Segundo a Infopédia, campismo é a “atividade de lazer, turística ou desportiva, que consiste em acampar ao ar livre, em recintos próprios (parques de campismo) ou livremente em locais naturais (campismo selvagem)”. Para o Priberam, campismo é, surpreendentemente, a atividade em que se acampa. Eu sei, mind-blowing. Já o ato de acampar, para o mesmo site, é instalar-se/estabelecer-se no campo (ou até “assentar arraial”).

Já eu, acho que estas definições estão a subvalorizar o conceito. Campismo é muito mais do que isso. Campismo é o tapete que se cria graças às carumas cujo cheiro significa felicidade. Campismo é o som apaziguante dos grilos, que fazem uma barulheira durante a noite e que arreliam a minha avó, não a deixando dormir – Avó, mal tu sabes que me proporcionaram as melhores noites de sono. Campismo é ouvir constantemente o bater das ondas da Praia do Malhão nas rochas que a cercam. A minha praia. Ó Malhão, Malhão!

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Fotografia cedida por Mariana Coelho

Frequento o meu paraíso, o Sitava, desde os meus inocentes seis meses. Tal como explico aos meus amigos, fica no Alentejo, depois de Porto Côvo e antes de Vila Nova de Milfontes. Todos os meus verões (e, às vezes, até partes de outra estação) foram passados lá. Eram os melhores três meses do ano (“eram”, não porque tenha deixado de ir, mas porque já não é possível ficar tanto tempo) por tudo o que simbolizam para mim. Campismo é passar horas deitada naquela cadeira frágil, amarela e verde, a olhar para os pinheiros, que, de quando em vez, lá deixavam passar uma brecha de céu azul. É sentir a brisa com cheiro a maresia; é ver o meu avô sentado em frente ao grelhador (sempre com o seu boné, atenção, que o sol já não estava para brincadeiras) e a perguntar “É servido?” a todos os vizinhos que tinham a sorte de por lá passar; é ver a minha avó a fazer palavras cruzadas, mesmo que as letras saiam todas tortas e impercetíveis por já lhe tremerem as mãos.

Olho para trás e relembro todas as voltas que dei de bicicleta ao parque, sempre com os fones a ouvir música enquanto refletia acerca de todos os dilemas da minha vida – que não o eram. Que bom é ser campista, crescer com os meus amigos todos na mesma rua e passar cada noite num avançado diferente (aqueles toldos anexados às roulottes). Só nós sabemos as dores de barriga que aquelas sessões de cartadas nos proporcionaram.

Não fico numa canadiana nem durmo no chão. Talvez isso queira dizer que eu própria não entendo o que é o campismo. No entanto, sei que valorizo esta atividade menosprezada mais do que a maioria das pessoas. Se calhar só tem esta importância devido ao quanto contribuiu para me moldar e ao peso que teve no meu desenvolvimento. Comecei a dar os meus primeiros passos no campismo e sei que é lá que vou querer dar os últimos, mesmo que sejam até à minha campa. Para mim, campismo é isto. É o meu refúgio; é viver durante três meses com os meus avós, aproveitando os seus últimos anos ao máximo. É fazer amizades para a vida, que permanecem fortes mesmo que nos vejamos esporadicamente. É ir de manhã para a piscina e de tarde para a praia. É ver os meus pais a chegarem de carro ao fundo da rua e saber que afinal o meu santuário ainda podia ficar melhor. É a minha infância, a minha adolescência. O cofre onde acumulo as melhores memórias que recolhi ao longo dos tempos. É o abrigo que escolhi, mesmo que tenda a glorificá-lo em demasia. É o local para onde volto sempre, sempre que posso.

Fotografia em destaque cedida por Mariana Coelho

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