Os Caminhos de Rodrigo Leão

O asfalto arde com o calor da tarde. Na Rua de S.Paulo, as camisolas dos turistas estatuados em frente ao ascensor da bica são regadas pelo suor e torcidas pelas alças das mochilas empinadas que carregam às costas.

O negro do alcatrão é calcado por um homem alto e de passo leve. Os sapatos de couro desenham na rua uma cadência como um metrónomo. A camisa escura contrasta com o queixo redondo e com a pele alva.

“Eu não sou uma pessoa muito metódica. Não sei até que ponto a minha música vai deixar algo ou não. É uma música simples , eu não sou nenhum erudito”, confessa Rodrigo Leão enquanto desaperta o botão de cima da camisa preta e cumprimenta o dono de um café espaçoso que abriga duas mesas de matraquilhos.

Galardoado músico e compositor, Rodrigo Leão nasceu em 1964 e há cinco décadas que está nos holofotes do ecossistema musical, tanto a nível nacional – conquistou a medalha de mérito da infante D. Henrique pelos seus serviços prestados em prol da cultura portuguesa – como para lá do Atlântico, colaborando com gigantes da indústria como Beth Gibbons dos Portishead e Adriana Calcanhoto.

Rodrigo Leão: “Tenho uma necessidade e um gosto muito grande de tentar produzir música e conseguir concretizar todos os meus projetos”

O diálogo no balcão do café lembra um jogo de ping-pong entre tons de voz. Rodrigo, de voz baixa e profunda, pede um café e uma garrafa de água. Os dedos arrastam a cadeira de uma mesa no canto e, com a maior subtileza, senta-se sem fazer um único ruído, quase como se não quisesse incomodar o bradar vibrante da bola de madeira a entrar no buraco da mesa de matraquilhos. O seu olhar tem algo de melancólico. “Encontro na melancolia qualquer coisa que me agrada. Por vezes não há só tristeza, há também beleza”.

A graça na melancolia é partilhada com a mulher, a cantora Ana Carolina. No álbum Retiro editado em 2015, o único tema cantado em Português inspira-se precisamente nessa melancolia. As notas puras do piano tranquilizam enquanto o tanger das cordas do violino criam um crescente formigueiro. Tudo culmina num dedilhar de guitarra pausado pelo toque solene das teclas e acariciado pela voz docemente lusitana de Ana Carolina. “Vai, vai-te embora… Deixa-me viver”, o êxtase harmónico chega no verso, “já não importa. Também sei chorar”. A letra dança com os sons da orquestra Gulbenkian e faz voar os ouvidos até uma serra cristalina e verde. Uma mulher veste uma túnica branca enquanto um riacho molha-lhe os pés nus.

“Não é uma ligação muito consciente, antes intuitiva”. Rodrigo Leão pauta as palavras entrelaçando e desdobrando os dedos. “A Ana faz letras para muitas das canções que crio. É a primeira pessoa a quem mostro as ideias que vou tentando produzir”.

A Vida Secreta das Máquinas foi uma abordagem minha muito simples à música eletrônica com, de facto, gravações que fui fazendo em Goa, em fábricas lisboetas, na rua com pessoas a trabalhar. Não era um projeto para ter continuidade ou sequer ser gravado, mas depois de o apresentar no festival LisbON, fiquei com vontade de passar aquilo para disco”.

A vida das máquinas ganha corpo na Fábrica G#, o segundo tema do álbum. As influências do ambiental e do trip-hop pairam no ar enquanto surge ecoado um martelar incessante que é sustentado pela cadência do baixo. O ondular tecno dá narrativa à batida que se divide entre o domínio das máquinas e uma sinfonia soprada que pede libertação. Numa sala negra do CCB, os músicos reproduzem o som das máquinas em contraluz por trás de um pano translúcido.

Fotografia 2 – Rodrigo Leão: “Muitas vezes não sei o que estou à procura, ou o que vou fazer.”

De facto, nos últimos cinco anos, Rodrigo colaborou em vários projetos cinematográficos, contando a história em notas musicais de The Butler, A Gaiola Dourada, No Intenso Agora entre outros.

“Eu não sou uma pessoa muito metódica”. Rodrigo Leão não espera deixar um legado, nem nunca pensou muito sobre esse assunto. “Muitas vezes não sei o que estou à procura, ou o que vou fazer. Sei que vou estar horas a procurar ideias. É evidente que, depois, sinto que algumas são mais alegres ou melancólicas. Mas isto está diretamente relacionado com a minha maneira de ser, mas também com o meio que está à minha volta, os amigos, a família, as viagens que eu faço, é sempre uma parte da inspiração que eu procuro. Mas sempre com muita intuição.”

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