Covid-19. O caso do Brasil

A pandemia Covid-19 continua a ceifar milhares de vidas em vários países. Segundo a Organização Mundial de Saúde, os EUA podem vir a ser o próximo foco de infeção. A organização apela ao cumprimento de todas as recomendações para minimizar as consequências. No Brasil, o combate ao vírus está a gerar polémica pela divergência de opiniões.

O Ministério da Saúde brasileiro já tinha apelado a uma mudança de hábitos para prevenir a propagação do novo coronavírus. Todas as medidas de isolamento social são recomendadas pelas autoridades de saúde. Na sua página na internet, o Ministério pedia à população para reduzir as deslocações ao necessário, para se adaptar ao teletrabalho, e defendeu a “antecipação de férias em instituições de ensino”. Apesar disso, o Presidente do Brasil decidiu contrariar a posição do governo em declarações à televisão.

Jair Bolsonaro dirigiu-se aos cidadãos na terça-feira à noite, desvalorizando as consequências do Covid-19. No seu discurso pediu a reabertura do comércio e das escolas. O presidente brasileiro defendeu que é preciso evitar o pânico e enfrentar a situação. Bolsonaro também reforçou a necessidade de manter a economia ativa, sobretudo por causa do desemprego em massa.

“O vírus chegou, está a ser enfrentado por nós e brevemente passará. A nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade (…) O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, porquê fechar escolas?”, salientou o Presidente do Brasil.

As reações ao discurso surpreendente de Bolsonaro não se fizeram esperar. Na quarta-feira, a maioria dos governadores dos estados brasileiros declaram-se contra a posição do Presidente. 25 dos 27 governadores anunciaram que iriam manter as regras de isolamento social para a prevenção do novo coronavírus.

“Cearenses, diante do pronunciamento do Presidente da República, tenho apenas um comentário a fazer: vamos continuar a trabalhar fortemente as ações que visam evitar o avanço do coronavírus no nosso Estado, como temos feito até aqui. Todas as medidas adotadas por nós são recomendadas pelos profissionais de saúde, pela própria Organização Mundial de Saúde e têm sido a melhor forma de enfrentamento ao coronavírus no mundo”, garantiu Paulo Câmara, governador do Ceará.

A este choque de opiniões juntaram-se o Ministro da Saúde e o vice-presidente do Brasil. O Ministro veio a público dizer que considerava a quarentena “precipitada”. Luiz Henrique Mandetta afirmou que o isolamento social sem limite fixo iria prejudicar a população, salientando a importância de manter a economia ativa para o bem geral. Também afirmou que medidas como a redução da mobilidade e restrições por bairros eram suficientes nesta altura.

Já o vice-presidente brasileiro garantiu que o Governo é a favor do “isolamento e distanciamento social” para evitar a propagação do vírus. Hamilton Mourão defendeu Jair Bolsonaro, dizendo que a maneira como o presidente se expressou não foi a melhor, mas que este está preocupado com as consequências do vírus.

“É a forma como o Presidente Bolsonaro trabalha. Agora, ele tem essa preocupação enorme com o verdadeiro desmantelamento da economia e, em consequência, com as pessoas que vivem nas áreas mais pobres do nosso país, que, da noite para o dia, (…) podem chegar ao supermercado e não ter o que comprar, porque não está a ser produzido nada”, disse Hamilton Mourão.

O país registava, na quarta-feira, 57 mortos e 2.433 infetados pelo novo coronavírus.

Mesmo com estes números, Jair Bolsonaro continuava a apoiar a continuação das rotinas diárias. Na quinta-feira aprovou um decreto que autorizava a realização de atividades religiosas. Vários Estados já tinham decretado a suspensão de eventos que reunissem um grande número de pessoas. Com este decreto, estas atividades ficam fora da quarentena. Mesmo estando autorizadas, no documento está escrito que os eventos devem obedecer às recomendações do Ministério da Saúde.

No mesmo dia, Jair Bolsonaro voltou a desvalorizar as consequências da Covid-19. O presidente do Brasil garantiu, em declarações à imprensa, que a pandemia não afetará o país como aconteceu nos Estados Unidos.

O presidente brasileiro voltou também a salientar a importância de manter a normalidade para não prejudicar a economia. Através da rede social Facebook, garantiu que as consequências a longo prazo do isolamento social no país serão mais negativas do que o novo coronavírus.

“Temos que nos preocupar com a vida, sim, mas com empregos também. O vírus vem e vai. Eu não critico todos os governadores, eu critico alguns poucos governadores que erraram na dose. Todos estamos preocupados com a vida, queremos que não haja mortes (…) Para 90% da população esse vírus não será quase nada. Essa onda [coronavírus] vai passar. O que não pode chegar é a onda de desempregos, essa demora para passar.”

Após estas declarações, a reação do governador de São Paulo foi a que se fez ouvir. João Doria criticou a lógica de Bolsonaro e acusou-o de “desprezar vidas”. O governador também criticou a falta de consenso entre o executivo, o Ministério da Saúde e o Presidente do Brasil.

No sábado, o país registava 111 mortos e 3.904 infetados pelo novo coronavírus. A pandemia do coronavírus torna-se agora não só numa crise social, mas também uma crise política no Brasil.

Artigo revisto por Mariana Coelho

Artigos recentes

Deve o humor ter limites?

Assistimos hoje ao contrassenso conflituoso entre a liberdade de expressão e a hegemonia do politicamente correto. Se, por um lado, somos ativistas do “sê quem

Ler mais »

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *