7ª Arte

Once Upon a Time in the West e a sua importância para a história do cinema – PARTE II

A história e os seus quatro plots que convergem no final

A história de Once Upon a Time in the West é complexa por ter estes quatro plots e interessante porque não conseguimos prever o que vai acontecer, o que cria tensão e expectativa.

O cenário é o velho oeste americano, mas, na realidade, apenas duas cenas foram filmadas no Monument Valley, no Utah, lugar icónico dos westerns de John Ford – quando Jill inicia a sua viagem para Sweetwater e quando percebemos a ligação do Harmónica com Frank. Todas as outras cenas exteriores foram filmadas num deserto em Espanha e as interiores nos estúdios do Cinecittà, em Itália.

Fonte: Pinterest

O facto de este filme ter uma mulher como protagonista é um fator de inovação nos westerns clássicos. Jill McBain é uma ex-prostituta que casou com McBain, o irlandês dono do rancho Sweetwater. Entretanto, pouco antes do reencontro do casal, a família McBain havia sido assassinada pelo bando de Frank, que andava disfarçado com a capa castanha característica dos Cheyenne, de forma a disfarçar o crime que cometeram. O crime havia sido sido ordenado por Morton, um capitalista ferroviário que sofria de uma doença degenerativa e queria que os seus caminhos de ferro pudessem chegar rapidamente até ao Oceano Pacífico. Só perto dos ¾ do filme percebemos que aquele lugar em “nenhures” havia sido adquirido por McBain, por ter água necessária para o desenvolvimento de uma cidade no deserto e por ser um entreposto de paragem para os comboios arrefecerem as caldeiras. Para completar esta história, temos Harmónica. Durante o filme, em algumas analepses, Harmónica vê a imagem de um homem desfocado a andar na sua direção, como se isso quisesse mostrar as suas motivações que nunca são expressamente declaradas. Esta falta de informação ao longo da história é esclarecida numa anacronia completiva ao mostrá-lo mais jovem, e logo percebemos a mitologia à volta daquele instrumento que nos leva à descoberta do real motivo para a sua busca por Frank.  

Fonte: ShotOnWhat?

O que ficou como referência 

Once Upon a Time in the West é um filme com muitas citações e referências a outros filmes, ao ponto de o filósofo francês Jean Beaudrillard considerar que Sérgio Leone foi o primeiro pós-modernista do cinema. Mais tarde, outros cineastas famosos – como Tarantino – usaram esta técnica nos seus filmes, sendo Once upon a time…in Hollywood uma espécie de homenagem ao original. 

A música também foi um elemento muito importante, apresentando uma mistura de trilha e música diegética que, sem ser uma muleta, pontua os diferentes momentos e personagens da narrativa.

Leone considerava que a caracterização física e visual já deveria trazer uma carga de informações para apresentar a personagem: qual chapéu e roupa; quão sujo e queimado de sol estaria; se usaria ou não um cigarro e como. 

Como já referido, ter uma protagonista feminina fez toda a diferença num western. Mas a força do filme está na forma, muito mais do que no conteúdo. Sérgio Leone entendeu como poucos a importância da imagem, do som e do tempo: algo que a música e o cinema têm em comum como formas de esculpir este último elemento. 

Fonte: Combat le media

Sérgio Leone tinha consciência da importância entre a cadência de uma imagem bem composta, do bailado entre a trilha sonora e a câmara, assim como da presença de grandes atores nesta ritualização que compõe uma obra de arte chamada cinema. 

Fonte da capa: Wallpaper Abyss

Artigo revisto por Andreia Custódio

AUTORIA

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Colecionadora (in)voluntária de diversas experiências de vida, interessada por tudo o que lhe desperte a sede de conhecimento: da literatura ao cinema, da filosofia à psicologia e de como ter uma refeição decente pronta em 10 minutos. Aprendiz no ofício da construção de narrativas, crê que somos o herói da nossa própria história. Promete que quando for crescida terá um perfil ativo nas redes sociais.