7ª Arte

Emma, e ponto final

Mais uma adaptação de Jane Austen, autora de “Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade” e “Emma.” – como o próprio ponto final no título indica – é um romance de época (period piece) que se propõe a mostrar e satirizar a vida na zona rural inglesa, durante o século XIX. Contudo, em pouco esta obra da diretora estreante Autumn de Wilde se assemelha às adaptações anteriores dos livros da escritora inglesa. A personagem principal, interpretada pela talentosa Anya Taylor Joy, – que tem sido muito aclamada pelo seu trabalho em “Gambito de Dama” – Emma Woodhouse, é descrita logo no início do filme como sendo rica, inteligente e bonita. A sua vida nunca teve grandes distúrbios e tinha muita influência no pequeno vilarejo que vivia com o seu pai. Emma, de maneira superficial, é a imagem da perfeição. Num primeiro momento, nada de mau se pode esperar dela. Todavia, o oposto acontece e é neste aspeto que o filme se distancia tanto das suas adaptações irmãs.

De maneira muito inteligente, Autumn de Wilde e a roteirista Eleanor Catton decidiram trazer à superfície todos os defeitos e problemas da menina Woodhouse, um por um, demonstrando a sua humanidade. Jane Austen é conhecida por criar personagens femininas complexas, principalmente para a época em que foram escritas, e a própria autora afirmou que não acreditava que outros fossem gostar de Emma, além dela mesma, por ter um caráter tão diferente. E a obra de Wilde consegue não apenas apresentar Emma de maneira integral, como também aproximá-la do público através do desgosto que vamos adquirindo pela sua pessoa, porque isto torna-a real e palpável. Através do seu poder e influência, Emma revela-se uma jovem mesquinha, indelicada e manipuladora, procurando sempre beneficiar-se até mesmo quando ajuda os outros, na tentativa de se sentir bem e realizada. Para tal, o principal exemplo é a forma como procura casar as jovens mais próximas de si com parceiros respeitados pela sociedade, mesmo que esta não seja a vontade inicial delas.

Emma Woodhouse (Anya Taylor Joy) e asua melhor amiga, Harriet Smith (Mia Goth). Fonte; Vox

É ao tentar casar a sua melhor amiga, Harriet Smith (Mia Goth), que, pela primeira vez, as coisas começam a fugir do controlo de Emma. Quando a jovem vê cada um dos seus planos fracassar, até mesmo relativamente a ela mesma, e como as suas atitudes magoam os outros, ela percebe que tem de mudar. A trajetória evolucional de Emma é marcada com muitas emoções e reviravoltas inesperadas, cada uma beneficiando o entretenimento do público de forma espetacular. A atuação magnífica de Taylor Joy é responsável não apenas pelo desenvolvimento da personagem, como também pela empatia do público, que consegue entender os seus dilemas. Emma revela-se, ao longo do filme, uma jovem muito mais insegura do que se esperaria. Apesar de toda a perfeição que se espera dela, há também uma pressão e expetativas corrosivas, o que atrai por parte dos espetadores uma certa simpatia pela jovem que está a aprender e a amadurecer. Os problemas levaram-na a este lugar de aprendizagem e de aceitação do diferente, sendo demonstrado por ela ao levar a sua grande amiga, Harriet, a ficar noiva de Martin, um fazendeiro que antes ela não aceitava, ou ao aceitar receber o pai da menina na sua casa, mesmo que pertencesse a uma classe mais baixa. Das desilusões ocorre a desconstrução da personagem e uma espécie de redenção. Emma não deixa de ser ela mesma até ao fim da história, mas é instigante acompanhar a sua evolução no meio do caos, mesmo sabendo que ela viria a resolver tudo, porque, afinal, ela é Emma Woodhouse.

Anya Taylor Joy domina cada uma das emoções imprescindíveis para entendermos a personagem principal e o seu trabalho funciona quase como uma orquestra em que ela é a maestrina que conhece cada um dos instrumentos e guia os outros atores e respetivas personagens a desenvolverem os seus melhores lados. E, falando de outras personagens, é importante notar como cada um dos papéis secundários colabora para o enredo de forma especial. O roteiro foi tão bem desenvolvido que há espaço para vermos características específicas de todos os que rodeiam a vida de Emma e, tratando-se de um vilarejo tão pequeno, faz sentido presenciarmos tantas pessoas diferentes a colaborarem com a vida uma das outras. Esta decisão da roteirista, que podia ser desastrosa se fosse mal executada, evidencia outra dimensão da história, porque, com tantas personagens envolvidas – e com tantos nomes para decorar (eu e o meu pai tivemos de parar o filme quatro vezes para nos situarmos e entendermos de quem falavam) – o sentimento é semelhante ao de assistir uma novela de muita qualidade com apenas duas horas de duração. Com poucas falas – ou até na ausência delas, como é o caso de Mr. Martin, que se revela uma figura importante, mas não fala durante o filme, – é destacado, novamente, o talento na parte do processo de escrita do guião.

Autumn De Wilde dirige a cena com Johnny Flynn (George Knightley), Josh O´Connor (Mr. Elton), Tanya Reynolds (Mrs. Elton) e Amber Anderson (Jane Fairfax). Fonte. Slate

De entre os vários coadjuvantes, destacam-se dois: George Knightley, grande amigo de Emma há vários anos e herdeiro de uma grande fortuna, e Harriet Smith, uma jovem de origens duvidosas, mas de quem Emma se decide aproximar para a ajudar. George Knightley, interpretado por Johnny Flynn, atrai, desde o princípio, uma enorme simpatia, uma vez que é o único que consegue confrontar Emma e expor as suas falhas sem medo. Mr. Knightley não espera apenas ver a amiga melhorar e ter um bom futuro, como também acaba por desenvolver sentimentos inesperados por ela. O caminho romântico traçado pelas duas personagens é belo e subtil. A mudança de amigos para amantes não é exagerada ou falsa, o que direciona mais pontos positivos à direção, processo de escrita do guião e ao trabalho de ambos os atores. A química desenvolvida entre eles é visível e a diretora aproveitou exatamente isso. Já Mia Goth faz um ótimo trabalho ao apoiar a transição de Harriet. Da inocência e extrema dependência de Emma para a tomada de decisões, a menina transforma-se numa mulher decidida e passa a colocar limites para a atividade de Woodhouse na sua vida, porém, ao mesmo tempo, Smith nunca perde o seu brilho e diversão, tão distintos da personagem.

Emma Woodhouse e Mr. Knightley dançam no baile da cidade. Fonte: The New York Times

Autumn de Wilde, antes de começar a trabalhar em direção audiovisual, já exercia fotografia. Isso fica muito claro no filme, porque o cuidado com a fotografia, o enquadramento, os planos, a iluminação e os cenários é evidente. A fotografia poderia comunicar sozinha os sentimentos das cenas, contribuindo muito para a beleza estética do longa-metragem. Semelhantemente, é de notar que existe uma grande influência do diretor Wes Andersson, conhecido, em obras como “O Grande Hotel Budapeste”, pelo seu trabalho com planos um pouco inesperados, cores vibrantes nos figurinos – que são espetaculares a propósito – nos cenários e nos objetos de cena, e um grande apreço pelo espaço em que se está a filmar, contando com várias cenas em grande plano ou plano geral. Estas características marcam ainda mais a época em que se passa a história e o ambiente bucólico e tranquilo que demonstra a vida na zona rural que a elite levava. A banda sonora, igualmente incomum, foi produzida da mesma forma, com muita seriedade.

O ritmo cómico da obra, tão diferente das outras adaptações de Austen, também brilha. A exposição e denúncia das tradições da época e todas as situações absurdas que se viviam tornam o filme numa experiência relaxante e divertida, não apenas dramática, como poderia acontecer, tendo em vista a trama Shakespeariana, com vários lados que se desenrolam em amores e desamores. A sátira veio mostrar que aqueles pequenos dramas (que para eles eram enormes) relatados no filme eram o máximo que a alta sociedade vivia. O filme é marcado pelas estações do ano, apresentando como “tudo” ocorre no intervalo de um ano. Assim, fica claro que num ano de ocorrências na vida destas personagens, nada de diferente ou extraordinário acontecia. As coisas demoravam a acontecer e as expetativas e planos duravam meses, algo que a nossa sociedade atual muitas vezes não entende e que é importante deixar evidente.

Emma (Anya Taylor Joy) e Harriet (Mia Goth) conversam com Mr. Weston (Ruppert Graves). Fonte: Coisa de Cinéfilo

Assim, podemos ver como “Emma.” é um filme muito mais atual – não moderno – do que se esperaria ao princípio. A acidez incomum e aparente na personagem principal é acentuada pela atuação de Anya, que acaba por corroborar essa sensação ao clássico. Um processo muito semelhante ao que aconteceu em 2019 com “Mulherzinhas”. A realidade descrita em toda a obra é muito mais atraente do que simples aspetos modernos que não poderiam existir, tratando-se de um filme muito bem definido pela época em que se baseia. Na verdade, é impressionante como De Wilde não se deixou limitar pelo período histórico vigente na história. A sua Emma é perfeita para o mundo atual porque tem falhas, e é bom assistir à história de alguém teimoso, arrogante e errado que se redime e merece o seu final feliz.

Ainda que a maior parte das adaptações de Jane Austen me agradem, elas fazem-no por entrarem na fácil categoria de romances “açucarados”. Todos os livros, desde “Razão e Sensibilidade” a “Orgulho e Preconceito” possuíam muito mais conteúdo de aprofundamento do que aquilo que foi exposto nos ecrãs. “Emma” – tanto a personagem como o próprio filme –, por outro lado, consegue trazer romance, drama, comédia e crítica social com muita coesão. Saí do filme a sentir que não me faltava nada.

Emma (Anya Taylor Joy) retira as suas sapatilhas depois de uma noite de baile. Fonte: The Attic of Eight

Artigo redigido por Amanda Silva

Artigo revisto por Ana Janeiro

Fonte da imagem de destaque: HBO Max

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