Dulcineia ou Natália, eis a questão

Entrevista a Natália Constâncio
Por Ana Rita Nunes

Embora seja doutorada, ainda não saiu da escola. O dia-a-dia é passado a contar os grandes feitos dos portugueses e a amizade de um rapaz com uma menina que vive no mar. Tem vários livros publicados, como “A Súplica de D. Pedro” ou o conto infantil “Inês, a Fada-Boneca – O roubo das Letras e das Cores do Arco-Íris”.

Como acredita na magia, tem a capacidade de viver duas vidas: a de uma professora que também faz trabalho de investigação e a de uma escritora com o nome da amada de D. Quixote.

Quem é a Dulcineia?
A Dulcineia surge com a leitura do D. Quixote. Desde miúda que tenho uma paixão pelo D. Quixote e pela Dulcineia. Então, quando saiu a minha primeira obra, achei que tinha de ser Dulcineia, não podia ser Natália. Nas publicações académicas sou a Natália, na parte literária não fui capaz.

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É escritora e professora. Considera a escrita uma profissão ou um hobby?
Acho que a escrita é a minha paixão. É aquilo que mais gosto de fazer. Portanto, eu tenho uma profissão, mas de facto eu gosto mesmo é de escrever.

Em 2014, publicou o livro “A Súplica de D. Pedro” sobre a história de amor de D. Pedro e D. Inês de Castro, construída a partir do ponto de vista de uma das filhas do casal – D. Beatriz. Esta é uma história que já foi contada e recontada inúmeras vezes. O que tem este livro de diferente?
Eu procurei pôr-me na cabeça e no coração das personagens. Acho que é difícil pôr um narrador a falar se não entrarmos na alma da personagem. O que tem de novo é mesmo a perspetiva familiar e feminina. O que nós vemos aqui é a perspetiva da filha [D. Beatriz] e a afetividade que ela sente em relação ao pai, aquele senhor que ela observou desde criança. Acho que reside aí a inovação.

É um livro muito emocional?
Acho que sim. Aliás, o motivo para iniciar a narração é a gravidez de D. Beatriz. Ela está gravida e recorda o passado, recorda a morte da mãe. Acho que tem uma perspetiva muito emotiva, porque a ação principal gira à volta desses elementos, dessa afetividade: a afetividade da avó, que é considerada durante algum tempo uma pessoa fria, mesmo a nível da história, mas que é uma pessoa que tenta manter a paz no reino e em casa. Outra coisa que eu também procurei fazer neste livro foi ir buscar o papel das mulheres. De facto, são os homens que reinam, mas repare que é a avó que faz que o filho faça as pazes com o pai, que tenta de alguma forma gerir a parte afetiva daquela família e depois acaba por criar os netos, quando D. Inês morre. (…) Achei engraçado pegar nos versos camonianos que falam da parte da relação amorosa e tentar descortinar o que estaria por detrás, na vida pessoal. Foi a história da vida privada que tentei passar neste livro.

Livro este que é um misto de história e ficção?
Sim. Há momentos de história que estão mesclados com invenção pura.

Tem mais livros publicados. Como é o processo de publicação?

Publicar é muito difícil. Eu já tinha este (aponta para “Inês, a Fada-Boneca – O roubo das Letras e das Cores do Arco-Íris”) escrito antes do “A Súplica de D. Pedro”. Mas tive muita dificuldade em publicar o conto. As pessoas achavam que o livro era bonito, mas que era muito difícil. Eu acho que atualmente a literatura infantil não obriga tanto as crianças a pensar.

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“Inês, a Fada-Boneca – O roubo das Letras e das Cores do Arco-Íris” tem uma escrita demasiado erudita para o público-alvo?
Sou suspeita. Tem algumas palavras difíceis, mas acho que não. Várias pessoas me têm dito que este livro precisa de acompanhamento. (…) Li a algumas crianças e estas gostaram de o ouvir. Algumas palavras não entenderam, mas procurámos no dicionário. Eu acho que também é esse o trabalho do professor. As crianças têm de tomar conhecimento de palavras novas e ir à procura, mas é um livro destinado às crianças com 10, 11 anos.

O que a fascina nos contos de fadas?
Gosto imenso dos contos de fadas, porque, para além de terem sempre uma moral, acho interessante a perspetiva da magia. Uma vez falei de magia e do Pai Natal aos meus alunos do 5º ano e eles começaram logo todos a dizer que isso não existe. É difícil passar a magia quando as crianças não acreditam nela. Acho que muito cedo lhes retiram a magia e é importante as crianças terem contacto com a magia.

Este é um tema que tem estudado, no âmbito da sua investigação no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa. O que faz neste instituto?
Já publiquei alguns livros sobre a literatura tradicional portuguesa e a relação que esta estabelece com a contemporaneidade, o que há na contemporaneidade de tradicional. Tenho alguns livros como por exemplo o “B.I. da Bela Adormecida”, onde procuro entender como é que a história da Bela Adormecida, que vem do século XIV, está na literatura a nível mundial, como é que aparece, que alterações é que houve nas versões. Também tenho o “B.I. de nossa senhora”, no qual estudo a temática de nossa senhora na literatura desde o século I. Para além disto, tenho mais trabalhos e publicações sobre o escritor Mário de Carvalho.

As suas teses de mestrado e de doutoramento foram sobre Mário de Carvalho. Porquê este escritor como matéria de estudo?
Comecei a estudar Mário de Carvalho por sugestão. Estava numa aula de Literatura Tradicional e a professora doutora Ana Paula Guimarães perguntou-me se eu não queria estudar “O Conde Jano”, de Mário de Carvalho. Foi tudo muito espontâneo. Eu disse-lhe que sim, mas nem pensei. A partir daí apaixonei-me pela obra e nunca mais parei.

Qual é o seu livro preferido de Mário de Carvalho?
São dois. “Um Deus passeando pela brisa da tarde” e “O Conde Jano”. “O Conde Jano” é uma obra-prima. É um livro pequeno, é um conto, mas deixou-me sem respiração. “Um Deus passeando pela brisa da tarde” é a história de um magistrado romano que se apaixona por uma prosélita cristã.

Sente que há alguma influência da obra de Mário de Carvalho na sua escrita?
Pode haver. Sabe que eu a determinada altura tenho dificuldade em perceber, muito honestamente, o que é meu e o que é que não é. Eu já li tantos livros e recebi tantas influências que às vezes não sei o que é meu. Começa tudo a misturar-se, mas é normal que tenha influências de Mário de Carvalho porque é um escritor que eu estudo há muitos anos. (…) Na escrita, tenho muitas influências, ou julgo que tenho, não sei se estou a ser pretensiosa a achar, da Sophia de Mello Breyner. Sempre considerei a Sophia um marco na minha vida como escritora e como leitora.

Como é o livro que ainda não escreveu?
Não sei. (…) Eu sei que há pessoas que fazem projetos e que dizem “agora vou fazer isto, agora vou dedicar-me àquilo”. Eu não sei. Há um dia em que sinto, não é programado… a inspiração vem e eu tenho de escrever logo senão perco. É uma das coisas que tenho constatado. Quando começo a pensar e a sentir que algo está a nascer, tenho de escrever logo senão perco.

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