His Dark Materials: Mais uma aposta ganha pela HBO

 His Dark Materials – título traduzido para Mundos Paralelos – estreou em novembro do ano passado. A série surgiu, como muitas outras, com a intenção de preencher o buraco causado pelo final de Game of Thrones. Esta missão torna-se mais evidente por se tratar da mesma distribuidora, a HBO. Ainda que pouco ou nada tenham que ver uma com a outra, é sabido que as novas apostas são pressionadas no sentido de obterem o mesmo sucesso e o mesmo apoio dos fãs conquistados por GoT.

 A temporada inaugural contou com oito episódios, precisamente o número que terá a segunda, que já se encontra confirmada. Apesar de permanecer sem data de estreia, espera-se que ainda este ano fiquemos a conhecer melhor a história inspirada nos livros homónimos do britânico Philip Pullman. Trata-se de uma trilogia de fantasia e ficção científica composta por Northern Lights (1995), The Subtle Knife (1997) e The Amber Spyglass (2000).

   A série começa com um aviso: “Esta história tem início noutro mundo. Um que é tanto similar, quanto diferente do seu. Aqui, uma alma humana assume a forma física de um animal, conhecido como Daemon. A relação entre um humano e um daemon é sagrada. Este mundo tem sido controlado há séculos pelo poderoso Magisterium, exceto na selvajaria do Norte, onde as bruxas anunciam uma profecia: a de uma criança com um grande destino. Durante o dilúvio, esta criança foi levada para Oxford.”

Uma imagem com pessoa, terra

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His Dark Materials está repleta de ficção, o que explica os animais falantes, os ursos guerreiros e as bruxas voadoras (Fonte: Observatório do Cinema)

Vou tentar explicar de uma forma menos confusa. His Dark Materials (trailer) decorre num mundo alternativo onde existem criaturas ficcionais como ursos de armadura, bruxas e daemons. Os últimos são os meus favoritos. No fundo, são a manifestação da alma humana na forma de animais fofinhos. Mudam de forma até assumirem uma de modo definitivo e seguem o seu humano para todo o lado. A melhor parte: sabem falar! O desejo de todos nós, donos de animais de estimação.

  Ainda numa onda de fantasia, após estudos de campo intensivos, descobre-se que o (não, não é o pó que se acumula nos nossos móveis; é outro) pode ter uma relevância maior do que aquela que o público conhece. Este pó não afeta as crianças, razão pela qual começam a ser raptadas, isoladas num laboratório e… mutiladas “para o bem da ciência e da Humanidade”. Enquanto uns lutam para encobrir o seu verdadeiro potencial e outros aprofundam o seu conhecimento, percebe-se, ainda, que a aurora boreal pode esconder outros mundos. E existe um instrumento – a bússola dourada – que funciona mais ou menos como uma bola de cristal, no sentido em que revela o futuro e a verdade. Acho que não consigo explicar de uma forma menos confusa. Por isso, se quiseres entender realmente, terás de dar uma oportunidade à série. Prometo que tudo fará mais sentido.

 Lyra Belacqua é a personagem principal. Dafne Keen, 15, é quem lhe dá vida. A atriz espanhola ficou conhecida pelo papel de Laura Howlett, em Logan (2017). Lembro-me de sair do cinema maravilhada pelo seu desempenho, sendo que, na altura das filmagens, Keen tinha apenas 11 anos. Tive o pressentimento de que se tratava do início de uma carreira bem sucedida – sendo que, pelos vistos, estava correta. Agora, Dafne é protagonista de His Dark Materials – e, mais uma vez, não desilude. Com um sotaque britânico perfeito, a madrilena cria empatia com os espectadores desde o primeiro episódio.

Mesmo assim, é Ruth Wilson quem vence o prémio de melhor performance. A inglesa de 38 anos desempenha o papel de Marisa Coulter, personagem enigmática impossível de entender em apenas oito episódios. Wilson atribui um toque especial que nos deixa sem saber o que sentir por Marisa. Ficamos divididos entre encarar que é a má da fita e ter esperanças de que, no fundo, tenha um bom coração. Completamente incompreendida, a personagem de Ruth Wilson permite-lhe mostrar aquilo de que é feita. A forma como muda de expressão, a colocação da sua voz e o seu olhar penetrante tornam-na a escolha perfeita para o papel de um dos pilares da história.

Ruth Wilson desempenha o papel de Marisa Coulter. O seu desempenho é, para mim, notório e uma das melhores caraterísticas da série (Fonte: Reddit)

Para ajudar à festa, também James McAvoy marca presença nesta nova produção da HBO. O ator, que dispensa apresentações, tem, em His Dark Materials, um papel mais secundário. Ainda que relevante, tem muito menos tempo de ecrã do que as suas duas colegas já referidas. Não obstante, cada minuto em que aparece é um minuto ganho. Enquanto Lorde Asriel, McAvoy contribui para a história mais através dos bastidores. É também à volta das suas descobertas que gira o enredo, pelo que, mesmo não aparecendo de forma constante, tem um papel fulcral no desenvolver dos acontecimentos.

  De modo mais resumido, constam ainda do elenco atores como Lin-Manuel Miranda (Lee Scoresby), Amir Wilson (Will Parry), Lewin Lloyd (Roger Parslow), Anne-Marie Duff (Ma Costa), Daniel Frogson (Tony Costa), Lucian Msamati (John Faa), Ariyon Bakare (Lorde Boreal), James Cosmo (Farder Coram) e Will Keen (Father MacPhail).

Como a história depende de criaturas míticas, os efeitos especiais são abundantes. Felizmente, resultam na perfeição – uma meta que nem sempre é atingida. A fotografia da série é espetacular, quer em cenários como a aurora boreal, quer em casos mais simples como a capital inglesa. Fiquei logo muito bem impressionada quando entrou o genérico, que, apesar de longo, está muito bem conseguido.

 O enredo de His Dark Materials é, de facto, complicado. Mesmo que, no final do oitavo episódio, entendamos muito mais do que ao início, a verdade é que deixam várias pontas soltas. Ficamos com perguntas por responder, que, à partida, terão seguimento na próxima temporada. Apesar desta confusão inicial, a série está cheia de mais-valias e de motivos para assistir. As personagens são complexas, os cenários são de cortar a respiração, a história é interessante. Penso que esta aposta da HBO ainda vai dar muito que falar.

Artigo revisto por Lurdes Pereira

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