Opinião

Energia Nuclear: o belo do senão

De acordo com a World Nuclear Association, atualmente, vários países dependem da energia nuclear: na França, por exemplo, cerca de ¾ de energia eléctrica provêm de energia nuclear; países como a Bélgica, a República Checa, a Finlândia, a Hungria, Eslováquia, Suécia, Suíça, Eslovénia e a Ucrânia utilizam cerca de ⅓ ou mais para o mesmo fim. Mas não só, a Coreia do Sul, a Bulgária, os EUA, a Grã-Bretanha, a Espanha, a Roménia, a Rússia, entre muitos outros, continuam a fazer uso da energia nuclear.
Por forma a compreender as razões pelas quais estes países recorrem à energia nuclear é necessário primeiro esclarecer sucintamente o conceito e o processo de obtenção de energia utilizado.

O que é a energia nuclear e como é que esta é produzida?
No núcleo de cada átomo encontram-se as partículas subatómicas, que se mantêm unidas graças à existência de uma força forte. Quando os núcleos atómicos maiores são quebrados em vários núcleos menores (cisão ou fissão nuclear) ocorre uma libertação de energia sob a forma de calor e de energia electromagnética. É nesta reação em cadeia que a energia nuclear assenta.
O processo inverso, a fusão nuclear, poderia ser uma hipótese viável mas seria necessário atingir temperaturas semelhantes à do sol, o que ainda não é possível, apesar de esforços estarem a ser feitos nesse sentido.

Quais são as vantagens?
Para colmatar a questão dos combustíveis fósseis, pela sua disponibilidade limitada e consequentes elevados custos, muitos países começaram a considerar recursos como o urânio, o mais utilizado, uma alternativa. Embora não seja uma energia renovável, o urânio encontra-se largamente disponível na natureza.
Outro aspeto muito apelativo da energia nuclear é o facto de um pequeno pedaço de urânio ser capaz de gerar energia suficiente para uma cidade inteira, e de a produção de electricidade ser contínua, cobrindo 90% das horas do ano.
Outra característica muito utilizada como argumento a favor é a “independência” relativamente a fatores climáticos, contrariamente às energias renováveis.
Finalmente, existe a crença de que não polui. Amplamente difundida, é uma perspetiva limitada e tacanha.
Assim, a energia nuclear aparece-nos como uma boa solução económica e ambiental, que, se bem controlada, traz mais benefícios do que problemas. Mas será realmente assim?

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( Fonte: http://www.cartoonistgroup.com/subject/The-Nuclear+Power-Comics-and-Cartoons-by-Clay+Bennett’s+Editorial+Cartoons.php )

Quais são as desvantagens?
Tal como referido anteriormente, é uma energia não renovável; assim, nunca poderá ser uma solução a longo prazo para as populações vindouras.
E mesmo que fosse, do ponto de vista económico traria outros problemas: durante a reação nuclear são libertadas grandes quantidades de calor e as partículas que restam do processo são altamente instáveis; desta forma, é necessário resfriar as barras de urânio, renovar os reatores nucleares (onde o processo ocorre) e arranjar uma maneira de armazenar os resíduos, cuja radioatividade pode durar milhares de anos, o que acaba por ter um elevado custo ao longo do tempo, por ser um processo acumulativo.

Todavia, o maior custo é ambiental:
– Provoca poluição térmica, uma vez que a água utilizada no processo de resfriamento, sobreaquecida, é muitas vezes lançada aos rios, perturbando os ecossistemas.
– Provoca poluição radioativa, devido ao lixo atómico que advém de todo o processo, o qual não pode pura e simplesmente ser descartado na natureza.

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( Fonte: http://www.deepgreenphilly.com/?p=447 )

É nesta última grande questão que eu gostaria de me focar. A inexistência de soluções para o que fazer e como lidar com os resíduos nucleares é um problema muito sério que não recebe de todo a atenção devida.
Inicialmente, o mar e o oceano eram (e, por vezes, ainda são) vistos como autênticas lixeiras e todos os desperdícios do processo nuclear eram despejados de navios para a vastidão azul em barris, que mais tarde foram encontrados enferrujados, despedaçados e vazios. Só em 1993 é que a ONU proibiu a submersão de resíduos radioativos. Mas o dano já tinha sido causado, a radioatividade já se tinha espalhado pelo ambiente e integrado os ecossistemas.
Procurou-se então arranjar métodos de contenção eficientes. Porém, tal não é possível. Não obstante os casos em que se procura cumprir rígidos padrões de segurança (que não são assim tantos), não há maneira de garantir a 100% a eficácia de contenção. Alguns tentam isolar os resíduos em “cemitérios”, recorrendo a solos especiais (por exemplo, argilosos, para tentar conter a contaminação para os cursos de água subterrâneos), outros criam armazéns de concreto dentro das instalações nucleares. Uma coisa é certa, nenhum constitui uma solução sólida.

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( Fonte: http://www.cartoonistgroup.com/subject/The-Nuclear+Power-Comics-and-Cartoons-by-Clay+Bennett’s+Editorial+Cartoons.php )

Para agravar a situação, surgem outros problemas. O terrorismo e a guerra, temas com grande destaque, podem contribuir para uma maior instabilidade; caso se decida utilizar a energia nuclear para fins bélicos, os resultados podem ser catastróficos, tal como já foi provado por eventos históricos anteriores.
Também podem acontecer “simples” acidentes. A componente humana é preponderante e um dos traços que marca essa humanidade é a falibilidade, a capacidade de errar, que neste caso se torna incapacitante. Também o fator da natureza pode ser levado em conta; terramotos, por exemplo, podem, novamente, ter consequências muito para além do que é dominável, sendo, muitas vezes, irreversíveis. Alguns recursos utilizados são até explosivos. Pergunto então se valerá a pena?
Acho que não. Não é sustentável. O perigo é demasiado e o risco, pequeno ou grande, continua a ser um risco para o qual não estamos preparados.
Desespero.
Não temos já informação e/ou provas de que esta não é uma resposta eficaz para o nosso problema? Não chega a destruição de milhares de vidas humanas e não humanas, quer seja pela morte, quer seja pela vida condenada? Deformações, doenças… tudo uma questão de tempo. Pergunto-me sobre se as pessoas têm consciência de que talvez a procura pela cura do cancro também passa por pôr fim ao lixo radioativo… Esta radioatividade invisível tem atingido proporções muito maiores do que aquelas que imaginamos e só se vai tornar evidente quando for tarde demais.
Um pouco fatalista. É difícil não desanimar face a um cenário que não parece melhorar. Mas procuro acreditar. Talvez a memória não tenha sido completamente extinguida, talvez consigamos reverter a vertente psicológica que aterroriza e aterrorizou tantos sobreviventes para uma vertente prática que permita afugentar a inatividade e a passividade que nos sentencia a um desastre.

Costuma dizer-se que «não há bela sem senão». Ora, eu arrisco-me a dizer que a energia nuclear atualmente é tudo menos bela e não tem nada a não ser senãos.

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( Fonte: https://www.lambiek.net/artists/r/rifas_leonard.htm )

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