Opinião

Pobreza Global: Renovação na Continuidade

A pobreza global extrema cresceu em 2020 pela primeira vez em 20 anos, devido, principalmente, ao surgimento da Covid-19. A pandemia colapsou as economias mais frágeis, levando à rutura de comunidades inteiras, agravou os conflitos que levam a ondas de refugiados e teve influência nas crises das alterações climáticas. São cerca de 100 milhões de pessoas adicionais que estão a viver na pobreza como resultado da pandemia. Estes números, pelo menos para mim, são verdadeiramente assustadores e foi algo que desde cedo me colocou muitas dúvidas. Algumas tão simples como questionar-me sobre o facto de existirem pessoas que possuem tanto ou mais capital do que um país e, por outro lado, existirem outras pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia.

As desigualdades de riqueza aumentaram drasticamente e continuam a aumentar ao momento em que escrevo. O rendimento de um único bilionário mexicano, por exemplo, equivale ao rendimento de 17 milhões dos seus compatriotas mais pobres. O tipo de sociedade em que hoje vivemos criou mais prosperidade do que alguma vez se conheceu na história da humanidade, é certo, mas os custos – sobretudo na pobreza que causou a milhões de pessoas – foram elevadíssimos.

As nações capitalistas contemporâneas estão alicerçadas em séculos de escravidão, genocídio, violência e exploração. Foram forjadas com lágrimas e sangue, e apenas duram até aos dias de hoje devido à amnésia coletiva que sucessivas gerações foram sofrendo. Em Late Victorian Holocaust, Mike Davis recorda as dezenas de milhões de indianos, chineses, africanos, brasileiros, coreanos, russos, entre outros que morreram em consequência das secas, fomes e doenças perfeitamente evitáveis nos finais do século XIX. Todavia, nem todos estes desastres aconteceram na Era Vitoriana. Segundo o Banco Mundial, 2,74 mil milhões de pessoas em 2021 viviam com menos de dois dólares por dia. Uma em cada três crianças na Grã-Bretanha vive no limiar da pobreza. Morrem 11 pessoas por minuto devido à desnutrição, dados da Oxfam, uma confederação internacional de organizações de lutas contra a fome e pobreza. Tudo isto enquanto alguns CEO’s se divertem em passeios espaciais.

Recorrendo uma vez mais à obra de Mike Davis, em Planet of Slums descreve-se com profundidade e rigor um dos maiores flagelos da humanidade. Este livro afirma que a maioria das megacidades do sul do planeta é constituída por bairros de lata fedorentos e sobrelotados. Podemos encontrá-los em Daca ou Lagos, por exemplo, onde se alastram a miséria e a doença. Os habitantes dos bairros de lata representam cerca de um terço da população mundial, e os pobres urbanos em geral constituem pelo menos metade da população mundial.

Voltando aos CEO’s, Elon Musk, CEO da Tesla e o homem mais rico do planeta (mais de 300 mil milhões de euros), foi recentemente eleito personalidade do ano pela Time Magazine. O homem que fez uma sondagem no Twitter a perguntar se devia vender 10% das suas ações só para ter de pagar o “imposto dos bilionários” que os democratas querem criar. Diz o pobre homem: “Não tenho salário algum. Apenas tenho ações”. É por situações como esta que me apercebo de que algo está a correr muito mal: quando existe um indivíduo com mais 300 mil milhões de euros num mundo com 700 milhões de pessoas que vão dormir com fome, e este ainda se dá ao luxo de brincar com a situação.

Um dado curioso é o facto de a Global Hunger Index afirmar que para reduzir de forma sustentada a fome no mundo até 2030 o custo ronda os 300 mil milhões de euros. Exatamente o valor da fortuna de Elon Musk.

Quanto mais tempo vamos esperar? Este modelo de sociedade já teve tempo suficiente para tentar demonstrar que conseguiria satisfazer todas as necessidades do ser humano, mas tal não se realizou. É tempo de pensarmos noutra alternativa.

A cada dia que passa o rico fica mais rico e o pobre mais pobre.

Fonte da capa: ASTELUS

 Artigo revisto por João P. Mendes

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