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Praxe: violência, obediência cega e discriminação

A praxe académica é o conjunto de regras que define o que os alunos podem fazer, as relações entre eles e os rituais que devem cumprir. É uma tradição pela qual é quase obrigatório passar quando se frequenta o ensino superior, pelo caráter simbólico que ela tem: de integração dos alunos novos, de enaltecimento do curso e da faculdade e de preparação dos participantes para a sua vida.

A praxe integra os caloiros ao pô-los todos ao mesmo nível, que é sempre abaixo do dos alunos mais avançados, que humilham um grupo de estudantes do primeiro ano para que eles possam integrar-se na faculdade. Mesmo que haja caloiros a defender a humilhação por que passam ou mesmo a afirmar que não são humilhados, a verdade é que a sua presença nas atividades da praxe e a dos alunos mais velhos ajuda a perpetuar um sistema de organização social em que existe um grupo dominante e outro dominado – um dos princípios base de regimes totalitários.

Quanto à ideia de as canções que os participantes da praxe gritam para o conjunto dos participantes doutra praxe ajudar a unir o curso e a nutrir nos seus alunos o respeito pela faculdade e pelas matérias que estudam, este parece-me ser um argumento quase patriótico e clubístico, que o que nutre em quem o entoa é o desrespeito pelos outros cursos e pelas outras faculdades e a separação entre eles, pois gritar versos insultuosos abastecidos de machismo e homofobia a alguém para amar mais a si próprio demonstra uma patológica falta de auto-estima e a necessidade de rebaixar um conjunto de pessoas com uma agressividade igualmente patológica.

A praxe ensina aos alunos valores, como obediência e respeito pelas tradições, e por isso ela é uma atividade indispensável à preparação para a vida de quem passa pelo ensino superior, segundo alguns praxistas. Mas a obediência cega, tal como a aceitação e a prática de rituais acriticamente e sem questionamento, não é o melhor valor para se transmitir (principalmente numa universidade), exceto se nos encontrarmos numa ditadura, em que a submissão e a suposta ordem gerada por uma organização hierárquica são mais valorizadas do que a existência de liberdade e a capacidade de reflexão.

Critico o conceito de praxe para não criticar o que ela é na prática, que inclui sujar caloiros e ordenar-lhes que façam flexões e simulem posições sexuais. Mas “a minha praxe é diferente”, gritam de imediato alguns praxistas que querem defender a sua universidade e as suas práticas. Só que quem utiliza esta defesa como forma de viabilizar a sua praxe, além de estar, mesmo que indiretamente, a contribuir para que atividades que considera reprováveis aconteçam, está sempre a perpetuar um sistema de humilhação e dominação por parte de um grupo de pessoas que, só por ser mais velho, não merece que caloiros lhe olhem nos olhos.

Outro argumento a favor da existência da praxe é que nela só participa quem quer. No entanto, quem assim pensa analisou pouco o assunto, pois todos os alunos entram no ensino superior com vontade de se integrar e com medo da exclusão, o que os leva, juntamente com a pressão de massas e a falta de alternativa de atividades de inclusão, a conformar-se com as normas que encontram, incluindo a de ir à praxe.

É inevitável, então, a associação dessa tradição ao cultivo duma sociedade acrítica e conformada, que incentiva, sem o saber, a violência e a opressão. É necessário, por isso, proibir a praxe académica e incentivar as faculdades e as escolas superiores a criarem os seus próprios rituais de integração – saudáveis, pacíficos e não perpetuadores de discriminações.

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