O que é a F1 Academy?
A emergência da F1 Academy no panorama do desporto motorizado global não representa apenas a criação de uma nova categoria de monolugares; constitui um movimento estrutural profundo, destinado a corrigir décadas de disparidade sistémica no acesso das mulheres ao topo da pirâmide do automobilismo.
Fundada pela Formula One Group, a série surgiu como uma resposta direta à falta de representação feminina nas categorias de acesso à Fórmula 1, nomeadamente na Fórmula 3 e na Fórmula 2, servindo como uma plataforma de aceleração técnica, física e comercial para talentos emergentes. Culturalmente, o projeto procura alterar a perceção global do automobilismo como um domínio exclusivamente masculino, focando-se num investimento a longo prazo para criar uma base sustentável que possa, eventualmente, produzir a próxima mulher a alinhar na grelha principal da Fórmula 1.
Para assegurar uma preparação técnica rigorosa, a F1 Academy utiliza um carro que serve como o degrau ideal na transição do karting para os carros de fórmula. O monolugar é tecnicamente equivalente a um Fórmula 4 de última geração, garantindo que as habilidades adquiridas sejam transferíveis para outras categorias de base, embora conte com modificações específicas que o tornam uma ferramenta de aprendizagem superior.
O formato dos fins de semana foi desenhado para maximizar o tempo de pista e a exposição. À sexta-feira, realizam-se dois treinos livres de 40 minutos e uma qualificação de 30 minutos que define as grelhas de partida. No sábado, a Corrida 1 introduz a regra de grelha invertida para as oito primeiras classificadas, testando o racecraft das mais rápidas ao obrigar a polesitter a arrancar do oitavo lugar. No domingo, a Corrida 2 é disputada com base na classificação original da qualificação, sendo considerada a prova de prestígio. Com um sistema onde a pontuação máxima num fim de semana é de 39 pontos, as regras de participação garantem uma renovação constante do grid: cada piloto só pode competir por duas épocas e qualquer campeã fica impedida de regressar, sendo “empurrada” para os níveis seguintes da pirâmide da Federação Internacional de Automobilismo (FIA).
Fonte: Motorsport
A maior inovação da F1 Academy em comparação às suas antecessoras é a integração visceral com a Fórmula 1. Desde 2024, todas as rondas ocorrem durante os fins de semana de Grande Prémio, permitindo que as pilotos corram perante multidões e sob o olhar atento de chefes de equipa e diretores técnicos das principais equipas. A visibilidade é amplificada por transmissões para mais de 160 territórios e pelo apoio direto das equipas da grelha de F1. Atualmente, onze das dezoito mulheres piloto que correm na F1 Academy exibem cores oficiais das equipas principais (com a McLaren a redobrar o investimento ao inscrever dois carros, enquanto a Cadillac aguarda por 2027 para se juntar à iniciativa). As restantes sete vagas são preenchidas por parceiros de prestígio, como a PUMA ou a TAG Heuer.
Além do aspeto desportivo, a série combate o “ciclo vicioso” financeiro que historicamente afastou as mulheres do desporto. O automobilismo exige milhões de euros em patrocínios e, tradicionalmente, os patrocinadores têm sido reticentes em investir em talentos femininos devido à falta de exemplos históricos de sucesso no topo do desporto. A F1 Academy quebra essa barreira através de um modelo de subsídio direto, onde a Fórmula 1 investe cerca de 2,25 milhões de euros anuais para reduzir a contribuição exigida às pilotos de 150.000€ para 100.000€, um valor que representa apenas uma fração do custo real de uma temporada competitiva de F4.
O calendário de 2026 reflete esta consolidação global, com sete etapas em três continentes, incluindo a passagem por Silverstone, 12 anos após a estreia de Susie Wolff, a última mulher a participar num fim de semana oficial de Grande Prémio, nesse mesmo traçado. Este caminho já produziu histórias de sucesso notáveis: Marta García, a primeira campeã em 2023, progrediu para a Formula Regional European Championship by Alpine (FRECA) e competições de Endurance; Abbi Pulling, vencedora de 2024, tornou-se a primeira mulher no pódio da GB3 e piloto de desenvolvimento na Fórmula E; e Doriane Pin, a campeã de 2025 que, como membro do programa de juniores da Mercedes, ascendeu este ano ao cargo de Piloto de Desenvolvimento para a equipa de Fórmula 1.
Fonte: Jakob Ebrey
Fonte de Capa: Motorsport
Corrigido por Raquel Bernardo
AUTORIA
A Maria está no segundo ano de Jornalismo e sempre foi daquelas pessoas que não consegue dizer que não a um desporto novo. Já passou por quase todos, mas foi a ginástica que acabou por dominar a sua vida durante anos. Agora, longe das competições, encontrou na Magazine o espaço ideal para manter viva a ligação a um mundo que sempre a fascinou.



