• Literatura

    Crônica de uma velhice ensonada

    A felicidade é uma partida de mau gosto. Dizem-nos que está lá, mas não o conseguem provar, nem mostrar. Talvez nem o conseguem sentir. Perdoo-lhes o erro como lhes perdoo-o a tristeza: ambos têm o seu lugar no mundo. O resto, como se diz, é a inevitável dor do ser, essa leveza que é pesada por não pesar. Uma dor sarada por não sarar. É engraçado como escrever nos liberta. É quase uma melodia, uma harmonia mental que se apodera de nós, substituindo imediatamente a lógica pela pauta da linguagem. A partir daí, é fácil: basta deixar escorrer a música. Em cada sílaba segue-se a seguinte. Criam-se palavras que sabem…

  • Literatura

    És completamente insignificante. E isso significa tudo.

    Parámos de chorar. A sala parece ter ficado mais leve, também ela se livrou de um peso que mais não conseguia suportar. O peso da indiferença, da rotina baforenta que não estimula os sentidos, quanto mais a alma. – Bem, vamos esquecer este assunto, que tenho de ir ajudar o teu pai na cozinha, senão já se atrasa tudo. Vê lá se não te escapas entretanto e fazes companhia ao teu avô, ele anda um bocado apático e preocupa-me que já tenha pouco a dizer com medo de que já ninguém o queira ouvir. – Oh, que disparate, mãe. Sabes que, se há coisa certa neste Universo, são as estórias…

  • Literatura

    Declaração individual de incapacidade narrativa

    Passou-se uma semana. Talvez mais, não sei ao certo. No entanto, sei que me incumbi de ser mais do que isto, de me deixar levar por este pequeno traço que me carrega a cada respiração, a cada soprar do vento. Sei agora que não estou talhado para escrever – ou pelo menos não como centro da minha existência. Permitiam-se a clarificação: fiquei uma semana em quase total e absoluta exclusão, tendo tempo para tudo, menos para a escrita. Sinto sempre que é necessário um acontecimento externo abrupto, que me obrigue a ser o que só sou em sonhos e nunca tenho coragem de o realizar. De que me resta um…

  • Literatura

    Há livros que não nos cabem nas mãos – 4,3,2,1

    Olá. Prometo que despacho a análise intelectual que se espera de um “crítico” quando se aprecia uma obra de arte – que é o que este livro é e ponto final. Fonte: http://www.indielovers.es/regresa-el-mundo-literario-de-paul-auster-con-4321/ Vamos então a isto: Paul Auster, mais do que compreender o engenho da narrativa, a dinâmica intricada dos recursos estilísticos, ou mesmo a mecânica singular de conceber personagens impares, ele compreende sim a quase inaudível melodia da vida; e, embora não a partilhe em pauta, a música da linguagem invade os quartos de quem ousa abrir o livro e permite-se apenas escutar. Pronto. Está despachado. Agora vamos ao que realmente importa. Estupidamente incrível, meus senhores e minhas…

  • Opinião

    Assim dá gosto sofrer

    É um privilégio sofrer tanto por tão pouco. Confesso-o: eu já sofri. Já chorei, berrei, amaldiçoei a minha sorte.  Já todos sofremos. É um ato involuntário e tão básico quanto a água que bebemos ou as horas que passamos a dormir. Agora há, efetivamente, níveis distintos de sofrimento, quase uma escala, que nos permite compreender e distinguir níveis de dor, avaliando a vida. Como disse, todos já sofremos, todos já choramos por um amor perdido ou sempre desencontrado, pela agonia da desilusão, pela sombra da solidão. Todos já amaldiçoámos a nossa sorte e desejámos ser outro, rebolámos nas nossas lágrimas, fugimos em nós na busca de um mundo mais fácil…

  • Opinião,  Secções

    A culpa (não) é minha?

    Hoje venho falar-vos de algo que compreendi recentemente e que pretendo partilhar. Todos nós ouvimos que o melhor tempo das nossas vidas é o tempo passado na faculdade. Alguns sentiram com certeza um desconforto, como se nos dissessem que este momento em que estamos é o máximo que, no que toca a felicidade pura, podemos almejar. Eu sempre fiz questão de partilhar o privilégio que me foi concedido ao ser-me permitido estudar, e já apontei diversas vezes os benefícios do mesmo. No entanto, sempre assumi que era o tempo o principal fator que distinguia entre este momento e o resto das nossas vidas. Essa capacidade de ter vários meses de…

  • Opinião

    #aboutlastnight

    Abro os olhos. Os gritos incessantes aproximam-se com ferocidade. Rejeito-os como posso: projeto em mim as noites passadas a beber com os amigos, os dias a florirem e eu a chegar a casa, qual rebelde do sistema que não é meu e que tanto prazer sentia em desafiar. Voltam os gritos. Juntam-se pressões intermitentes no meu ombro, no braço, e finalmente na cara. Esfrego os olhos. O relógio diz 3:56, que raio de hora para acordar! É que 4:00 da manhã faz sentido, afinal as narrativas devem ser certas, ter uma sonoridade quase harmónica no decorrer das cenas. Agora esta hora só podia ser mesmo minha, desta realidade que me…

  • Opinião

    Não tão querido Pai Natal

    Querido Pai Natal, Gostaria de te trazer uma lista de coisas que queria, seja um boneco, viagens, ou qualquer desejo consumista momentâneo e prontamente substituído pelo seguinte. Não o faço, pois olho para o mundo e percebo o quão longe estamos do que é o mínimo aceitável, como a História é uma repetição em si mesma. Como o ser humano se reproduz sem evoluir, num ciclo comparável à dilatação e contração do abdómen quando respiramos, ou do universo, conforme preferirem. A propensão à paz ou à destruição é contruída num conjunto de pequenos ciclos que se dilatam e se influenciam e propagam até atingir o seu expoente, após os quais…

  • Opinião

    Abracadabra

    É um fenómeno extremamente interessante. As pessoas, e talvez também eu, estão coerentemente à espera de que lhes chegue uma fórmula de sucesso. Ouvimos os professores, repugnamos o “chove no molhado”, o “eu já ouvi isto noutra cadeira”, como se as verdades estivessem escondidas e constantemente vedadas, qual poder enraizado e corrupto a impedir-nos de singrar na vida. “Spoiler alert”: não há verdades absolutas nem pós mágicos de sucesso no mundo dos negócios, ou em qualquer tema da nossa vida caso se estejam a interrogar. Claro que conhecimento é útil e necessário – quanto mais melhor – mas, porque nos forma como pessoas, essa informação aumenta-nos a nossa perspetiva, como…

  • Opinião,  Secções

    É sempre tempo de (não) mudar

    Pensaste tudo o que tinhas a pensar. Equacionaste todos os teus movimentos, todo o teu futuro. Ele chegou. E agora descobres que já não te faz sentido, recusas essa tua projeção cuidada e polida em detrimento da realidade, esse traiçoeiro e incoerente aglomerado de incerteza. Voltas a pensar, desta vez a olhar para o chão e não para trás; percebes como as circunstâncias mudaram, como tu mudaste. As tuas cartas já não dão o mesmo jogo, e está tudo bem. Não fazeres nada também é uma escolha, difícil por sinal. Importante. Imprescindível. A consciencialização de que às vezes é preciso não fazer nada, não trocar o bem de agora pelo…