Literatura

Leituras para estudantes sem tempo

Com o semestre a acabar, nós, estudantes, temos finalmente um tempo para “respirar”, após tantos trabalhos e frequências. Mas… E os exames? Será que essa sensação de “liberdade” é verdadeira? Ou estará apenas disfarçada até chegar o “Dia D”?

O tempo livre acaba por ser uma farsa. As sebentas de TC e de CL ocupam todo o tempo que poderíamos usar para ler um bom livro, o que, pelo facto de ser demorada, é uma tarefa de lazer deixada para trás.  

Assim, com saudades de ler um bom livro durante o semestre que não ocupe muito do meu tempo, resolvi sugerir-vos três livros de leitura rápida. São obras que têm desde 120 a 190 páginas, mas que não passam despercebidas, pois transmitem uma mensagem importante que marca o coração, principalmente o dos mais atentos ao detalhe. Deixo, então, as minhas sugestões:

Meia Hora para Mudar a Minha Vida” – Alice Vieira

É seguro dizer que Alice Vieira marcou a infância de muitas pessoas, devido ao histórico de Literatura infanto-juvenil que a autora carrega. Entre as suas obras mais conhecidas, temos “Leandro, Rei da Helíria”, adaptação de “Rei Lear”, de Shakespeare; “Rosa, Minha Irmã Rosa”; e “Chocolate à Chuva”. 

Meia Hora para Mudar a Minha Vida” chegou-me num contexto muito normal para um aluno de secundário: precisava de apresentar um livro do plano de leitura na semana seguinte. Livro este que ainda nem tinha começado a ler. Procrastinei um pouco até encontrar um livro que me agradasse, mas dei de frente com o livro da autora. Ainda que tivesse demorado mais uns dias até começar a ler o conteúdo das páginas (li poucos dias antes de apresentar), na noite em que comecei, quase “devorei” a obra inteira. Fiquei tão agarrada à história de Branca (a personagem principal) que só deixei dois capítulos para ler na manhã seguinte, apenas devido ao cansaço que já se acusava às duas horas da manhã. 

Resumir a beleza deste livro, sem dar os clássicos spoilers, é uma tarefa difícil. Esta obra de Alice Vieira conta com a personagem Branca: uma rapariga que nasceu nos bastidores de um palco, num lugar chamado Feira – uma comunidade de atores e de artistas com paixão pela arte e pelo teatro, em especial pelas peças do dramaturgo Gil Vicente. 

Ao longo da história, acompanhamos a peculiaridade da personagem que nos vai sendo revelada mais ao pormenor, quando nos é descrito o ambiente disfuncional onde vive, bem como o seu núcleo familiar distinto. Núcleo este que está repartido entre a casa da avó distante, o seu pai que vive na Suíça e o local onde realmente foi criada: a Feira. 

Apesar de o livro ter o rótulo de Literatura infanto-juvenil, é uma leitura que vale muito a pena não só pela maneira de escrever da autora e pela sua abordagem aos restantes papéis, mas também pelo desenvolvimento da personagem principal e pela forma como nós, leitores, crescemos, sofremos e partilhamos das suas dúvidas. Pode até ser dito que o leitor amadurece com Branca, tendo a mesma angústia que esta tem ao tomar uma decisão em meia hora…

Aconselho vivamente a leitura deste livro que não irá de certeza abstrair-vos do estudo das sebentas. 

Quando as pessoas que amamos desaparecem da nossa vida, temos de aprender a viver sem elas. – Alice Vieira, “Meia Hora Para Mudar A Minha Vida”.
Fotografia de Mariana Colaço

Fahrenheit 451” – Ray Bradbury:

Fahrenheit 451” é um romance distópico de ficção científica, escrito por Ray Bradbury. Acredito que o nome deste livro não seja estranho para muitas pessoas, uma vez que ganhou muita popularidade anos depois de ser lançado e é um livro mencionado em muitas outras obras. É um livro de referência. 

A obra apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, as opiniões próprias são consideradas antissociais e desacreditadas e o pensamento crítico é suprimido. Nas palavras de alguns críticos, representa uma ditadura, especialmente a nível cultural e intelectual. O título dado ao livro remete para a temperatura de combustão do papel – 451 graus fahrenheit, equivalente a 233 graus celsius.

Ao longo do enredo, acompanhamos as opiniões distorcidas da população, com especial foco na narrativa e na mente de Guy Montag, personagem principal que no livro é bombeiro, mas não um bombeiro qualquer. Na sociedade apresentada pelo autor, um bombeiro é tradicionalmente um “queimador de livros“, conceito este que é apresentado logo no início da obra, chocando o leitor. 

Ao longo dos anos, este romance foi submetido a várias interpretações. Entre elas, e maioritariamente em 1953 – ano em que o livro foi publicado – surgiram acusações de que o autor apoiaria os regimes ditatoriais e a supressão de ideias diferentes. No entanto, Bradbury declarou que “Fahrenheit 451” não se trata de censura, mas de como a televisão destrói o interesse pela leitura. Disse também que a sua intenção original, ao escrever a obra, era mostrar o seu grande amor por livros e por bibliotecas, usando Montag, muitas vezes, para se referir a si mesmo. 

Recomendo este livro com menos de 200 páginas para uma leitura que vai trazer todo o tipo de emoções à flor da pele. 

If you hide your ignorance, no one will hit you and you’ll never learn.”  ― Ray Bradbury, “Fahrenheit 451
Fotografia de Mariana Colaço

Os Livros que Devoraram o Meu Pai” – Afonso Cruz

Para terminar esta lista, trago outro livro considerado “Literatura infanto-juvenil”, mas que, no meu entender, está direcionado ao target errado.

Neste livro, Afonso Cruz traz uma história do ponto de vista de Elias Bonfim, um rapaz que recebeu uma herança do seu desaparecido pai – Vivaldo Bonfim. Contudo, esta não é uma herança normal, pois Elias recebe a coleção de livros nos quais o seu pai, em tempos, se perdeu. 

Então, de forma a encontrar o escriturário que se refugiava em leituras de romances (o seu pai), Elias embarca numa viagem por obras como “Divina Comédia“, de Dante; “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde“, de Robert Louis Stevenson; ou “Fahrenheit 451“, de Ray Bradbury, experienciando momentos únicos com cada um dos personagens.

Não quero revelar muito mais sobre este livro, pois acredito que cada pessoa, ao lê-lo, terá uma experiência diferente. No meu caso, uma montanha-russa de emoções. 

Referi ainda que não achava o rótulo de “Literatura infanto-juvenil” adequado para a obra, pelo que considero que deveria ser uma obra sem etiquetas, sendo indiferente o facto de ser lida por miúdos ou graúdos, visto que, ao relermos este livro, em diferentes fases da vida, teremos uma opinião e uma perspetiva diferentes. É um livro curto, presente e amigo que vai dar sempre vontade de reler (daí, talvez, ter começado a reler enquanto escrevia este artigo).

Os Livros que Devoraram o Meu Pai” é uma obra sobre livros; é uma ótima porta de entrada para quem está a (re)entrar neste mundo, independentemente da sua idade.

Escusado será dizer que aconselho vivamente a leitura deste livro, não só pela maravilhosa história ou pela escrita do autor, mas especialmente pelas emoções que ele traz. 

Os livros encostados uns aos outros, numa prateleira, são universos paralelos!” ― Afonso Cruz, “Os Livros Que Devoraram o Meu Pai
Fotografia de Mariana Colaço

Percebo que as escolhas que fiz são como um tabuleiro de xadrez, estando o primeiro e o terceiro livros em casas de cor diferente, comparativamente ao segundo livro. Aqueles com emoção a transbordar e este, ironicamente, tão frio… Mas a leitura é mesmo assim.

Espero que estes livros, com o tamanho perfeito para caberem na mala e nos acompanharem numa aventura, tenham despertado a vossa curiosidade. Ainda que as aventuras mais próximas sejam a análise dos textos de Adriano Duarte.

Bons estudos e boas leituras.

Fonte da Imagem de Capa: Mariana Colaço

Artigo revisto por Beatriz Campos

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