaz merecesse morrer, porque talvez isso me colocasse num patamar de parvoíce comparável (apesar de ter chegado a pensar nisso, mais ou menos). No entanto, quem sabe se com a sua morte não se teria evitado muitos outros atos de pura loucura.

Corrigido por: Andreia Jesus

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