Extremamente superficial, escandalosamente romantizado e desnecessário

Depois do documentário da Netflix “Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes”, vem o filme. Os quatro episódios fizeram tal furor que a história do assassino não ficou por aí. “Extremamente perverso, escandalosamente cruel e vil” estreou nos cinemas portugueses no dia 16 de maio.

Para contextualizar: Ted Bundy foi o serial killer mais mediático de sempre. A sua “fama” nasceu nos EUA, local onde cometeu os seus crimes. Hoje, sabemos que Ted matou pelo menos 36 mulheres. Um número bastante elevado para existirem dúvidas, certo? Pois, não foi bem assim. O carisma e o sex appeal do criminoso fizeram com que todos questionassem se este seria, realmente, o autor dos atos. Foi, sem dúvida, o fim do cliché de que estes indivíduos são também monstros por fora. Ted mostrou que qualquer pessoa pode parecer normal e saber esconder as suas verdadeiras loucuras.

No seu tempo, Bundy encantou todas as miúdas, que inclusive presenciavam os seus julgamentos apenas por o acharem irresistível e incapaz de cometer qualquer crime. O jeito de Bundy para a representação garantiu-lhe muitos anos no limbo. Os media perseguiam-no e alimentavam o público diariamente com as suas histórias viciantes. Todos queriam saber qual era a nova frase icónica e charmosa do americano. Bundy aparentava ser apenas mais um homem. Estudava Direito, tinha relacionamentos e vestia-se a rigor. Era inimaginável a crueldade de que era capaz.

Enquanto o documentário da Netflix explica os acontecimentos por ordem cronológica, mostrando provas, fotografias das vítimas, as cassetes gravadas pelo assassino e vídeos do mesmo, o filme foca-se nos relacionamentos de Bundy. A maior crítica feita ao documentário foi a de que romantizava imenso este homem asqueroso. Se o documentário já o fazia, nem imaginam o filme.

Para já, o ator que faz de Ted Bundy é nada mais, nada menos, que Zac Efron, um dos galãs de Hollywood. Como é que não se romantiza algo quando se trata do Troy Bolton, de High School Musical? Este contracena com Lily Collins, uma atriz também bastante conhecida pelo público jovem. O par representa a relação de Ted com Elizabeth Kloepfer (Liz Kendall no filme). Eis o trailer:

Fonte: Magazine HD

Ted foi uma figura paternal para Tina (Molly no filme), a filha de Liz, na altura mãe solteira e divorciada. Só depois de estarem juntos durante alguns anos é que Liz começou a suspeitar dele. Já era sabido que andava um assassino à solta, mas ela só desconfiou de que o mesmo dormia na sua cama quando descobriu roupa interior feminina, luvas, gesso e até uma faca. Contudo, mesmo perante todas estas provas, Bundy coagiu-a a não acreditar no seu instinto e, apesar de esta ter chegado a contactar as autoridades, permaneceu ao lado do assassino. Sabia-se que o autor dos crimes se chamava Ted e conduzia um Volkswagen Carocha, tal como o “seu” Ted. Coincidências.

Eventualmente separaram-se e Ted casou com Carole Ann Boone (interpretada por Kaya Scodelario), com quem teve uma filha, Rose. Carole era obcecada por Bundy, tal como muitas outras mulheres da altura, e esteve com ele até ao fim: a cadeira elétrica.

Durante a década de 70, Bundy cometeu dos crimes mais hediondos da história. Chegou a estar preso e a fugir da prisão, mas só em 1989 foi verdadeiramente castigado. Ted violava mulheres, perseguia-as e torturava-as. Decapitações, espancamentos, dentadas e mutilações eram fatores comuns nas suas vítimas. No entanto, o filme não retrata nada disso.

Fonte: Digital Spy

Se quiseres conhecer a história por detrás de todos estes crimes, aconselho-te a veres o documentário. É realmente informativo e muito rico em detalhes. Por sua vez, o filme não acrescenta nada e fica demasiado aquém no retrato do serial killer. Acho até que ver o filme por si só não permite um entendimento sequer parcial do sucedido. Está agora nas bilheteiras algo que explora os relacionamentos amorosos de alguém perturbado, quando o cerne da questão está na tortura e não no “amor” que “dava” às suas parceiras.

O filme explica mal o que se passou, tem poucas menções às torturas que protagonizou e opta por levar aos ecrãs os aspetos mais irrelevantes da sua história. É muito superficial e, a meu ver, desnecessário. Um percurso tão horripilante merece ser retratado como tal e não como o de um coitadinho incompreendido que até foi capaz de amar. Ted Bundy não pode ser personificado. Uma pessoa normal não faz aquilo que este homem fez. Merece ser temido e odiado, em vez de glorificado e alvo de romantização por parte de interesseiros. Esta película é ultrajante pela abordagem, pelo enredo e até pela sua existência. Se estiveres realmente curioso/a, segue para a Netflix. Pelo menos consegues retirar algum conhecimento e entender realmente este assassino dos anos 70.

Artigo revisto por Ana Margarida Patinho

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