O Cinema Brasileiro como forma de resistência – Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto
Após um ano, o Brasil voltou à corrida aos Óscares com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. No ano passado, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, conquistou o Óscar de Melhor Filme Internacional, tendo ainda reunido nomeações de Melhor Filme e Melhor Atriz nos Óscares e levado o Globo de Ouro de Melhor Atriz, recebido por Fernanda Torres, e Melhor Filme Estrangeiro.
Há muito em comum na essência e assunto matriz destes dois filmes, como de diferente há também na maneira de abordar. O Agente Secreto (2025) conta a história de Marcelo, um professor perseguido por um passado em São Paulo, que foge para Recife, e Ainda Estou Aqui (2024), baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, retrata a história real de Eunice Paiva e a sua família após o marido, Rubens Paiva, ex-deputado do Partido Trabalhista Brasileiro, ser capturado pelo regime em casa e desaparecer dias depois – ambos nos anos 70, no regime da ditadura militar do Brasil.
Kleber Mendonça Filho, conhecido por realizar críticas sociais de modo característico, retrata por entre a vida de Marcelo o descaso cometido com o nordeste do Brasil, o abuso do poder e intangibilidade de quem detinha o poder aquando de um regime ditatorial, e fá-lo através de um thriller. Já em Ainda Estou Aqui, o realizador Walter Salles relata a realidade de uma família que sofre um desaparecimento, a dura vivência à espera de uma resposta. Este foca-se na tortura provocada por polícias do regime e na tortura provocada pela não resposta e injustiça que atravessa anos.
A honestidade dura de Ainda Estou Aqui:
Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens Paiva, escreveu a sua história sobre uma família que viu o regime de perto, que viveu a aguardar um pai, a aguardar uma resposta e, sobretudo, a aguardar a justiça. Numa honestidade, dureza e fieldade à realidade na reprodução desses anos por Ainda Estou Aqui, o filme faz-nos quase sentir a dor que a ditadura causou a um país, a cada família, a cada pessoa. Sentir e perceber quantos “pioneses” a ditadura militar do Brasil colocou debaixo da almofada de cada um e viveu em ecrã por empatia, a injustiça de um país que defendeu a amnistia dos culpados pelas mortes de presos políticos e o sofrimento das suas famílias.
Fiel à representação do tempo e à precisão dos detalhes da capital fluminense, característica aclamada por quem assistiu ao filme de Walter Salles, em mais de uma dezena de bairros, estabelecimentos reais foram adaptados para relembrar a década de 1970, com cerca de 25 carros antigos alugados, ruas do Rio de Janeiro fechadas e praias com menos comércio. Fiel aos retratos da família Paiva e à essência da sua persistência e coragem face à perseguição política, o elenco dançou as canções ouvidas da altura, viveu a família, fez o público cantar e chorar com eles e voltar a fazê-lo nos Óscares, pois este grito brasileiro espalhado pelo mundo foi mais uma vitória da cultura brasileira e da Liberdade face à ditadura.
Fernanda Torres foi o espelho de Eunice Paiva, da sua força em ser suporte de uma família portadora de um vazio que se instala, mas que é mais cada vez mais silencioso. Isto torna-se percetível quando recebe uma vitória em forma de certidão de óbito do marido, só depois de 25 anos. Um homem que a ditadura militar não quis declarar ter eliminado. Eunice com o documento em mãos é o autêntico retrato do momento em que a tortura em forma de dúvida finalmente acaba.
O diretor Walter Salles revelou que o filme demorou cerca de sete anos a sair do papel e estrear nas salas de cinema. “[…] porque, durante quatro anos, o país se apoiou na extrema direita, e seria impossível filmar durante esse período. O filme é parte do retorno da democracia ao Brasil”.
Os caminhos geniais, rebuscados e cabeludos de Kleber Mendonça Filho:
Por vezes irónico, com momentos delicados de humor, de ação e vulnerabilidade, provoca um ambiente imersivo de suspense entre a vertente visual e sonora, utiliza simbolismos rebuscados, referências que cruzam o contemporâneo com o passado e imagens que roçam o absurdo e o “estranho explícito” com humor.
Kleber Mendonça Filho, trouxe referências desde histórias do passado, como “a perna cabeluda”- lenda urbana de Recife -, a um passado próximo, como na referência direta ao caso de Miguel, de cinco anos, que faleceu em Recife, vítima de negligência e desigualdade social, quando a patroa da sua mãe o deixou no elevador e carregou no botão da cobertura na sua ausência.
É sob a austeridade, impunidade, poder e desigualdade que Kleber constrói o seu mais recente filme. Os simbolismos presentes no filme estão tanto na cara como são misteriosos. Para a dualidade do ambiente vivido pelo protagonista, há o “gato de duas caras” e o ambiente de medo e incerteza em contraste com as festividades de Carnaval. Já o silenciamento das mortes de civis na época do regime militar é apresentado através da “perna cabeluda”, representada apenas como uma perna sem dono, e também em meio da morte das suas personagens: enquanto a morte dos polícias é escancarada, muito explícita e esticada ao exagero, a morte do protagonista é revelada apenas numa folha de jornal, na mão de outra personagem.
O realizador fez um retrato do Brasil durante a ditadura militar através de uma história inventada, através de mecânicas rebuscadas, dando de mão dada ou fazendo-nos pescar detalhes por entre a história, num thriller que nos deixa em suspenso quase até ao fim, ainda a colocar os pedaços do puzzle no sítio certo para compreender o início e completar o desenho que vem na caixa.
A matriz:
“Se não fosse o Bolsonaro não estaríamos aqui”, disse Wagner Moura, ator que protagonizou O Agente Secreto, em meio das premiações e entrevistas de imprensa.
O clima de incerteza da ditadura, retratado em proximidade com a realidade em Ainda Estou Aqui, é o clima que se pretende fazer sentir com O Agente Secreto. A comunidade que se junta e protege, que se informa e reune, que não baixa os braços, que vive o perigo e a injustiça é a gente de quem se fala e se quer lembrar em ambos os filmes. A incerteza, a austeridade e a impunidade são mais que temas presentes, são motivo para ser feito um filme. E é mais que tudo isso, e bem mais que filmes:
Em 2019, Jair Messias Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil. No seu mandato morreram mais de 716 mil pessoas na pandemia COVID-19, abandonadas por um presidente que incentivava à hidroxicloroquina sem provas da sua eficácia, que desencoraja as vacinas e minimizava o perigo do vírus, tudo enquanto corpos eram enterrados em praias e hospitais abarrotavam. Enquanto estava no poder, foram desmanteladas políticas ambientais e educacionais. Após o seu mandato, liderou organizações de atentado contra o Estado e convocou uma manifestação para a amnistia dos golpistas, responsáveis pelos ataques extremistas em Brasília, a 8 de janeiro de 2023.
Bem mais que filmes: são formas de resistência, condutores da memória, e levaram ao mundo a lembrança de um país corrompido pela ditadura. Ao trazerem casos contemporâneos para filmes como O Agente Secreto e histórias reais de vítimas do regime, como a família Paiva em Ainda Estou Aqui, é feita uma chamada de atenção para o perigo do crescimento da extrema direita no mundo, posição política não democrática, à austeridade e opressão, à liberdade como um dado não adquirido e que tem de ser protegido. É feito um grito de liberdade, é celebrada e reconhecida a cultura e o seu poder e importância no que faz um povo, no que caracteriza um país. E o que veio e vem em sequência dos filmes premiados é prova disso. As gravações de Ainda Estou Aqui pararam durante o mandato de Bolsonaro, mas, após o filme sair, a sua repercussão movimentou projetos de lei virados para a cultura mais acessível, para a conscientização de temas sociais, históricos e sobre direitos humanos, impulsionou o mercado cinematográfico brasileiro e motivou o avanço do processo que envolveu a morte de Rubens Paiva, assassinado durante a ditadura militar.
Mais que filmes, são o retrato de quem gritou por ajuda, de quem não conseguiu ser ajudado, de quem não quer passar pelo mesmo. São gritos de um país que quer ser livre, que não vai obedecer, que não se deixa ficar na injustiça e que fará arte sobre e para isso.

Fonte da capa: Jovem Nerd
Artigo corrigido por Mariana Rocha
AUTORIA
No 1° ano de licenciatura em Audiovisual e Multimédia, no entanto, sem qualquer jeito para tudo o que seja design ou relacionado ao mesmo, a Juliana descobriu um dia que a sua paixão pela arte, fosse música, teatro ou cinema, passava muito pelas palavras, pelas letras e pelo poder que estas têm no outro e na formação de vida de alguém. Apaixonada por música, por cinema e pela escrita, descobriu na Magazine um lugar para evitar a procrastinação e escrever tudo aquilo que tem para dizer sobre cinema, televisão, sobre a arte e o seu impacto.




