Opinião

O Horror do Vazio

Vivemos numa época em que tudo o que acontece está demasiado presente na nossa consciência. Seja tragédia, mudança ou alegria. É fácil sermos afetados  pelo que nos rodeia mesmo que não reconheçamos imediatamente qual a razão de ter acontecido. 

As expectativas convencionadas pela sociedade, por  meio da comparação com a vida alheia, que nem sempre é verdadeira, criam pressões que caem em cima de nós, condicionando a nossa existência. Perdemo-nos, vendo em outras histórias de vida  “uma ilha” repleta de atividades muito mais interessantes do que qualquer coisa a acontecer na nossa. 

Tédios acumulados, tempos vazios e solidão fazem-nos questionar: isto deve continuar? Devemos aceitar a presença da monotonia no nosso quotidiano?

Evidentemente que sim. E que se clarifique vigorosamente este facto. Preparemo-nos, pois nesta vida só temos duas certezas: a morte e o aborrecimento.

Encontramo-nos, muito recorrentemente, viciados no embalo de um movimento ansiado. A fobia de não ter algo de interessante, instigante, que encha todos os segundos estampados num relógio é uma praga mais incómoda que vizinhos com obras ao domingo.

A estagnação e o movimento são dois lados inseparáveis da mesma moeda. Decerto, tal como a vida tem pausas, o movimento estimulante também é inevitável. Não se esconde eternamente.

Que aversão intolerante é esta a uma das faces? Por que razão não se valoriza e anseia tanto o aborrecimento como o entusiasmo? Será a pausa vista como um bloqueio?

Fonte: Pixabay

Nada disso. Pode, eventualmente, existir algum bloqueio que cause uma vertigem à ação, mas, muitas vezes, a estagnação não representa essa barreira, mas sim um período de calma para nos podermos preparar para o movimento outra vez. Sem essa preparação, sem essa ponderação, a ruína é o troco que nos será dado pelo abandono da moeda original. Mas porquê?

A busca pelo movimento forçado torna o ser humano dependente. Como qualquer adição, a dependência necessita de um sustento cada vez mais enraizado nas massas da alma, e começa a requerer uma subida radical no espectro da turbulência do movimento. Aquilo que era movimento suficiente passa a ser uma queda livre. E qual será o próximo passo natural? Cair sem paraquedas?

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Em dias já perpetuados nos livros de história, o tédio era um luxo. Os santos contemplavam desertos, os filósofos procuravam silêncio, os poetas escreviam sobre a lentidão da vivência. Hoje, tudo o que envolva não obter de imediato um resultado minimamente excitante é dado como fracasso prático: se não surgir nada que  providencie aventuras inéditas constantes, muito facilmente nos resignamos perante o desespero de sermos vistos como desinteressantes pela trama do universo.

Não é verdade. A meu ver, deve-se esperar que a vida seja uma grande fila de espera, um anúncio de 30 segundos que não se pode saltar, uma atualização grande do computador, uma sessão de trânsito à hora de ponta. Assim, qualquer movimento inesperado tornar-se-á inconveniente ao aborrecimento.

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Artigo corrigido por: Érica Gregório

AUTORIA

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O António, de 18 anos, é um rapaz especialmente curioso, com interesse na envolvência da sociedade. Adora filosofia, e de pensar sobre aquelas camadas da existência que aparentam ser invisíveis à percepção. Pratica, no Substack, a articulação de postulações reflexivas, que representam a intriga inevitável do pensamento inquietante. Vibra com hip-hop melódico, e encontra na escrita e na criatividade uma forma de se expressar e crescer. Também procura aplicar o pensamento crítico no seu quotidiano, em busca da veracidade nas suas convicções. Parte desse quotidiano passa, portanto, por aziar no Fifa.