Literatura

Enid Blyton: uma escritora paradoxal

A literatura infantil é tão importante quanto a literatura jovem ou a literatura considerada para adultos. Todos nós temos, pelo menos, um livro que marcou a nossa infância. Histórias, personagens, lugares míticos marcados pela aventura… Existe sempre algo que causa uma certa nostalgia, fazendo-nos regressar à infância. 

Entre os variados autores, destaca-se Enid Blyton. Será que todos se recordam dela? Mesmo que este nome não seja suficiente para reavivar a memória, muitas pessoas conhecem algumas das personagens criadas pela autora. Enid Blyton nasceu em Londres, a 11 de agosto de 1897, e faleceu na mesma cidade, a 28 de novembro de 1968. Foi uma escritora britânica que se tornou conhecida à escala internacional através da criação de universos como o das famosas Gémeas do Colégio de Santa Clara,o d’Os Cinco e o de Noddy na Cidade dos Brinquedos. Estes são apenas três exemplos capazes de reavivar algumas memórias. Neste artigo serão relembradas algumas coleções de Blyton, assim como algumas polémicas geradas em torno da autora, contrastando a figura de escritora infantil com um caráter considerado discriminatório.

Obras principais

A primeira obra da autoria de Blyton é Child Whispers, uma coletânea de poemas infantis acompanhados de ilustrações, publicada em 1922. Seguiram-se outras coletâneas de poemas e, em 1942, surgiu o primeiro livro do universo de Os Cinco, intitulado Os cinco na ilha do tesouro. Desta forma, nasceram as personagens Júlio, Ana, David, Zé e, por último, Tim (o cão). A coleção é composta por 21 livros, sendo o último Os Cinco e a torre do sábio, publicado em 1963. São contadas as aventuras dos cinco amigos, envolvendo os pequenos leitores em diversos tipos de mistérios e cenários, como o circo, pântanos e montanhas. 

Paralelamente à coleção Os Cinco, Blyton lançou seis livros, construindo a coleção As Gémeas. Embora a coleção original tenha terminado em 1945, algumas décadas mais tarde Pamela Cox e Sara Rodi continuaram a sequela, tendo escrito três livros cada uma, o que também aconteceu com O Colégio das Quatro Torres.

Após a criação dos universos de Os Cinco e As Gémeas, surgiu a coleção Os Sete, iniciada com O Clube dos Sete, em 1949. Esta é um pouco mais curta do que a primeira, terminando no 15.º livro, Os Sete Salvam o Cavalo, também em 1963. A premissa é semelhante à de Os Cinco.

Por último, e sendo talvez a personagem mais conhecida, em 1949 nasceu Noddy, o famoso taxista da Cidade dos Brinquedos. Embora muitos conheçam apenas as animações televisivas, a personagem original é mais antiga.

Racismo, xenofobia e homofobia

Enid Blyton gera ainda muita polémica devido ao facto de muitas pessoas a considerarem xenófoba, racista e homofóbica. Um dos exemplos mais conhecidos de racismo presente nas obras da autora diz respeito à história A Boneca Negra, de 1966, onde uma boneca negra é, inicialmente, rejeitada e só consegue ser aceite pelos outros quando a sua cara é “lavada”, transformando-se numa boneca de cara cor-de-rosa. Noutras histórias são retratadas situações semelhantes, onde a etnia negra é representada de forma depreciativa, como acontece numa das histórias do Noddy em que a personagem é atacada originalmente por três “caras negras”. 

Alice Vieira, também escritora de obras infantis, lançou, em 2013, uma biografia da autora, intitulada O Mundo de Enid Blyton, incluindo o testemunho de Imogen Smallwood, a filha mais nova de Blyton. “Não me parece que se tenha de misturar isso com a pessoa que ela é. Eu não dou uma medalha, um prémio à personalidade, mas ao que a pessoa faz”, afirma Alice Vieira. A escritora portuguesa também defende que Blyton “foi a introdutora de uma literatura que pode não ser grande literatura mas levava os miúdos à leitura. As pessoas liam os Cinco, os Sete e, depois, tinham vontade de ler mais”.

Por esta razão, é possível ter uma dupla visão de Blyton. É possível relembrá-la pela polémica ou pelo seu legado na literatura infantil. A verdade é que as suas obras passaram de geração em geração através da inocência dos mais jovens. Muitos talvez recordem apenas o seu trabalho como escritora de ficção, demonstrando que existe a separação entre o trabalho e a personalidade da mesma. A nostalgia sobrepõe-se. Como refere Alice Vieira: “A personalidade dela não mancha o legado que ela deixou. O que ela nos deixou não foi o ser homofóbica, o mau feitio… o que nos deixou foram os livros”.

Fonte da capa: lapismagico.com

Artigo revisto por Ana Damázio

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