Opinião

«Entre café ou morte, a resposta é o absurdo»

Quando colocada a questão “Deveria matar-me ou beber um café?”, muitos poderiam atribuir a sua origem a alguém das gerações mais novas. No entanto, a frase foi escrita algures entre 1913 e 1960 pelo filósofo francês Albert Camus. Terá ele previsto a maneira  de a  Geração Z ver o mundo?

A inevitabilidade da morte e o absurdismo da vida são tópicos extremamente relevantes para a filosofia de Camus. Integrado na corrente filosófica do Absurdismo, este acreditava que a existência do ser humano é absurda porque não conseguimos encontrar sentido externo que a justifique. No que toca à definição de Absurdo, era um tanto parecida à de Jean Paul Sartre, sendo que ambos o definiam como “aquilo que não tem sentido”. O conceito de Absurdo nasce porque o ser humano apercebe-se de que está inserido num universo dotado de pouca inteligência e, por isso, os seus valores não têm fundamentação externa. Resumindo, para Albert Camus, a vida não tem significado externo, o que torna a busca pelo mesmo um absurdo.

Albert Camus fotografado por Henri Cartier-Bresson
Fonte: Magnum

Ao colocar a questão “Deveria matar-me ou beber um café?”, Camus completa ao dizer: “No entanto, é preciso mais coragem para viver do que para morrer” — o suicídio era visto por ele como a solução natural para o absurdo. Quando consideramos o contexto de Guerra Mundial e de separação do Estado e das Igrejas em que o filósofo viveu, podemos compreender o que o leva a adotar uma filosofia absurdista. Mas e em relação à Geração Z? 

Se for generalizar, o facto de a geração como um todo se encontrar no existencialismo, absurdismo ou niilismo é questionável, mas creio que podemos considerar um pouco de todos. O existencialismo diz-nos que a essência da vida vem do ser humano; o absurdismo diz-nos que essa essência é absurda; e o niilismo conclui que não há propósito na vida e, por isso, estamos num grande “nada”. 

Acredito que o motivo da facilidade desta geração cair no absurdismo, apesar de não presenciar uma Guerra Mundial, passa pelo facto de haver um constante bombardeamento de informação e estímulos vindos de todos os lados. Atualmente, uma pessoa pode receber em uma hora a quantidade de informação que uma pessoa receberia ao longo de toda a sua vida há umas décadas atrás, o que não é necessariamente positivo. Nem sempre a informação é feliz. A nossa geração está em constante contacto com tragédias que acontecem nos quatro cantos do mundo, e, como indivíduos, podem tornar-se angustiados por se verem impossibilitados de arranjar solução para essas tragédias. Quando colocamos isso em conjunto com uma sociedade em crise moral e económica, surge a tendência para a análise da vida e do seu propósito, o que pode culminar numa espécie de crise existencial.

Além disso, se antes da pandemia a Geração Z já estava mais exposta à facilidade de desenvolver transtornos psicológicos, depois de dois anos a consumir ainda mais conteúdo em isolamento era de esperar que surgissem questões sobre a existência em grande parte da geração.

Mesmo que não tenham conhecimento da corrente filosófica, o absurdismo surge como uma solução às crises existenciais da geração porque vem dizer que nada faz sentido. Vivemos num mundo absurdo no qual nos pode ser apresentada a escolha de tomar café ou de acabar com a própria vida, e ambas situações são igualmente fazíveis. Isto é um fenómeno que podemos observar através do sentido de humor muitas vezes auto-depreciativo da geração: ao compreender que a vida é absurda, torna-se mais fácil lidar com situações que nos afetam psicologicamente como indivíduos e como sociedade, tornando o  humor um mecanismo de defesa predileto.

Mas há que evitar cair em niilismos e viver na apatia de que nenhuma ação importa, de que a vida não tem significado e de que não há nada para além do vazio. Por mais que Camus tenha defendido a ideia de a vida ser absurda, este, no fim da sua vida, caiu num absurdismo existencialista e sinto que essa linha de pensamento pode trazer filosofias saudáveis à nova geração. 

Passo a explicar: o  absurdismo pode ser, de facto, uma solução para crises existenciais se o ser humano for capaz de achar conforto na ideia do absurdo e aceitar que, apesar de a existência ser absurda, cada indivíduo pode dar um significado único à sua vida. Ao mesmo tempo que torna muito mais fácil processar toda a informação que nos chega hoje quando é aceite que tudo é absurdo, acreditar que é possível criar um significado para a vida afasta-nos do pessimismo do niilismo e do que Camus chama solução natural para o absurdo. 

No fundo, o copo de café para Albert Camus representa todas as pequenas coisas da vida que conscientemente fazemos para nos afastar dos pensamentos negativos do absurdo, até sermos capazes de lá achar conforto e de criar o nosso próprio significado para a vida, já que este não pode vir de fatores externos à mesma.


Sendo assim, esta filosofia “adotada” pela Geração Z não precisa de ser algo necessariamente negativo, até porque, como já dizia Camus: “A compreensão de que a vida é absurda pode não ser um fim, mas sim um princípio.”

Fonte da capa: Suzy Hazelwood

Artigo revisto por Inês Gonçalves

AUTORIA

Com interesses em várias áreas, a experimentação faz parte do currículo da Joana. Atualmente estudante de Publicidade e Marketing na Escola Superior de Comunicação Social, quer desenvolver o amor que tem pela escrita utilizando a Magazine como ponto de partida. Desde a música, passando pela política, filosofia e até ficção, são várias as áreas onde pretende deixar as suas palavras escritas.