Se calhar é melhor declarar interesses primeiro, que isto agora está muito na moda. Julgo que me posso considerar feminista. Não tenho uma certidão Maria Capaz, mas creio que passo no teste. Trabalhei na luta contra a violência doméstica. Embora seja um pouco daltónico, consigo compreender a distinção entre o salmão, o pêssego, o coral e o laranja – ainda que tenha dificuldades entre o pastel, o camel e o bege, roxo e azu l- cozinho, aspiro, lavo, engomo que nem um tigre e faço camas de lavado com a facilidade da criada da família Von Trapp e sem precisar que me peçam, fujo a sete pés de marialvismos oitocentistas e, prendam-me, admiro a condição feminina. Admiro a mulher enquanto género, vá. A complexidade, a força, a independência, a beleza, a inteligência, essas rabetices todas. Como também admiro homens. Mas, mais que isso, invejo-as, aqui e ali. Não tenho qualquer problema em dizer que nós, homens, somos, genericamente, o sexo fraco. Uns autênticos palermas. Somos manifesta e objectivamente ridículos. Uns patetas. Patetas mas ainda assim Homens, em toda aquela aura complexa, máscula e engraçada de um modo palhaço que o sexo forte tanto gosta. Marge e Homer Simpson. Somos óptimos a abrir frascos e a mudar pneus, sim senhor, mas perfeitamente incapazes de estacionar num sítio apertado sem baixar o volume do rádio, de lavar loiça enquanto temos de saltear legumes ou de abrir o caminho enquanto seguramos no ovo. Em bom rigor, ninguém consegue. A lista é grande: há um mar de coisas que poderia aqui escrever para justificar que as mulheres são melhores que nós. Mas também me parece escusado. Isto sou eu que acho só porque as invejo. Porque não são melhores que nós. Por todos os motivos. Porque falam muito e, na perspectiva do homem que desliga o cérebro e deixa escapar o seu fio de saliva demente pelo canto da boca enquanto se enterra no sofá, isso não é uma qualidade – sobretudo quando aquilo que tem para se dizer é maçador e desinteressante. Os homens detestam o feminismo por dois motivos. Primeiro, pela razão estúpida. Porque acham que a afirmação da mulher ameaça a sua condição, a sua juba e o seu território de macho dominante. Segundo, porque as feministas levam muito a sério o esforço de se tornarem irritantes. No mundo deste género de feministas, mulheres como Jackie Kennedy, Grace Kelly ou Margaret Thatcher seriam consideradas um obstáculo à causa – ainda que tenham feito mais pela vida delas, dos maridos e do mundo que um ano inteiro de churrascada de soutiens. O ideal feminista – pelo menos desta espécie não tão rara assim – traz-nos também o seu modelo de mulher. E não passa por corte à escovinha e camisas de flanela ou falta de depilação. Nem se compadece com um papel principal com aparência secundária. A mulher é obrigatoriamente um jogo complexo de compras, maquilhagem, sapatos, a gaja do Sexo e a Cidade, a Sara Sampaio, o rabo da Sara Sampaio, workaholicalismo, poucos filhos ou nenhum, um marido arrendado, pago ao mês para a cópula e limpeza do pó. Que a família não é uma prioridade, naquela barriga mandam elas e os homens são todos um nojo. Sobretudo os delas. A objectividade manda dizer que houve uma má escolha, que aquele homem é uma besta e que ela, coitada, merecia melhor sorte. A subjectividade manda dizer que não é bem assim. A verdade é que, em maioria, acabam sempre lá. Que os homens são homens e que, mesmo sem saber estrelar um ovo, podem ser ótimos maridos e companheiros. Mas isto sou eu, ingénuo, que acho que as mulheres – e os homens, se não se importam – devem ser amadas, respeitadas, admiradas e que o quotidiano conjugal se deve basear nessas premissas. E que acho que a perfeição não existe – o que, no mundo de hoje, equivale a dizer uma verdade revolucionária – “o caralhinho”. A pouca objectividade e subjectividade deste novo feminismo manda dizer que quando se tem um mau homem em casa, todos os homens devem ser queimados ao domingo no espeto depois do jogging com o Artur e com o Lopes. E enquanto lutarem pela igualdade desta maneira não levam homens para uma causa que é justa e que merecia melhores actores. E, sim, é claro que há excepções. Sou homem, mas não sou estúpido.

Artigo corrigido por: Ângela Cardoso

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