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Lá fora faz frio!

O João Garrido escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

Queridos pais,

É natal e está a nevar! Uma imensidão de branco cobre por completo a cidade. O gelo pára as estradas e impregna o odor indescritível do Inverno. Bem, na realidade, não está propriamente a nevar, nem sequer um bocadinho. Aliás não me lembro da última vez que vi água no seu estado mais perfeito, mas qualquer boa estória natalícia contém neve. E azevinhos. E comida, muita comida! Perdoem-me, pois vim bem-intencionado, apenas queria que lessem neve e o vosso cérebro ligasse, imediata e inconscientemente, aquele desconforto tão confortável quando simula um frio pensado mas tão sentido. Sim, aquele arrepio que nos percorre a coluna e nos “força” a aninhar em nós próprios, que nos faz sentir bem por estarmos quentes e abrigados enquanto a nossa mente range de frio ao sabor da imaginação.

Onde é que eu ia? Ah, natal! E ok, não está a nevar… Mas não se trata de um natal qualquer, não aquele que acontece todos os anos, bolorento do hábito. E só deus sabe das saudades que tenho desses queijos deliciosos sempre presentes na ceia de natal… Neste momento devem se estar a perguntar por que razão estou a comunicar desta forma, afinal existem telemóveis, skype e toda uma panóplia de meios de comunicação tornando-se difícil saber que realmente se está longe. Mas sabe-se, e muito…

Escrevo-vos porque sim, porque me dá prazer e atenua a distância, como se, a cada palavra escrita com a caneta, uma pequena parte da dor da saudade é largada e eu estou de novo aí, a rir-me descontroladamente de mais uma piada do avô, ou simplesmente feliz pela possibilidade de entorpecer a mente ao som das vossas vozes, e agradecer o privilégio do qual faço parte, da família, da vida.

Peço por tudo que não levem esta carta como uma preocupação, mas sim como um presente, para vocês e para mim, pois apesar dos quilómetros que nos separam, eu sei que eu vou estar aí na noite natal, as minhas palavras vão ser lidas ao som tenorento (tenor) e ternurento do pai. Que as mais que prováveis lágrimas da minha mãe (nem vale a pena argumentares, já sei que vais chorar que nem uma maria madalena por o teu filho não estar aí contigo, pois eu também) sejam acolhidas com a naturalidade e rotina de quem tem a família separada mas nunca partida, e este pequeno gesto contribua ainda mais para um ambiente unido e prazeroso característico desta maravilhosa quadra.

Não se preocupem, estou bem agasalhado e vou ter mais comida do que aquela que qualquer ser humano é capaz de ingerir! Também não vou estar sozinho, pois tive a sorte ao encontrar uma família aqui, que não me vai deixar sentir só ou mais nostálgico que o recomendável, e sei que, um dia, vou voltar para o vosso colo e celebraremos todos os natais em falta (peço já desculpa à avó em antecipação pelo trabalho acrescido, embora pense que ela ate agradeça já que nada lhe dá mais prazer que a família reunida em torno da sua mesa).

Bem, não vos tomo mais tempo; até porque o peru deve estar a arrefecer e longe de mim arruinar refeição tão prazerosa! É inútil dizer que vos amo do fundo do coração pois vocês já o sabem, mas digo-o na mesma. Um genuíno e inacabável obrigado por serem um exemplo diário e os únicos ídolos que alguma vez quererei ter, pois não há nada mais perfeito que a consciência da imperfeição.

Um Feliz natal,
Para sempre o vosso menino.

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