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7 Mil Milhões de Outros, é mais o que nos une ou o que nos separa?

Depois de 10 anos a sobrevoar o planeta, para produzir A Terra Vista do Céu, Yann Arthus-Bertrand lançou o projecto 7 Mil Milhões de Outros, em 2003. A iniciativa consiste em quarenta e cinco perguntas que foram feitas nos oitenta e quatro países visitados durante sete anos de filmagens. Nessas seis mil entrevistas que foram feitas, foram recolhidos depoimentos de pessoas de várias nacionalidades, culturas e idades.escsmg1

Arthus-Bertrand disse que foi quando se confrontou com a inflexibilidade dos sistemas administrativos e das fronteiras construídas pelos homens – símbolos estes de como é tão difícil viver em harmonia – que se sentiu incitado a criar o projecto e, com ele, promover a reflexão. Segundo o mesmo, o único caminho para entendermos o Outro é descobri-lo: em todos os desafios que enfrenta, sejam relativos à pobreza ou às alterações climáticas. É necessário fortalecer a ideia de que não podemos agir de forma isolada, pois, sendo nós mais de sete mil milhões na Terra, o desenvolvimento sustentável é impossível a não ser que trabalhemos em conjunto.

Chegou em Novembro do ano passado a Lisboa e alojou-se no Museu da Electricidade/Fundação EDP, numa iniciativa do projecto Memória, onde vai estar presente até dia 8 de Fevereiro, com entradas a 1€ para estudantes.

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A exposição é repartida por salas temáticas como Sonhos, Medos,  Desafios da Vida, Raivas, Deus, Lágrimas e, como não poderia deixar de ser, o Amor. É realmente interessante ver os contrastes que tanto nos unem como nos separam. Estrategicamente, apareciam sequencialmente opiniões opostas, mas igualmente sinceras. Enquanto para uns Deus era a sua razão de viver, outros tinham em si a esperança de ele não existir, confidenciando de uma forma mais humorística que não andavam a portar-se consoante as “regras” que são estipuladas pela sua religião.  Outro tema bastante debatido e procurado era a oposição homem-mulher; qual destes o ser mais vantajoso e qual o seu inimigo? Nos países sub-desenvolvidos, notou-se o quão geral era a ideia de o homem ser o género eleito, o que possui mais liberdade e regalias, tanto para participantes femininas, como masculinos. Numa posição profundamente marcada por um misto de tristeza e revolta, uma confidente chegou mesmo a admitir que, para si, o homem era o pior inimigo da mulher. Justificando que este nasce com a ideia (e, infelizmente, o poder) de que a pode dominar, na sua cultura.  Outro relato, já dentro dos países desenvolvidos, foi o de uma mulher na casa dos seus 30 anos que vive com um marido que partilha as tarefas domésticas com ela. A sua revolta não era com ele – obviamente –, mas sim com o facto de ouvir comentários a saudar a sorte que tinha por isso acontecer. Numa atitude informal respondeu: “Sorte porquê? Ele também tem a mesma sorte por eu partilhar metade das tarefas domésticas com ele.” Critica, acima de tudo, a mentalidade que, na sua maioria, ainda não se actualizou e continua a frisar numa tecla antecessora à das conquistas do movimento Feminista.

Além de todos estes temas, existe ainda uma sala – especialmente realizada para a exposição em Lisboa – dedicada aos portugueses e aos relatos dos mesmos. É ainda dada a possibilidade a qualquer visitante de gravar o seu testemunho num estúdio de gravação.

Esta exposição surge como um retrato informal e honesto da humanidade e merece que todos nós estejamos dispostos a partilhar as nossas experiências, risadas, ou que deixemos apenas que o silêncio se instale, porque no projecto 7 Mil Milhões de Outros, nem sempre uma confidência precisa de palavras.

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