“Joker” não nos trará o Apocalipse social

Créditos de imagem: Warner Bros. Pictures

Corria o ano de 2012 quando, em Aurora (no Colorado, EUA), um homem auto-apelidado de “Joker”, entrou numa sessão esgotada de O Cavaleiro das Trevas Renasce e disparou a sua arma de fogo sobre a audiência desprevenida. Doze foram declarados mortos, e muitos outros gravemente feridos.

O Joker de O Cavaleiro das Trevas, interpretado brilhantemente por Heath Ledger no que é considerada uma das melhores tour-de-forces do cinema americano da década passada, não era uma personagem simpatética. Alimentado por uma onda de loucura crónica, era um agente do caos cujo único objetivo era testar os limites da condição humana – colocar todos os que conseguir à beira da lâmina, prestes a cair para se afogarem nas garras da sua própria primitividade.

Muito menos se pode apontar culpas ao Joker de Jared Leto, que mais parecia saído da fila traseira de figurantes num videoclip de gangster rap do início dos anos 90, com o único propósito de servir como paralelo assimétrico para a Harley Quinn de Margot Robbie em Esquadrão Suicida.

Mas, se O Cavaleiro das Trevas era um guarda-roupa com uma passagem para um mundo com os pés bem assentes numa realidade possível – ainda que mantendo a suspension of disbelief que torna palpável a magia do cinema – então Joker, o filme de 2019, é uma reflexão de espelho de uma realidade atual que não se encontra nos seus melhores dias.

Créditos de imagem: Warner Bros. Pictures

O próprio realizador do filme, Todd Phillips (da trilogia A Ressaca e Os Traficantes), diz haver um ponto de viragem no filme, em que a simpatia que o público sente para com Arthur, se deve transformar em medo e horror – ponto este que, pode, ou não, ser diferente de pessoa para pessoa. Para mim, esse ponto de viragem deu-se relativamente cedo na duração do filme, mas basta observar brevemente o mundo à nossa volta para chegar à conclusão de que, para muitas pessoas, esse ponto se perdeu algures nas inexistentes fitas do cinema digital.

A discussão sobre se violência fictícia incita a violência real está, há muito, presa no tempo. O próprio Joaquin Phoenix abandonou recentemente uma entrevista quando confrontado com uma questão sobre se o filme poderá ter, ou não, consequências perigosas na nossa sociedade. Já notório por se ter emaranhado numa teia de discussões políticas, o filme contém, surpreendentemente, muito pouco comentário sobre esses temas.

Joker, como o estudo de carácter meticuloso que é (não se enganem, este não é um filme de super-heróis), torna-se muito mais interessante quando visto como uma representação da incel culture e do analfabetismo relativo à complexidade e variedade de doenças mentais na nossa sociedade.

A estrada rumo à solução para este último problema ainda se encontra em obras, e o que não falta no mundo são comentários de pessoas a queixar-se de que o comboio não anda porque um “toino” qualquer decidiu atirar-se para a linha, comentários estes ignorantes ao facto de que uma vida humana deixou de existir, naquele preciso momento. Não se evaporou, apenas deixou de existir, deixando para trás apenas um atraso de meia hora para o trabalho. Mas, mesmo que a luz ao fundo do túnel não exista, o que é mesmo real é o túnel cuja paragem final é essa estação penumbrosa.

Joker é o que se imagina ser esse mesmo túnel, concentrando-se no facto de que, às vezes, os comboios descarrilam antes de chegar ao apeadeiro final. O declínio mental de Arthur é uma escala sinfónica progressiva, fora de tom mas em harmonia com o que acontece à nossa volta. A grande verdade é que Joker não inspirará mais mal no mundo do que Assassinos Natos inspirou casais homicídas, Kill Bill inspirou loiras a comprar catanas ou La La Land levou condutores a transformar a 2ª Circular num musical da Broadway às oito da manhã de uma segunda-feira. O que Joker poderá fazer de bem no mundo, contudo, é estender braços àqueles que se encontram em viagem naquele túnel.

Quanto àqueles para os quais não houve ponto de viragem no filme: ou digerem cinema ao nível da superfície e  insensibilidade, ou são pessoas que se relacionam com os problemas de Arthur e precisam de ajuda antes que seja tarde de mais. O que é, na realidade, um apelo à consciencialização sobre a saúde mental tornou-se em mais uma razão para fazer barulho nos órgãos de comunicação social – mais um filme violento numa altura em que brutalidade medieval e pessoas à luta dentro de fatos de licra já são as escolhas preferenciais de entretenimento da nossa sociedade.

Créditos de imagem: Warner Bros. Pictures

Artigo revisto por Rita Serra

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