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O amor cósmico de Florence Welch

Quem liga diariamente as estações de rádio não ouve com frequência as músicas de Florence + The Machine; quem passa pelos canais de música não vê os videoclipes cheios de direção artística aos quais esta banda é associada – normalmente realizados por Vicent Haycock. Mas a verdade é que, numa questão de seis anos, o grupo já foi nomeado para sete Grammys, estreou álbuns seguidos em número um e encheu arenas pelo mundo inteiro. O seu sucesso é devido a uma abordagem equilibrada entre uma noção de espetáculo e uma intensidade dramática pop de sabor clássico.

O mote para a digressão ainda é “How Big, How Blue, How Beautiful”, o aclamado terceiro disco, editado em maio de 2015. O palco, por sua vez, não é estranho para esta cantora londrina, visto que o pisou há menos de um ano, como cabeça de cartaz do último Super Bock Super Rock.

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Explorando o historial desta banda, percebe-se que Florence Welch é o resultado de uma fórmula bem pensada: os vocais de Grace Slick, dos Jefferson Airplane, aliam-se ao teatralismo de Kate Bush e à argúcia de Stevie Nicks, a líder dos Fleetwood Mac. Contudo, é graças à devoção pela sua arte e pelos seus fãs que Welch se destaca das estrelas pop da sua geração.

No dia 18 de abril, o MEO Arena vivenciou as excentricidades e as neuropatias num espetáculo digno de uma sala cheia. Mas uma mulher não o faz sozinha, e pouco depois das 21h00 a Machine, num formato quase orquestral, entrou em palco e a música fez-se ouvir em sequências titubeantes, entre o dedilhar de uma harpa e a batida de uma percussão.

Assim, “What The Water Gave” abriu o espetáculo, com Florence a passar pela legião de fãs que a esperava, seguindo para o palco. Vestida de renda transparente verde e preta, a vocalista contemplou a arena enquanto, de uma forma cintilante, cantou o primeiro single do álbum “Ceremonials”. Pouco tempo depois, seguiu-se “Ship To Wrekc”: o hino sobre exorcizar demónios agitou ainda mais os ânimos.


“Vejam esta grande arena! Muito obrigada por nos receberem aqui nesta grande arena”, disse, surpreendida, a cantora, enquanto o dedilhar de uma harpa iniciou “Bird Song”, um interlúdio que deu início a um dos temas clássicos: “Rabbit Heart (Raise It Up)”.

Fonte: Everything is New
Fonte: Everything is New

Florence Welch moveu-se de forma esguia, incansável, por todos os cantos do seu palco, motivando o público a saltar cada vez mais alto e a cantar até a voz escapar. Mas foi em “Shake It Out” que a cantora recorreu à ajuda dos fãs: “normalmente temos um coro connosco para cantar esta próxima música, mas não o conseguimos trazer desta vez. Querem ser o meu coro? Querem cantar comigo?”.

A calamitosa “Delilah” seguiu-se, dando-se só uma pequena pausa quando a banda optou por uma versão calma e emotiva de “Sweet Nothing” – o hit que conta com a colaboração do DJ Calvin Harris.

Entre músicas, Welch partilhou pequenas histórias sobre o processo de composição com a audiência, referindo-se a “How Big, How Blue, How Beautiful” como a primeira música que escreveu para o último álbum: “estava influenciada por grandes sentimentos e por grandes paisagens; imaginei o infinito céu azul de Los Angeles e agora quero-vos passar esse céu, de modo a ficarem protegidos”.

Mas a emoção não parou aqui e foi em “Cosmic Love” – um dos momentos mais altos da noite – que as luzes de telemóveis, de faíscas de isqueiros e de lanternas iluminaram cada metro quadrado do recinto. Num ambiente mais etéreo, e numa versão menos expansiva, frente a um mar de balões em forma de coração, a cantora conseguiu tocar no coração de cada um que se atrevia a conter as emoções: “obrigada por me darem os vossos corações. Podem ficar com o meu”, disse. Foi neste ambiente sereno e comovente que se passou para a solene “Long & Lost” – a canção mais atmosférica do alinhamento.

A banda não perdeu tempo e captou de novo a atenção com a agressiva “Mother”. Os riffs de guitarra psicadélicos coadunaram-se a um jogo de luzes quase epilético, tornando-se num dos pontos mais altos devido aos movimentos quase demónicos da vocalista.

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Este clima abruto abrandou brevemente ao som dos subtis violinos de “Queen Of Peace”, que numa questão de minutos deixou toda a gente de pé. Aqui, as palavras “’cuz you’re driving me away” ouviram-se nas vozes agitadas dos espectadores, quase como um grito de guerra. Por sua vez, “Spectrum” não teve o mesmo ânimo e a mesma garra que as anteriores, mas serviu de preparação para “You’ve Got The Love”. Este tema de “Lungs” contou com uma abertura a capella a pedido da cantora. Foi neste momento, quase de devaneio, que as pessoas ligaram aos seus colegas, ou que até mesmo falaram por Skype com amigos que não podiam estar presentes. A própria Florence sentiu isso: “vejo tanto amor em vocês que quero levá-lo para o mundo fora. O mundo precisa de amor”.

A encerrar o espetáculo ficou uma das canções mais esperadas: “Dog Days Are Over”. Depois de ter dito que fez seis concertos em sete dias e que o público português foi o mais “barulhento”, a nossa protagonista fez um pedido irrefutável: “abracem-se, beijem-se, toquem na cara uns dos outros, tirem uma peça de roupa e abanem-na como uma bandeira…e por favor saltem”. A saída de palco foi feita, assim, a saltar.

O concerto não se deu por concluído e a banda voltou para um encore ao som de “What Kind Of Man”. Em contraluz, com uma sinistra introdução feita por sintetizadores, este foi um dos momentos mais hostis, assinalado, novamente, pelo dramatismo quase energúmeno que Florence transmitiu. Mas, entre espasmos alimentados por uma arreliada bateria, o MEO Arena preparou-se para o derradeiro fecho: “Drumming Song” – o quarto single da carreira do grupo. A euforia, a raiva e a loucura de Welch reduziram-se a este ápice final. De bandeira portuguesa às costas, a banda fez uma vénia e despediu-se de Portugal.


Com as luzes apagadas e a cortina descida, os olhares de satisfação e de cansaço da plateia misturaram-se com palavras de suspense e de êxtase.


Só com três álbuns no seu reportório, os Florence + The Machine provaram que conseguem dominar uma arena a nível de profissional. Nesta última tournée, “How Big”, que está agora a percorrer a Europa, o carisma e o magnetismo profético de Florence movem multidões para a ver cantar, rodopiar e saltar. E nós aplaudimos de pé.

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