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LEFFEST: Godard e as suas dúvidas existenciais

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 “Jean-Luc Godard é mais que um cineasta, é quase um investigador científico do cinema: para além de ter assumido um papel essencial na arte francesa, destacou-se no panorama internacional. Não deixou a sua marca somente na nouvelle vague, mas sim em toda a história do cinema” – foi deste modo que Jean Douchet, realizador, historiador e crítico cinematográfico, abordou a vida e obra de um dos mais aclamados realizadores no segundo dia do Lisbon & Estoril Film Festival.

 

Sempre quebrou regras e é considerado vanguardista e polémico. No Cinema Medeia Monumental, no Saldanha, surpreendeu os fãs desolados de Monica Bellucci que não haviam obtido bilhetes para a sessão de “Malèna”, onde esteve presente a atriz italiana. Com Histoire(s) du Cinéma, Jean-Luc Godard fez as delícias do público, ainda que esta “série videográfica”, como é designada habitualmente, seja complexa e dirigida a conhecedores da sétima arte.

Uma junção de filmes antigos, pintura, fotografia, géneros musicais, voz off, o som de uma máquina de escrever e frases garrafais: é esta a síntese do filme que se encontra dividido em quatro episódios, cada um composto por dois capítulos, criados entre 1988 e 1998.

“O que é o cinema?”, “Como é que o Cinema é visto na História?”, “Que papel possui o cinema entre os meios de comunicação?”, “O cinema é mais elogiado ou criticado?”, “Será que este filme espelha os acontecimentos do séc. XX com exatidão ou nem por isso?” – estas e muitas outras questões são colocadas no decorrer do filme, e o vencedor do Óscar Honorário (2010) tenta dar resposta às suas inquietações, procurando incessantemente a essência do cinema.

Do terrível Holocausto à pornografia, de Bach a Bartók, da autobiografia à poesia, da filosofia moral à narrativa… Em Histoire(s) du Cinéma, “com s, porque se refere a várias histórias, no plural”, segundo declarações do realizador, o filme aborda os mais variados temas sob as mais variadas perspetivas.

“Todas as Histórias”, “Uma História Só”, “Só o Cinema”, “Beleza Fatal”, “A Moeda do Absoluto”, “Uma Nova Vaga”, “O Controlo do Universo” e “Os Signos entre nós”: são estes os títulos dos episódios do projeto que marcou o apogeu da carreira de Jean-Luc Godard, onde começamos por entender a conceção do cinema como produto final do sonho gigantesco do realizador megalómano até o vermos como a única coisa capaz de projetar as histórias de homens de todas as nações.

O roteirista, ator, escritor e ensaísta franco-suíço propôs uma nova conceção de montagem (explora o movimento e cria novos significados, manipula as imagens, usa colagens e excertos de obras anteriores), não obedecendo à ordem cronológica e baseando-se na rutura, na repetição e na disjunção (alternância de circunstâncias e sentimentos). Para além disso, foi capaz de integrar todos os elementos harmoniosamente, não estabelecendo qualquer hierarquia entre eles.

Juntando antagonismos, como a guerra e a paz, o amor e o ódio, a alegria e a tristeza numa espécie de ode em tom de revolta ao cinema, Godard ilustra na perfeição aquilo que nutre por ele: admiração, porque o ama e sabe o poder que possui, e revolta, na medida em que considera que ele se “traiu a si próprio” por fazer publicidade e não denunciar devidamente os flagelos do séc. XX.

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