Opinião

Música “a sério”

Durante um dos meus frequentes momentos de procrastinação, que já são crónicos, fui vagabundeando pelo Youtube, vendo vídeos de todos os géneros. Passado 30 segundos já estou farto de um vídeo, por isso passo logo para outro. Faço isto, às vezes, durante uma hora para depois me aperceber de que estaria melhor a jogar, porque ao menos não me interrompia constantemente. Também me acontece isso a ouvir música: ao ouvir uma canção lembro-me de outra e não oiço a primeira até ao fim. Também uso o Spotify, mas vou alternando o uso da plataforma com o uso do Youtube no que toca a ouvir música, visto que nem todas as músicas que oiço estão numa ou outra plataforma.

Durante essa demanda no Youtube, lembrei-me de ouvir “Rap Consciente”, a nova música do rapper Valete, há 11 anos sem lançar um novo álbum. Não costumo ouvir música portuguesa, nem sequer rap, que é até dos géneros musicais que oiço mais. A canção critica a superficialidade dos rappers portugueses e o facto de serem demasiado pop e mainstream. Acusa-os de só fazerem música para a fama, para a rádio, para as visualizações e para o dinheiro (algo legítimo), de fazerem kizomba em vez de rap, e de não se interessarem por temas mais importantes, não usando a música como forma de protesto. Nos comentários do vídeo, os utilizadores louvam o regresso do artista, afirmando que aquilo é rap “de verdade”, “boa” música, enxovalhando aqueles que fazem música e escrevem letras sobre “ostentação e materialismo” e aqueles que gostam desse tipo de música (“Geração Snapchat ancorada no narcisismo”, como o próprio Valete afirma na canção).

Louvo a capacidade lírica do rapper, como também a nobreza daquilo que pretende alcançar. É, indubitavelmente, necessário que os artistas galvanizem o público para a tomada de consciência em relação aos problemas da atualidade. E esse tipo de comentários não é, de todo, algo que me surpreenda: o Youtube não é uma boa plataforma para discussão (não é que seja esse o seu propósito). Mas essa conversa de que é rap “a sério” ou música “a sério” e essa necessidade de criar uma barreira entre “boa” e “má” música não só são desnecessárias, na medida em que a arte não serve para criar barreiras, mas sim para quebrá-las, como também me deixam constrangido. Não deviam, porque eu pensava dessa maneira quando era (ainda) mais jovem: ou seja, se calhar devia ser um pouco mais tolerante, mas talvez seja mesmo por essa razão que não o sou.

Até aos 13 anos ouvia só aquilo que passava na rádio: tinha um leitor de MP3 desde os 8 anos, mas não lhe dava grande importância. A partir dessa idade, comecei a procurar música. Esse período coincidiu com a minha introdução à Internet. Primeiro ouvia mais música eletrónica, depois comecei a ouvir mais rock e rap, já perto da maioridade comecei a ouvir mais metal, etc.. Como qualquer jovem, ia experimentando de dia para dia, mas, noutras alturas, ia ouvindo as mesmas músicas incessantemente. Por vezes, essa tendência arrastava-se durante semanas e meses. Ainda se arrasta. Lembro-me de me gabar nos vídeos de artistas de que ouvia x música com 15 anos: ao ingénuo eu daquela altura não passava pela cabeça que não era o único miúdo do mundo a ouvir Queens of The Stone Age ou Tool, só porque não conhecia ninguém que também ouvisse essas bandas ou outros artistas que considerasse “superiores”, ou porque são “da pesada” ou porque são “complexos” e não é qualquer um que “entende” aquilo que querem dizer através da sua música.

Tirando a parte musical e sónica, sobre a qual não sei o suficiente para me alongar muito, não existe, na minha opinião, uma medida absoluta pela qual se possa avaliar se uma música ou um género de música é bom ou mau. Na minha opinião, a música é, para além de uma forma de entretenimento e divertimento, um meio de canalização de emoções, desejos, pensamentos, etc., na medida em que quando ouvimos uma música experienciamos vicariamente as emoções que os artistas transmitem, quer pela letra e pela entrega/performance vocal, quer pela parte instrumental. Sendo que cada um vive de maneira particularmente única e, desse modo, desenvolve noções diferentes daquilo que são as coisas (do amor, da justiça, da morte, de tudo, basicamente), as músicas que cada um usa para canalizar certa emoção será diferente para cada um de nós, e, certamente, vamos canalizando uma certa emoção mais vezes que outra, algo que também depende da nossa disposição. Eu, sendo alguém muito pouco assertivo e sem grande espírito de iniciativa fruto da minha ansiedade, sinto necessidade de canalizar a minha angústia. Por isso, oiço música para me fritar os miolos e para ficar rouco: muito metal satisfaz essa necessidade, por exemplo. Para acompanhar, o rap satisfaz a minha necessidade de elevar o ego, na medida em que me dá confiança, algo que não abunda na minha psique (pelo menos a maioria do rap). Alguém mais assertivo talvez não sinta essa necessidade: talvez queira mais distrair-se e divertir-se. Alguém que leve a música menos a sério ouve só, se calhar, aquilo que passa na rádio, ou nem ouve música de todo. Uma música que nos pareça ridícula pode ser totalmente ignorada ou, achando piada à música por ser má, pode ser acarinhada de forma irónica. Alguém mais culto e curioso também terá, à partida, uma visão mais abrangente e complexa do mundo, mas isso não impede alguém com menos paciência e disponibilidade de procurar música que a faça pensar e refletir sobre as coisas, tal como acontece com o pessoal que ouviu a canção do Valete e que comentou no vídeo do Youtube. Não digo que sejam burros, mas ler alguns daqueles comentários tanto me deixam deprimido e triste com a parvoíce (momentânea, espero) de muita gente com mais do que tempo e disponibilidade para tentarem, pelo menos, pensar um pouco sobre as cenas (sendo maioritariamente putos mais ou menos com a minha idade), como também fico mais feliz com a minha forma de pensar, que não me faz ser mais inteligente e culto que ninguém, mas certamente me dá um avanço no que toca à possibilidade de sê-lo.

Ou seja, a forma como ouvimos música depende da personalidade e das experiências de cada um. Podem retirar-se duas conclusões a partir de duas perspetivas: independentemente da instrumentalização e da parte técnica da música e do vocabulário e conteúdo da letra, todo o tipo de mensagens transmitidas pela música pode ser considerado sério e sujeito ao mesmo tipo de tratamento, visto que cada um as vive e as interpreta de maneira diferente; ao mesmo tempo, e pelas mesmas razões, não se pode considerar um género de música “superior” aos outros. Por isso, o melhor remédio é, na minha opinião, tentar ouvir o máximo de músicas possível, tendo em conta géneros e artistas. Dessa maneira, e não só na música, isso pode permitir-nos uma maior abertura a novas ideias e formas de pensar, e, consequentemente, o nosso desenvolvimento. Não quero dizer que não se deve discutir sobre aquilo que se gosta ou não: todos temos preferências. Agora, é totalmente desnecessário dizer que só há uma maneira de fazer música e que todas as outras estão erradas só porque não compreendemos a maneira de pensar de quem a faz e a razão dessa música não ficar no nosso ouvido.

Quanto ao pessoal que vai para o Youtube armar-se em esperto, eu compreendo, porque também fui e, de certa maneira, ainda sou assim: vou tentando deixar de ser. Mas deixem-se de cenas. Pensem mais naquilo que dizem e ouçam mais música para que realmente a vossa opinião valha mais. Não é que a minha valha imenso. E vocês até podem só estar a picar e a brincar, mas isso é difícil de perceber na Internet. Se for esse o caso, não sei por que perdi tanto tempo a escrever isto. Vou é ouvir “Fuck The Pain Away” da artista canadiana Peaches. É uma canção com uma letra tão fenomenalmente corriqueira que, independentemente do quão inútil me sinta, consigo esquecer-me de tudo aquilo que me possa perturbar. Às vezes, apetece-me muito falecer.

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