Opinião

Quando vai e não volta

Esta podia ser uma crónica sobre o tempo e como ele está constantemente a avançar. Mas como dizia o anúncio: “poder, podia, mas não era a mesma coisa”. Deixo os dilemas do tempo para a próxima. Também não escrevo sobre finais de relações. Quer dizer, até escrevo. Porque hoje faço um ensaio empírico sobre unilateralidade e pastilhas elásticas que já deviam estar no lixo. 

Eu achava que esta palavra não existia e tinha sido criada por mim. No entanto, o Priberam diz que a unilateralidade é a qualidade do que é unilateral”. O que não é nada esclarecedor, por isso, para os mais desligados, unilateral – ainda segundo a classificação jurídica dada pelo Priberam – é um  “(…) contrato em que só uma das partes se obriga para com outra”. E provavelmente estão a questionar-se por que raio estamos a falar de termos jurídicos: qual seria a importância de um termo jurídico – que na verdade também tem significados na botânica? Na verdade, é um termo que se aplica muito no nosso dia a dia e vocês deviam processar-se se deixam essas relações perpetuar-se na vossa vida (daí o termo jurídico, sintam a piscadela de olho). 

Nós, seres humanos, temos imensos hábitos maus – posso começar a enumerá-los: inveja, comparação, medo de arriscar… Mas a verdade é que um dos nossos maiores e piores é o de não saber meter pontos finais nas coisas. Gostamos de ficar a mastigar as pastilhas elásticas, pelo simples hábito de as mastigar, mesmo quando já não sabe a docinho e está cheia de micróbios.  Simplesmente não é saudável. Não façam isso. 

Falo-vos de aprender a colocar pontos finais. Porque também abusava no tempo em que mascava a pastilha. Há certas pessoas que estão na nossa vida exclusivamente e é aí que reside o problema para receber ajuda, palavras amigas, favores, presentes, apoio moral, apreciação do talento, companhia quando a desejam, sentimentos… Esta unilateralidade pode ser normal em determinadas fases. Há alturas em que temos de estar a 150 por cento numa relação, porque a outra pessoa só pode estar a 50. Todos nós temos alturas menos boas e toda essa converseta é verdadeira. Mas temos de aprender a perceber qual é o timing certo para parar de andar em direção a alguém sem que a pessoa venha até nós, porque fazer todo o percurso sozinho pode ser exaustivo e desgastante. Precisamos de um bom motivo para correr atrás de algo.

Às vezes, questiono-me sobre o que “um bom motivo” significa. E até que ponto é que um bom motivo continua a ser bom. Quanto de mim tenho de esfolar enquanto corro sozinha? Quanto tempo devo tratar de uma flor que está aparentemente morta? Até que ponto é relevante a importância que damos às pessoas se não a recebemos de volta?

Esta, como todos as coisas aborrecidas da nossa vida, é resolvida da pior forma: sendo entalados. E não são aquelas entaladelas de levarmos um empurrãozito contra a parede. Não, não. São aqueles dedos que ficam presos numa porta e só nos apercebemos de que deixámos a mão para trás quando o dedo já está preso e roxo. E dói bastante.

 Quando era pequenina, de uma forma esquisita, entalei um dedo, no bowling. Não me lembro bem de como o fiz, mas sei que a minha unha caiu. Aliás, eu deixei que ela caísse sozinha, porque não queria tirá-la. Sabia que ela já não era uma parte do meu corpo, mas fazia-me impressão deixar de a ter ali. Saltou do meu mindinho numa viagem de carro em que eu dei um “mais cinco” ao meu pai. Não têm noção do quanto a Mariana de quatro anos berrou. Mas a verdade é que, dezasseis anos depois, não me lembro da dor, só me lembro de que doeu. Nem tenho marcas físicas que me façam lembrar disso. Não me recordo se foi complicado lidar com a perda ou de como era a unha antes de cair. E este é o problema com pessoas. 

Acho que inicialmente o processo é semelhante entre as unhas e as pessoas: estamos demasiado distraídos para nos darmos conta do entalão e só nos apercebemos disso quando já temos o dedo preso. Claro que há diferentes tipos de entalões e nem todos levam a que a nossa unha caia ou a que paremos de nos dar com as pessoas. Mas há vezes em que a nossa relação está como a minha unha estava: partida e sem esperanças de melhoria, à espera de cair. Há duas formas de o fazermos: ou arrancamos, ou deixamos que o fio se vá desprendendo. Mas, mesmo quando o fio se desprende, dói, porque sabíamos que ia acontecer, embora custe perder alguém. Lembramo-nos da relação que tínhamos com a pessoa e do que aquela presença significava na nossa vida. Tínhamos um carinho especial que ficou, porque isso não vai embora e deixa marcas.

Não tenho uma poção mágica que sirva de cura para relações unilaterais. Aliás, acho que, na verdade, há relações unilaterais saudáveis: fui fã dos One Direction de 2012 a 2015 (vou só fingir que não continuo com o meu amor incondicional aqui e que não estou à espera de me casar com eles), apaixono-me a cada novo drama asiático que vejo e tenho a mesma paixoneta platónica desde que comecei o curso. Eu sei que não haverá uma reciprocidade e estou tão bem assim. E digo-vos: as paixões platónicas são saudáveis. Quer dizer, às vezes, há quem chegue a um ponto em que já não é capaz de se interessar por ninguém de verdade. Eu não sofro desses males. Voltando ao que interessa, quando falamos de pessoas que são uma parte constituinte da nossa vida, não podemos manter mentiras só porque nos sentimos demasiado colados às memórias.

E não falo de cor. Só recentemente comecei a arrancar a unha em vez de a deixar ali a existir. Já sabem: correr uma maratona para termos alguém que não mexeu um dedo por nós não sabe bem. Por isso, comecem a aproveitar os últimos raios de sol do crepúsculo e a deitar as pastilhas fora na hora certa, pois já fazem mal que chegue.

Corrigido por Adriana Alves

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