7ª Arte

Não Olhem para Cima: É tudo uma questão de perspetiva

A mais recente comédia do realizador Adam Mckay (The Big Short, Vice), Não Olhem para Cima (de título original Don’t Look Up!), tem vindo a dividir a crítica e exaltar os ânimos de espectadores e audiências um pouco por todo o mundo.

A realidade é que, apesar das previsões feitas por críticos, cinéfilos snobs e orgulhosos detentores das coleções Criterion, a obra de Mckay conseguiu quatro nomeações para os Óscares (incluindo melhor filme e argumento original), assim como indicações para os prémios BAFTA (British Academy Film Awards), Critics Choice Awards, Writers Guild of America Award, Globos de Ouro e a lista continua. Tratar-se-á de presunção descabida ou previsão astrológica de um filme que aponta o dedo ao negacionismo científico?

O filme é escrito e realizado por Adam Mckay e conta com um elenco implacável: Leonardo Dicaprio, Jennifer Lawrence, Jonah Hill, Meryl Streep, Timothée Chalamet e muitas outras caras conhecidas.

Tudo começa quando o Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e a doutoranda Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), investigadores em Astronomia da Universidade de Michigan State, descobrem que um cometa de enormes proporções se encontra em rota de colisão com a terra e o impacto poderá levar à extinção humana. Ainda que procurem alertar as grandes instituições e a elevada patente geopolítica norte-americana, ninguém parece querer saber. Numa era em que a pegada digital é mais determinante do que a pegada ecológica e em que a sociedade, profundamente autocentrada, vive refém dos fetiches intelectuais da opinião pública, Mindy e Kate encontram-se praticamente sozinhos na sua demanda de consciencializar e alertar para a prevenção do perigo que se aproxima do planeta a milhares de quilómetros por hora.

Ainda que seja uma alegoria patente ao problema das alterações climáticas, o filme não podia ter estreado em “melhor” altura: cerca de um ano após o início da pandemia de Covid-19, em que todo o tipo de opiniões iluminam os nossos ecrãs, e a disseminação de informação falsa, bem como grandes correntes de negacionismo científico, ocupam um lugar poluente na atmosfera digital. A pertinência óbvia da mensagem e o alarmismo da temática  foram o que realmente deu azo ao descontentamento e dividiu as opiniões quanto à mais recente obra de Mckay.

Fonte: gqportugal

Para entender Don’t Look Up, há que contextualizar o filme dentro daquilo a que vamos chamar “espectro Mckay”, este domínio inibe as personagens que habitam a película de fazer qualquer tipo de escrutínio autorreflexivo. Essa é a falha evidente a ser resolvida nas personagens deste autor, e, quando acontece, com o desenlace da estória, há um sentimento que supera a catarse, através do qual somos inundados por uma sensação de remorso para com a nossa atitude ignóbil de olhar para o lado. No filme, este momento é marcado pelo culminar do arco de personagem de Dr. Mindy, em que DiCaprio, numa performance tão honesta quanto as suas convicções, se desinibe completamente em horário nobre televisivo e cai, ele próprio, na realidade do que está a acontecer.O humor, quando prontamente interpretado, é a melhor ferramenta de crítica construtiva. O que Don’t Look Up propõe é uma poderosa premissa semiótica que poria Roland Barthes a considerar uma carreira na crítica culinária. O filme espelha uma realidade iminente e aponta o dedo à constante deliberação humana em evitar pensar no catastrófico, ao hide the pain quotidiano e ao recorrente “vai ficar tudo bem”, numa era em que o improvável continua a acontecer e em que nos sujeitamos a ser atingidos por algo maior do que qualquer pandemia, crise climática ou guerra. Como alguém uma vez escreveu: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara”.

Fonte: Netflix

Fonte da capa: oitobits

Artigo revisto por Catarina Policarpo

AUTORIA

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Aluno de mestrado em Audiovisual e Multimédia na ESCS. Trabalhei 1 ano como editor de vídeo e assistente de realização, e embora a paixão se mantenha, em 2020 comecei a expandir conhecimentos para seguir os meus objetivos de escrever guiões e ensinar escrita de argumento. Comecei a trabalhar como estagiário na SP Televisão. Mas foi desde jovem, na paz da Beira Interior, que criei uma grande afinidade por histórias, filmes, artes e cultura.