Bonito mas oco

Snu Abecassis. Para quem esteve atento à produção televisiva e cinematográfica portuguesa dos últimos meses, este nome não é estranho. Após a estreia da série “Três Mulheres”, que conta a história de Natália Correia, de Snu Abecassis e de Vera Lagoa, durante a ditadura portuguesa, foi a vez de Snu aparecer no grande ecrã.

Com a realização de Patrícia Sequeira, o filme Snu retrata a relação de amor entre Snu Abecassis (interpretada por Inês Castelo Branco) e Francisco Sá Carneiro (interpretado por Pedro Almendra), desde o momento em que se viram pela primeira vez até à morte trágica de ambos. Sendo um momento importante da história recente portuguesa, que, raramente, se alguma vez, foi contado quer em cinema, quer em televisão, a expetativa é elevada. Expetativa que o filme não consegue nem um pouco alcançar.


Pedro Almendra e Inês Castelo Branco no filme Snu – Fonte: IMDB (https://www.imdb.com/title/tt8095076/mediaviewer/rm3884212224)

Apesar da brilhante interpretação de Inês Castelo Branco, que mostra aqui o quão desaproveitada é em outros filmes, séries e telenovelas, e do filme ser esteticamente bonito, muitas vezes as cenas são só mesmo isso: belas. Algumas não conseguem transmitir a emoção que pretendem, outras não fazem sentido e nada contribuem para contar melhor a história. Temos como exemplo as sequências de sonho de Snu, que acabam por não acrescentar nada à narrativa e não servem de muito para desenvolver a personagem.

A relação entre Snu e Sá Carneiro acaba por sair consequentemente fragilizada, uma vez que só é explorada pela rama. As próprias personagens acabam por ser reduzidas a terem uma relação entre si, apesar de se perceber pelo filme que essa não era a intenção inicial.  Personagens que sabemos pela história serem muito mais do que duas pessoas que se apaixonaram.

Pedro Almendra e Inês Castelo Branco no filme Snu – Fonte: IMDB (https://www.imdb.com/title/tt8095076/mediaviewer/rm2676252672)

Uma decisão de louvar, apesar de gerar alguns problemas, é terem arriscado e colocado imagens de arquivo em algumas cenas, em vez de as recriar. No entanto, a decisão acaba por ser um pouco um tiro no pé porque só vem realçar a pobreza do filme e a falta de carisma que Pedro Almendra possui ao interpretar Francisco Sá Carneiro.

Nota-se o esforço para mostrar a dimensão da história de amor entre Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro e que ambos são mais do que isso – principalmente Snu, que muitos esquecem ter sido a fundadora da editora Dom Quixote. Apesar disso, infelizmente, o filme não o consegue fazer.

Artigo revisto por Lurdes Pereira

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