Literatura

Desenhador de palavras: Florbela Espanca

O amor é ser alma, sangue e vida. Pelo menos, era assim para a poetisa que conhecemos como Florbela Espanca.

Quem fala desta poetisa raramente dá a noção de que ela não é do século passado, mas sim do anterior. Nunca parece que foi assim há tanto tempo. Mas foi a 8 de dezembro de 1894 que nasceu, em Vila Viçosa, batizada como Flor Bela Lobo.

Florbela mostrou interesse pela escrita desde cedo. Sem mãe desde pequena, aos dez anos, num poema de parabéns ao “querido papá da sua alma”, escreveu que a “mamã” cuida dela e do mano “mas se tu morreres/ somos três desgraçados”. E este não foi o seu primeiro.

Os rascunhos de criança mostravam já o seu futuro, que foi um pouco desajustado da época, fugindo sempre aos conceitos do Modernismo, que era a referência.

Aos 22 anos entra no curso de Direito em Lisboa. Dois anos mais tarde, em 1919, edita o seu primeiro livro, Livro de Mágoas, apesar de já ter publicado poemas em jornais e revistas. Em 1923, segue-se Livro de Soror Saudade.

Casa por três vezes. Estas relações podem ser um gatilho para a constante referência à paixão e ao amor e desamor nos seus poemas.

“Eu quero amar, amar perdidamente !

Amar só por amar: Aqui … além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente …

Amar ! Amar! E não amar ninguém !”

Florbela Espanca mantém-se desligada de questões sociais ou políticas, considerando-se conservadora. Mas nos seus poemas é notável um erotismo feminino e a insistência no ‘eu’.

Acaba por se misturar com outras personagens dos seus poemas, referindo-se a si subtilmente. A poetisa não esquece quem é e exalta o que faz com orgulho:

“Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe”

Muitos qualificam-na como “sonetista com laivos parnasianos esteticistas”.

Na prosa, Florbela mostra também um sentido autobiográfico e intimista. Os seus contos encontram-se reunidos em dois volumes, O Dominó Preto e As Máscaras do Destino, publicados postumamente.

No último ano da sua vida, a poetisa elabora um ‘Diário’, onde fala da morte, de conhecimento que tem si, de amor. Poucos dias antes de morrer interroga-se: “que importa o que está para além?” Responde, repetindo o que diz no soneto A um moribundo: seja o que for será melhor que o mundo e que a vida.

Uma promessa na poesia portuguesa que acaba de forma trágica. Florbela Espanca põe fim à vida no dia em que fazia 36 anos.

Desenhador de palavras-Florbela Espanca-Joana de Sales

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