Tesouros Escondidos – Os Fantasmas de ”Lake Mungo”

te·sou·ro

(latim thesaurus, -i)

substantivo masculino

1. Grande quantidade de ouro, prata, coisas preciosas, posta em reserva.

2. Lugar onde se guardam esses objetos (tipicamente escondido)

3. Preciosidade.

4. Riqueza.

5. Filme indie que passou despercebido.

Em meados de 2005, Alice Palmer afogou-se enquanto nadava com a família perto de uma barragem em Ararat, na Austrália. Tinha dezasseis anos e era uma adolescente normalíssima, que deixou para trás apenas uma miríade de possibilidades e sonhos cadentes, e um trauma prestes a ser varrido para debaixo do tapete. “Não parecia a ordem certa”, diz a mãe de Alice, referindo-se ao facto de a sua própria mãe ainda se encontrar viva, depois do acidente. A morte causa comportamentos estranhos no ser humano. Apesar de parecer que sim, a maior parte de nós não se encontra consciente da sua própria mortalidade, e isso reflete-se na forma como cada um lida com o processo de luto – normalmente reprimindo-o e estando prestes a explodir à mínima perturbação.

Créditos: After Dark Films

Alguma vez se sentiram como se fossem morrer? Um aperto no peito, ou uma farpa no coração. Os sonhos de hoje voltam para atormentar os pesadelos de amanhã, induzindo a massa cinzenta em decomposição cronometrada com o batimento cardíaco dos pensamentos mais fúteis. A mente humana tem os seus meios de criatividade quando estamos em sofrimento e não percebemos bem porquê. Às vezes, há quem se sinta tão certo de algo que começa realmente a acreditar que é verdade. Pior é quando esse sentimento atinge coisas que já tivemos, mas nunca mais poderemos agarrar novamente. Pessoas, possessões – são tudo só coisas.

Alguma vez quiseram mostrar a alguém que não se sentiam bem, mas não conseguiram? Exporem-se ao mundo e colocarem-se à mercê do julgamento dos outros é assustador. Estão presos naquele buraco e com isso vem o desespero oriundo de mundos mudos, sem força para falar. Às vezes, ouvimos alguém dizer que “as pessoas nunca mudam, realmente”, mas o que é certo é que muitas esforçam-se a tentar, nem que seja para fugir só durante um momento e calçar outros sapatos. Ser outro alguém. Talvez isso se reflita numa mudança de penteado, ou talvez no primeiro bafo do primeiro cigarro – os pulmões envelhecem, mas sentem-se mais novos. Parece diferente, mas não é.

Vários acontecimentos desenrolaram-se à margem do Lago Mungo, mas nenhum deles foi um produto do acaso. Houve um crescendo gradual, que culminou naquela noite fatídica à lua cheia do desespero. Isto não é um thriller sobrenatural, é um filme de terror da cabeça aos pés, e não um sobre fantasmas – não no sentido clássico. É um ensaio sobre os fantasmas nos quais permitimos que nos tornemos quando não nos encontramos em contacto com o nosso próprio ser, e sobre como esses fantasmas percorrem a terra à procura de uma entrada para os pesadelos daqueles que deixamos para trás, quando finalmente nos largamos.

Para onde é que vamos, quando finalmente nos vamos? Para ser honesto, acho que nunca vamos realmente a lado nenhum.

Alice Palmer, o fantasma de Lake Mungo // Créditos: After Dark Films

Artigo Revisto por: Miguel Bravo Morais

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